domingo, 30 de novembro de 2025
É por ele que a gente fica
Cada dia estou mais desapegada das coisas materiais. As coisas vão chegando sem parar por necessidade de montar uma casa que não pareça tanto “a casa da música, era uma casa muito engraçada…”, e eu nem abro para ver. Deus bateu à minha porta ontem carregando um violão nas costas. Deus só pediu uma água para escovar os dentes, me disse que não era daqui e que havia dormido na pamonharia. Praticamente nunca tenho dinheiro em espécie, usamos Pix para quase tudo, mas dois dias antes de Deus bater à minha porta uma colega do trabalho me deu um dinheiro para que eu o passasse por Pix. Eu, que estou com a memória péssima, fui encaminhada mais do que depressa ao dinheiro. Dei a ele a água, mas também o dinheiro, e ele me disse: “moça, isso me faz ter esperança na humanidade, ainda existem pessoas boas no mundo”. Balanço a cabeça que sim, mas só penso que aquilo era o que qualquer pessoa deveria fazer.
As medicações mascaram minhas emoções e eu nem saberia dizer como estou. Apenas estou. Essa noite sonhei com meu avô. Era como se eu pudesse tê-lo salvado e ele ainda estivesse aqui, sentado na cadeira dele, dando uma gargalhada com as peraltices do Pica-Pau. Vô, eu quero acreditar que você está do outro lado e poder te abraçar. O Baco canta uma música um tanto quanto forte e deve ser por isso que eu me lembrei tanto de você. Ela começa com um terapeuta e uma menina, e ele pergunta se ela queria falar sobre. Ela diz que acha que não resolveria. Ele insiste que sim e faz uma pergunta: “se você tivesse mais cinco minutos com seu pai, o que você faria?”. E ela responde: “eu o abraçaria por cinco minutos”. Eu tenho raiva da morte porque ela matou meu pai. A gente mata e vai preso, a morte mata e não vai.
Te vejo do outro lado, em algum lugar bonito, porque eu preciso acreditar que o senhor está em um lugar muito bonito, porque aqui está feio demais, vô. As pessoas parecem robôs vagando por aí, destruindo tudo e querendo vender até o oxigênio que a gente respira. As pessoas são rasas, se você mergulhar se arrebenta inteira. Mas às vezes Deus bate na nossa porta e a gente pensa: será que ainda há um pedacinho de esperança? Não sei. A sensação de não pertencimento continua aqui, e a tristeza de não estar feliz por algumas realizações também permanece vivíssima. Acho que não mereço nada, mas minha psiquiatra repete sem parar que desistir não é uma opção. Confesso que continua muito difícil. Hoje meu “coração” está doendo desde cedo e “esfriando”, e isso só acontece quando algo ruim está por acontecer ou já acontecendo. Minha avó diz “vamos à emergência” e eu só digo que não é nada importante.
Vô, já disse para o amor da sua vida que ela não vai se livrar de mim, que sempre quero ter tempo para dormir com ela. Meu pai diz “duvido que vai querer sair da sua casa”, mal sabe ele que eu não estou feliz. Perguntei: “vó, desde que meu avô foi embora, quem dormiu com a senhora?”. Meu pai ficou em silêncio, porque ele sabe que a única pessoa que mudou qualquer rotina sem hesitar ou ser um peso fui eu, e minha avó reafirma isso. Deixar ela sozinha dói meu coração. Ela diz que eu a vigio até dormindo, que qualquer barulhinho que ela faz eu pergunto instantaneamente, mesmo medicadíssima: “vó, tudo bem?”. E por vezes eu nem lembro.
O amor realmente não tem limites para ser, ele simplesmente é. Às vezes a gente vai embora por amor, mas na maioria das vezes é por ele que a gente fica.
sexta-feira, 28 de novembro de 2025
Sufocamento de palavras !
Às vezes eu preciso escrever para me esvaziar, para me salvar de mim mesma ou para calar a voz que conversa comigo e não me deixa por para fora o que sinto com quem quer que seja. Porque às vezes há em nós coisas que não passam pela boca, só escorrem pelos dedos, e é preciso entender e deixar escorrer entre as letras, ainda que não haja construção poética, palavras bonitas ou uma organização exemplar de um texto coeso e etc., etc., etc. Nem sempre há em nós coesão ou retidão, a vida não é assim. Ela está mais para uma montanha russa extremamente radical, daquelas em que muita gente desmaia e depois volta em alguns segundos.
Acho que talvez as palavras não saiam da minha boca porque eu preciso ir embora em silêncio, porque eu amo o silêncio e amar, por muitas vezes, é ter que ir embora. Eu já fui embora algumas vezes amando muito e fui deixando de amar pelo caminho ou não. Talvez esse amor apenas durma dentro de mim, pois dizem que o que nos atravessa o peito se eterniza. Não sei ao certo. Mas o fato é que “matar” alguém ou algo que continua vivo é uma das coisas mais difíceis de se fazer, na minha humilde opinião de quem sabe pouco sobre muitas coisas, mas sente muito sobre a maioria delas.
Eu aprendi sobre quem eu sou, aprendi que quando eu ainda estou falante, lutando, segurando a flecha ainda que a mão sangre, é porque eu ainda estou lutando pelo que quer que seja. Mas no silêncio eu já me coloquei na estrada sem retorno logo à frente, como o GPS ama dizer quando a gente dirige meio perdido. E eu vou para sempre, ainda que me doa profundamente e às vezes dói por anos ou para sempre, igual àqueles machucados mal curados que, quando arrancamos a casquinha, parecem ter acabado de acontecer. Ir, por vezes, é infinitamente mais difícil do que permanecer. Ainda que seja mais cômodo não se movimentar, a gente vai.
Engraçado que, no fundo, toca Liniker na TV dizendo “eu não tô afim de desgrudar, mas quero fazer dos dias a paz”. E é isso. A gente passa a vida inteira em busca de paz e às vezes só precisa ir embora. Mas o mais perigoso é ir embora de si, talvez não se consiga voltar.
Nada com muito sentido, apenas o sufocamento das palavras.
quinta-feira, 27 de novembro de 2025
Tênue
Do bata esse carro por favor,ao pare o pé freando na primeira oportunidade. Como diz minha psiquiatra, aproveita essa melhora para viver. Sim, amanhã posso voltar para aquele lugar de merda, mas todos os dias que não são um dia para viver sem um elefante sentado no meio do meu peito, em que o choro é um riozinho e não uma cachoeira, devem ser um bom passo. A morte ainda não me assusta, mas nesse instante, que pode durar seja lá quanto tempo, a vida é também uma possibilidade.
A menina me para do nada no meio do corredor: “Taynã, eu estou triste.” Penso ser uma coisa de adolescente, que lido diariamente, e ela me solta, como um vômito: “Meu tio morreu.” Não sabia muito o que dizer e o que veio depois esfriou meu coração na hora, me deu uma paralisada. Ele su… e de uma forma tão cruel com ele mesmo que não consigo nem escrever sobre isso. Não sei o que dizer, tento acolher ela, mas a minha cabeça viu a cena inteirinha e até passei mal. Nessas horas penso sobre a vida e suas linhas tênues diante da morte. Vale a pena?
Mas logo depois, algumas horas mais tarde, o menino que perdeu o pai por um acidente (a vida nos escapa às vezes) estava calçando uma chuteira. Eu disse: “Fulano, você ganhou uma chuteira?” Apesar de tê-la achado muito pequena para o pé enorme dele, ele disse que o colega emprestou. Ele, que ama futebol, estava há meses jogando com um tênis com uma fita colando o buraco enorme no solado. Olhei em volta e todos os amigos dele, sem exceção, estavam de chuteira. Isso me doeu tanto, porque eu vi que doía nele.
Joguei no grupo: “Bora comprar uma chuteira?” Silêncio. Só uma pessoa quis me ajudar. Mas eu comprei, e comprei uma boa. Quando fui perguntar o número dele, mostrei a foto no celular. Ele ficou tão feliz que chorou. Aquele menino enorme chorou. Tentou me abraçar, mas eu não sei aceitar muito afeto. Partilhamos as lágrimas, mas sobretudo a alegria. A felicidade dele aqueceu meu coração, e no olhar triste que ele carrega, um punhado de alegria brilhava.
Pensei: a possibilidade de ajudar alguém vale todas as merdas que eu passo todos os dias nesse lugar. Então eu agradeço. E se eu tivesse desistido ontem ou anteontem, quem ajudaria aquela menina sentada no chão, chorando e gritando de ansiedade? Quem daria um brilhinho no olhar do menino? Permaneço porque deve existir um propósito, ainda que as forças negativas, que eu sei lá de onde vêm, me façam beijar a lona. A minha proteção é infinitamente maior.
terça-feira, 25 de novembro de 2025
Concha
Não me lembro da minha vida sem essa concha encostada em alguma parte da casa dos meus avós. Eu já era aficionada por ela, mas tinha medo de pegar por ser grande e porque minhas mãos ainda eram pequenas. Então eu me agachava, encostava meus pequenos ouvidos nela, sem tirá-la do lugar, e ouvia o mar.
Hoje, depois de mais de trinta anos, eu e minha avó estávamos fazendo roscas quando ouvimos um barulho de algo caindo. Minha avó se assustou, achando que fosse uma batida de carro, mas era só um objeto perto das plantas. Quando olhei para o lado e vi a concha, peguei-a como a criança que um dia quis pegar. Fechei os olhos e ouvi o mar, saí do mundo por alguns segundos. Falei: “Vó, escuta aqui o mar, mas fecha os olhos”, e assim ela fez.
Contei para ela o quanto sou apaixonada por conchas e que, quando fui a uma praia cheia delas, fiquei parecendo uma criança vendo tudo pela primeira vez. Mas o fato é: criei uma lembrança da minha avó ouvindo o mar de olhos fechados que nunca mais vou esquecer.
segunda-feira, 24 de novembro de 2025
Quem vai saber
Quando você aprende que ninguém pode te salvar e que você não quer ser a escolha de ninguém, e sim a oração, a prece ou um pedido para uma estrela cadente, um pedido ao soprar a vela de aniversário, mas nunca, jamais uma opção, você não aceita mais as mesmas coisas, porque passa a se olhar com o mínimo que seja de amor. Eu também sou uma grande perda e um bilhete premiado, por que não? Não aceitar menos do que merece. Eu também mereço. Se não tiver ninguém do outro lado da rua, foda-se, sei atravessar sozinha. Pode ter alguém orando por mim todos os dias, esperando que eu a cruze em uma esquina qualquer, na fila do mercado ou apenas em um esbarrão despretensioso ou não, quem poderia saber? Se libertar é também se permitir o movimento. Como diz a música do Baco, só envenena água parada. Então, se movimenta. Me preguem na cruz, coloquem fogo, quem liga? Posso ser a vilã da sua história ou o amor da sua vida. Quem vai saber?
domingo, 23 de novembro de 2025
Prisão perpétua
Se me perguntassem hoje do que mais me arrependo na vida, não é ter ficado tanto tempo em um lugar onde eu não me cabia mais, se é que algum dia eu realmente coube. Isso não importa neste momento. O que mais me arrependo é ter arruinado a confiança e a admiração que ela tinha por mim, mas, sobretudo, tê-la magoado. Eu sei que não poderíamos ser felizes juntas, ainda que achássemos ter certeza de que seria eterno, e eu posso dizer que acreditava nisso. Mas magoá-la foi como enfiar uma faca no meu peito e no dela, atravessando-nos irremediavelmente para sempre.
Eu sei que ela também errou comigo, mas eu não errei só com ela; errei comigo também. Fui condicionada a não cometer erros, e sinto que nunca vou me perdoar por isso. Quando penso que errei com alguém, meu coração dói demais e me falta o ar, mesmo que a pessoa também tenha errado comigo. Eu não poderia… Eu colocava todo mundo que cometia esse erro na mesma caixa, até acontecer comigo e eu entender que não é bem assim. Eu não tenho orgulho, e nunca mais falharia de novo com quem quer que fosse dessa maneira. Gostaria de voltar no tempo, não para ficarmos juntas, mas para não ter errado e não ter machucado você. Isso me persegue como um fantasma, se arrastando atrás de mim e dizendo que eu não mereço nada de bom, porque eu nunca poderia ter machucado ela.
As coisas fugiram do meu controle, e eu sempre tive cuidado para não perdê-lo, independentemente da situação. Eu não fiz o que fiz, nem fui embora, por falta de amor, ou porque uma pessoa com informações privilegiadas tenha cruzado meu caminho em forma de caos fantasiado de amor. Se sentir viva também é se sentir enxergada. Ela mesma disse que só tinha medo de que eu me matasse. Devia ter pena de mim, um dos sentimentos mais tristes que alguém poderia ter por mim. Já não me enxergava como um ser humano, mas como um relógio-bomba suicida.
Eu sei que já pedi perdão a ela infinitas vezes, pessoalmente e de todas as formas possíveis, mas também sei que ela nunca me perdoou, e isso massacra meu coração. Chico Xavier costumava dizer: “Fico triste quando alguém me ofende, mas, com certeza, eu ficaria mais triste se fosse eu o ofensor… Magoar alguém é terrível!” E é terrível demais. Já se passaram anos, mas eu também nunca me perdoei e me condenei à prisão perpétua.
Injustiça
Mais uma vez, estou diante da impossibilidade de amar a “minha casa”. O combinado era fazer a minha e reformar a deles, que não é nada legal. Mas meu pai mudou os planos, achou por bem fazer um galpão para alugar, que sabe lá Deus quando estará terminado e alugado, para então arrumar a casa deles. Minha mãe está envelhecendo e sempre quis uma casa arrumada, e como eu posso me sentir feliz na minha casa se a deles não está como ela queria?
O combinado nunca saiu caro, mas descombinar sai caríssimo. Já estava difícil recalcular a rota para amar esse novo lugar, e agora que sei disso tenho certeza de que não vou conseguir. Porque isso não é nem um pouco justo. Eu deveria saber da verdade antes e com certeza teria decidido que não.
Agora estou me sentindo péssima: triste, frustrada, e nem quero estar aqui parecendo, sem querer, estar tirando o sonho da mulher que eu mais amo no mundo. Meu pai pensa muito nos outros e não o suficiente na minha mãe.
quarta-feira, 19 de novembro de 2025
Arte!
"Marcas de lágrimas no sofá para lembrar dos olhos que não voltam.
Todo abraço acaba, eu me diminuía pra caber nos seus braços.
Eu sou tão idiota, passou da hora de eu voltar pra mim.
Eu tô com saudade de mim mesmo (saudade de mim mesmo), dos lugares que não conheço só porque me prendi no lugar errado.
Me contaram as mentiras que ouviram sobre mim e, mesmo sabendo que é falso, quase cheguei a acreditar.
Eu percebi: eu fui deixando de viver só pelo medo de errar.
Hoje procuro alguém pra me ajudar a pecar um pouco.
Mal posso esperar pra morrer de amor de novo.”
Caralho, Baco, que álbum foda. Incrível como a arte nos move, nos salva, nos movimenta. Arte de todo tipo: na natureza vivíssima, na pintura que ninguém mais vai fazer igual, na música, no mover do corpo, nas palavras, nos seus olhos.
Você sabia que as digitais são moldadas pelos movimentos do feto e sua interação com a bolsa amniótica, o que garante que cada impressão digital seja única, até mesmo em gêmeos idênticos? Deus nos fez arte puríssima.
O dançar dos pássaros, dois corpos embolados, alguém chorar na sua frente porque confia em você para tal coisa — eu acho isso profundíssimo. Chorar na frente de alguém é mais íntimo que fazer amor.
Mas os olhos… olhos vistos bem de perto ou com a luz do sol refletindo neles são mais bonitos do que o quadro de Gustav Klimt, O Beijo.
Quando eu era mais jovem, eu acreditava realmente que moravam borboletas no estômago e, quando a gente gostava de alguém, elas batiam suas asas e dava aquele friozinho. Como pode isso? Quem mais no mundo será que já acreditou nisso?
Comprei uma meia de Noite Estrelada, de O Beijo, da Mona Lisa, de O Grito. Enfim, tem arte até nos pés. Imagine só nas retinas. Tenho certeza de que a retina fotografa cada detalhe do que vemos e que isso fica gravado eternamente. O que é visto nunca mais poderá ser desvisto.
Eu sou intensa até quando não quero ser, tentando ser racional, trabalhando isso com amor por mim. Mas eu sou profunda, tenho apreço pelo amor.
Você já foi chamada de “meu amor”? Caramba, que arte. Angelina
segunda-feira, 17 de novembro de 2025
!!
⸻
Um banho comum parece ter girado uma chave na minha cabeça que me deixou tonta até agora. Uma coisa boba, mas que reflete e reafirma algo muito profundo: parei de olhar para mim, parei de me querer bem, de cuidar de mim. Passei a mão pela minha axila, coisa que obviamente faço todos os dias, mas dessa vez eu levantei os braços e olhei. Nunca havia tantos pelos. Não tenho nenhum tipo de problema com quem gosta e deixa, mas eu não gosto em mim. Eu fiquei parada olhando e pensei: até que ponto eu estou chegando?
Menina, não tem ninguém te esperando do outro lado da rua não. Acorda. Ninguém está te escolhendo ou rezando para que você fique. Olha para você. Até quando você vai ficar na porra dessa ponte? Até quando vai se culpar, se martirizando porque errou, porque chateou ou entristeceu alguém? Você é um ser humano. E quem fez isso com você? Vai deixar ser sucumbida mesmo? Hein? Você vai se abandonar na porra desse buraco mesmo? Acorda. Não tem ninguém vindo a cavalo te salvar não. Se salve. Você sempre fez isso. Não tem ninguém? Foda-se, que sejam felizes sem você. Você não significa tanto quanto acha que significa. Estão seguindo suas vidas enquanto você joga mais uma porra de pá cheia de terra na sua cara. Quer morrer? Então morra, mas morra tentando, porra.
Não vem ninguém não. Talvez venham para o seu velório e se lamentem de mãos dadas com outras pessoas enquanto você está aí num caixão, esperando porque ama. Que se foda. Ame você. Fique aqui, mesmo se declarando, se derramando e se destruindo. Indo, indo, indo. Se alimentando de migalhas que nem os pombos se sentiriam alimentados na Praça da Sé. Está esperando pelo quê? Hein? Está esperando pelo quê? Por quem? Vai se foder. Taynã, espera nada de ninguém não. Segue a sua vida, porra. Olhe para você. Cuide de você. Você não consegue se olhar nem no espelho mais. Que merda. Engole a porra dessas palavras que você escreve aqui. Estão cagando. Você não é escolha de ninguém. Então você se escolha. Ou vai se foder.
Angelina.
sábado, 15 de novembro de 2025
Fui a um aniversário, mas as pessoas foram chegando, chegando, todo mundo conversando ao mesmo tempo, e eu tive a mesma sensação de quando o metrô parou no meio do túnel em SP e eu pensei que fosse morrer sufocada, como se estivesse em uma lata de sardinha. Eu me levantei e fui embora, nem consegui me despedir. Acho que fingir que está tudo bem foi por água abaixo depois dessa. Pqp.
“Me passa seu Pix, quero te dar um presente pra sua casa.”
“Não, não, imagina, não precisa.”
E não passei, porque só o ato de ter pensado em mim já valeu. Mas entendi, com mais força, que eu não consigo aceitar receber as coisas. Doar, doar e doar, e não saber receber. Mesmo indo embora, permaneço angustiada, e eu gostaria de estar sentada dentro do mar, na praia de conchinhas, ou no meio do silêncio da cachoeira. Nessas horas, me faz muita falta alguém que me acalme, que me faça pensar em outra coisa qualquer e me diga que meu coração não vai parar ou saltar da minha caixa torácica arrebentando tudo. E o foda de tudo isso é que não é qualquer pessoa. Muita gente tenta entrar na minha vida, mas o muro está mais alto que o de Berlim, e mesmo que escalem, não me encontram do outro lado.
Eu preciso tentar seguir em frente, senão não vou suportar a vida. Preciso atravessar a ponte, mesmo que corra o risco de me desequilibrar e cair no meio do caminho. Talvez eu já tenha caído e esteja, possivelmente, tentando subir de volta para a ponte. Meus pés estão formigando e eu queria estar com a cabeça no seu colo, em total silêncio, focando nos seus batimentos cardíacos até parar de sentir o meu quase saindo pela minha boca. Mas não. Eu estou só, e tudo bem. Já está dando a hora de tomar minhas medicações. Saturno me espera, e que eu atravesse a ponte você estando ou não para me pegar do outro lado.
Angelina.
sexta-feira, 14 de novembro de 2025
Sempre volto
Eu disse que você não me salva e que não voltaria mais aqui, mas a verdade é que eu sempre volto porque aqui é o único lugar seguro para me derramar senão eu me afogo como quando alguém mergulha sem saber a profundidade e bater as pernas não é o suficiente para que ela vá para superfície . Eu disse a menina você está tão acostumada que amar é “ caos” que quando você está boiando por águas claras ,calmas e simples você se afasta porque a paz te assusta, e eu não estava dizendo unicamente a ela , estava dizendo a mim , me acostumei tanto ao sofrimento, ao estado de alerta a incessante busca por ser minimamente feliz ao caos que me perdi e tentar consertar algo que se quebrou é muito difícil porque sempre nos escapa pelos espaços que ficou e quando se perde a confiança em si se perde a confiança no outro e sempre acho que vou me afogar , me perder ainda mais ,a ponto de não saber a trilha de volta mesmo que marque com algumas fitas amarelas, hoje me defendo até do amor sei que isso não é justo comigo e nem com quem deseja ou já me ame . Eu cansei de curar , não que eu esteja reclamando mas eu gostaria de também ser curada. Sempre fui meio desconfiada, nunca me entreguei de cara, mas não confiar em ninguém me paralisa a ponto de achar que eu nunca mais poderia confiar em quem quer que seja! As coisas estão chegando e logo vão para dentro da casa que eu ainda não consigo chamar de minha e muito menos sentir a empolgação que qualquer pessoa em sã consciência estaria, fico pensando nas possibilidades, vou por um quadro ali , uma planta não sei aonde, mas falta o principal que é o pertencimento , estou só a um bom tempo mas não me acostumo , eu amo o silêncio e a quietude mas me falta um coração batendo no meu ouvido, uma respiração no meu pescoço ou perto do meu nariz porque estar em silêncio acompanhada e se sentir em paz ,segura e completa foi um dos de sentimentos mais profundos que eu já tive e a possibilidade de nunca mais ter isso me deixa como quem tapa os olhos roda bastante e depois precisa seguir em uma linha reta , eu sei que existe a possibilidade de ser feliz sozinha mas é que eu não quero , eu não quero de jeito nenhum , a cama é grande demais pra mim , o guarda roupa sobra espaços , estou fazendo tudo como um robô, e eu digo pra qualquer pessoa que perguntar que não eu nego até a morte , mas eu morro , morro de saudades dela e seguir em frente é penoso porque acho tristíssimo um mundo em que não existamos juntas , e eu começo meus textos falando de pássaros e acabam em você , em como a vida tem sido difícil e sempre acaba em você ! E nós não existimos mais , nos escapamos , nos perdemos , nos machucamos e soltamos nossas mãos para um sempre de uma mãe que deixa intacto o quarto do filho que foi embora , porque no fundo ela sempre acha que ele pode voltar a qualquer momento, mas não pode e se contentar com isso e seguir em frente é feito pisar em prego descalço , gostaria de estar embriagada, tolerar a realidade sã e consciente é apavorante , as vezes da vontade de abusar da dose do remédio mas eu acordaria irremediavelmente com saudade de você , porque entre o hoje e o eterno não existem paradas! Angelina
terça-feira, 11 de novembro de 2025
Pra sempre sempre acaba!
Ninguém é você! Que merda, ninguém é você e ninguém sou eu, e sei lá o que isso significa pra você! Meu silêncio é maior que Saturno e dói mais que dente cariado ou bater o dedinho na beirada do sofá. Que merda, eu tô te ouvindo na porra da minha playlist inteira! Seu silêncio é ensurdecedor, faz mais barulho que um raio cortando uma árvore e que o tsunami que devasta cidades inteiras. Que porra! Por que essa merda não podia ser simples? Por que a gente teve que ir embora? Por quê?
Os pinguins ficam pra sempre. É irreversível, é irreparável e é triste pra caralho. Tem uma casa, tem móveis, mas não tem a porra da sua cara linda olhando pra mim no corredor. Não vai ter você na minha cama me desejando como quem sente fome, nem ficando brava porque eu esqueci alguma coisa. Não vai ter uma briga pelo seu buquê, muito menos uma criança com meus olhos correndo pela casa como você queria. Você dizia que queria com meus olhos.
Você deve casar, amar e realizar tudo isso com outra pessoa. O destino foi cruel com a gente. Cruel demais. Cruel como as pessoas me tratam diariamente, como um pedaço de nada. Às vezes, ou quase sempre, eu fico me perguntando que caralhos eu estou fazendo aqui. Não realizei absolutamente nada, nada, nada do que eu já sonhei quando ainda havia em mim a capacidade e a possibilidade do sonho.
Eu sei que tá cheio de palavras chulas, acho que estou tendo um surto de raiva. Destino do caralho! Não vai ficar tudo bem. Você disse que ficava, eu disse que não ia embora. E agora? Faço o quê com meu coração fibrilando na palma da minha mão? Engulo ele e me amo por dentro?
Não vou escrever mais nessa merda que ninguém lê e que, na real, não tá me salvando de nada. Só tapando buraco, igual um copo que quebra e a gente tem a ilusão de que pode colar e enchê-lo novamente.
Você não sabe o que eu sinto e eu não sei o que você sente. E assim nos despedimos para sempre. Um “para sempre” que era nosso, mas jamais poderia ser.
Angelina
Amor meu grande amor
“…pois tudo que ofereço é meu calor, meu endereço, a vida do teu filho desde o fim até o começo.”
Acordei com essa música na cabeça depois de, novamente, uma arara me acordar, e elas fizeram a festa por muito tempo. Eu sou seduzida pela palavra, não por palavras bonitas e requintadas. Ok, ok, também as acho atraentes, mas eu sou realmente entusiasta das palavras que exalam sentimentos, que escorrem pelos dedos ou pela boca.
Já me pediram por diversas vezes: escreva um texto pra mim? Obviamente não. Não sou máquina de escrever, sou coração de sentir, e às vezes esses sentimentos escapam pelos meus dedos longos.
Eu não quero ser a opção de ninguém em nenhuma esfera da minha vida. Eu quero ser escolha. E se ninguém me escolher, tudo bem. Talvez eu me escolha. Na verdade, não querer ser opção já é eu me escolhendo, e não é tão fácil quanto escrevem por aí. “Ah, porque eu me escolho.” “Ah, porque eu devo me amar em primeiro lugar.” Talvez, para os egoístas, isso seja a coisa mais fácil de se fazer, mas não é pra todo mundo. E, como diria meu pai, você não é todo mundo.
O menino parece estar apaixonado. Primeiro amor juvenil. Quer comprar um gloss não sei das quantas, famosinho entre eles. Digo a ele: escreva uma carta.
Ele diz: carta?
Digo: sim, ela vai gostar mais. Pode dar o presente, mas escreva uma carta.
Ele diz que vai usar a IA. Wtf? E desde quando IA tem sentimento, porra? Escreve o que você sente. Não precisa escrever bonito, precisa sentir bonito.
Eu sempre achei bonitas as cartas, daquelas que tinham envelopes, carimbos e demoravam a chegar. Porque o amor é assim: ele demora a chegar. E hoje, com as facilidades, vivemos a era do amor estilo “fast food”. Ninguém quer esperar por muito tempo, tipo aquela música da Adriana Calcanhotto: “Entre por essa porta agora e diga que me adora, você tem meia hora pra mudar a minha vida.”
Deixando claro que acho a música linda, mas meia hora? Prefiro o Emicida dizendo: “Do fundo do meu coração, do mais profundo canto em meu interior, ô, pro mundo em decomposição, escrevo como quem manda cartas de amor.”
Acho que falo de amor demais. Talvez seja o que transborda em mim, ou o que falta em mim. Quem vai saber? Na verdade, quem quer saber?
Angelina
segunda-feira, 10 de novembro de 2025
Clarice Lispector
"Acordei hoje com tal nostalgia de ser feliz. Eu nunca fui livre na minha vida inteira. Por dentro eu sempre me persegui. Eu me tornei intolerável para mim mesma. Vivo numa dualidade dilacerante. Eu tenho uma aparente liberdade mas estou presa dentro de mim. Eu queria uma liberdade olímpica. Mas essa liberdade só é concedida aos seres imateriais. Enquanto eu tiver corpo ele me submeterá às suas exigências. Vejo a liberdade como uma forma de beleza e essa beleza me falta.”
domingo, 9 de novembro de 2025
Vó
Ontem foi a minha primeira gargalhada genuína deste ano tão difícil, e ela foi com a minha avó. Eu nunca havia presenciado essa gargalhada dela dessa maneira e isso me tocou de uma forma que talvez ela nem tenha noção. Presto atenção nos detalhes. Vó, quando cheguei de São Paulo depois de ter passado uns maus bocados, eu entendi o motivo de ter ido para lá. Assim que cheguei, peguei seu exame e recebi uma porrada no meio do peito: câncer. Vó, o mundo girou e eu chorei de soluçar só de pensar na possibilidade de você sofrer e de perdê-la, mas a senhora mais uma vez me mostrou o quanto é forte. “Tenho isso? O que preciso fazer? Ok.” E fez tudo certinho, e eu pude acompanhar cada detalhe, atenta às mínimas coisas, porque eu ter ido para São Paulo foi para isso, para te acompanhar. Que mulher forte, sábia e de fé. Ninguém dizia que teve câncer, porque a senhora nunca abaixou a cabeça e nunca desistiu de nada nessa vida. Quão agraciada eu fui e sou.
Quando o vovô foi parar no hospital, eu já peguei minhas coisas e vim para a casa da senhora, porque meu avô nunca deixaria você sozinha. Três dias depois ele partiu, e eu te vi dormir chorando pela primeira vez na minha vida. O amor da sua vida tinha partido e eu tive tanto medo de perder você também, porque parecia que o mundo não poderia existir sem vocês dois juntos. Mas mais uma vez a senhora me mostrou o quão forte e resiliente é. Eu moro com a senhora há praticamente oito anos porque Deus me deu esse presente. Ele me deu duas mães e dois pais. Não é a senhora que precisa de mim, sempre fui eu quem precisou da senhora. Seu amor já me salvou tantas e tantas vezes. Seu cuidado comigo é algo que ninguém vive tão de perto quanto eu.
Por muitos anos, eu tive medo de dizer à senhora quem eu realmente era, mesmo sabendo que a senhora já sabia. E hoje falamos disso com uma naturalidade que aquece meu coração. Não ter receio de quem eu sou perto de você me torna uma pessoa melhor. Tenho visto a senhora envelhecendo, esquecendo algumas coisas, mas nossas conversas sempre são as melhores. Eu aprendo com você e você aprende comigo. Eu não faria nada diferente. E não é só porque meu avô não te deixaria sozinha, é porque eu não te deixaria sozinha. Eu prometi que, se um dia precisar de alguém para literalmente te carregar, eu estarei lá, e se tiver alguém comigo, vai ter que entender isso.
Me indicaram um filme e eu tive muito medo de assistir, porque eu tenho medo de perder você. Sempre tive pânico de perder você. Mas me deu vontade de assistir e eu chorei. Não foi um choro de tristeza, foi um choro de agradecimento, porque te tenho aqui e porque nós nunca nos separamos. Você pede para eu comer, eu peço para a senhora ter cuidado ao atravessar a rua. A senhora pede para eu não chorar e eu peço para a senhora viver mais, aproveitar mais. A senhora diz que sempre pensou na velhice e por isso vocês compraram algumas coisas para não depender de um mísero salário mínimo de uma aposentadoria, que é a realidade de uma grande parcela da população, infelizmente. Mas, vó, troque o forno, viaje mais. A senhora merece. Não precisa guardar mais nada. A senhora tem o suficiente. Só não vai embora para sempre.
Eu não quero estar em primeiro lugar no seu testamento, mas me deixa num pedaço do seu coração. A senhora também não sabe quem ama mais, só sabe que ama. E eu te amo e te agradeço pela oportunidade de ser a sua “neguinha”.
Com amor,
Angelina
sábado, 8 de novembro de 2025
José Saramago
"Tenho muitas razões para pensar, por exemplo, que o grande acontecimento da minha vida foi exatamente esse. Foi ter conhecido ela. Imagina que eu não tivesse conhecido ela. Você poderia dizer: ‘Ah, mas você teria conhecido outras mulheres’. Mas não é disso que se trata, não é uma questão quantitativa. Era simplesmente o fato de ter conhecido a ela. Nada mais. E isso mudou a minha vida completamente. Agora você me diz: ‘Era capaz de imaginar a vida, sem ela?’. E posso dizer que não sei como iria viver. Viveria evidentemente, mas não sei como.”
— José Saramago, sobre a companheira, Pilar del Río.
No documentário “José e Pilar: Fragmentos” (2010), de Miguel Gonçalves Mendes.
sexta-feira, 7 de novembro de 2025
Chão
Eu tô deitada no chão puro e gelado depois de um dia excessivamente exaustivo e difícil. Sou interrogada diversas vezes pelos meus colegas de trabalho: “Taynã, o que você está fazendo aqui? Tem coisa muito melhor pra você, um salário melhor.” E eu sempre respondo: estou onde Deus e a espiritualidade querem que eu esteja e sei que é temporário, mesmo que achem que eu tenha “gabarito” demais para estar lá. Não é fácil, nem recompensatório a ponto de valer numericamente na conta bancária.
Hoje foi uma correria que parecia que eu era oito pessoas ao mesmo tempo. Mas eu sei quem estava comigo. “Corre, a menina desmaiou!”, e enquanto atendo uma, aparece outra, e ninguém parece se importar muito. Eu acho isso assustador. Não sei de onde, ou na verdade sei, que veio a força para carregá-las no colo enquanto os “machos alfa” nem se levantaram. Eles, os alunos, só chamam pelo meu nome como se chamassem por suas mães: “Taynãaaa! Crise de ansiedade, não consegue respirar!”.
E eu tenho certeza de que a espiritualidade estava comigo. Ela se acalmou em segundos, e isso não foi só hoje. Já chamei Conselho Tutelar por abuso de menor e tantas outras infinitas coisas que acabam nas minhas mãos naquele ambiente inóspito. Mas eu sei que aqueles meninos precisam de mim, não porque eu seja importante ou especial, mas porque a espiritualidade faz coisas inimagináveis ali me usando. Muitas delas só eles e eu sabemos o quanto fazemos diariamente e o quão difícil é.
Deitada nesse chão frio, eu agradeço pelo dia de hoje. Porque, para além dos meninos, eles me salvaram mais uma vez. Amanhã eu não sei. Mas hoje eu venci mais um dia.
E enquanto a galera está se arrumando para viver a noite goiana, eu estou apenas com uma roupa de ginástica no chão. Eu tenho tanto medo do mundo e, ao mesmo tempo, um mundo inteirinho mora em mim. Eu tenho medo de atravessar a rua… você entende o que estou dizendo?
Talvez você viesse, talvez não. Talvez eu sentisse paz, talvez não. Talvez você pulasse em mim cruzando os braços no meu pescoço com saudade, talvez não. Talvez eu te contasse que meu dia foi muito difícil, mas talvez você fizesse carinho nas minhas costas e eu esquecesse de tudo. Talvez eu ainda quisesse ficar, talvez você fosse embora. Talvez eu te amasse, talvez não houvesse outra no seu caminho, ou talvez já tenha. Talvez nossos mundos colidissem e virassem estrelas. Talvez eu vivesse. Talvez, se você pegasse na minha mão, eu não teria medo de atravessar a rua.
Talvez você achasse meus textos bonitos, talvez eu os ache cafonas. Talvez você pichasse meu nome no muro da minha casa. Talvez você nunca mais passasse na minha rua. Talvez eu chegasse de surpresa, talvez não.
Eu estou tão exausta que não levantei até agora, e talvez eu nem queira levantar. Talvez eu fosse embora e nunca mais voltasse.
Ah e eu sempre preferi ser chamada de Angelina!
quinta-feira, 6 de novembro de 2025
Quase
Como pode alguém, em sã consciência, se acostumar com o céu? Olho para o alto, lá beeem longe de mim, as nuvens densas e imensas; passarinhos voam alto, outros mais baixo, e o céu é mais azul que as águas das Maldivas. Aliás, o que são as Maldivas quando se tem um céu? É gratuito, é pintura viva que nenhum artista no mundo conseguiria pintar ou fotografar em sua grandeza milimetricamente perfeita.
Penso naquela pergunta tão usada por aí: “Que animal você gostaria de ser?” A maioria responde animais fortes: leão, onça, leopardo… sempre algo poderoso na cadeia alimentar. Eu queria ser aquele passarinho, livre, tão livre. E que bonito deve ser ver as nuvens robustas lá de cima, que parecem mais um algodão-doce gigante ou como se águas tivessem sido congeladas naquela forma.
Sempre pensei nas nuvens como algodões que formavam milhões de possíveis animais, objetos, rostos ou qualquer coisa que a imaginação criasse. Mas hoje, para além disso, eu pensei em águas congeladas formando aquele espetáculo (e, cientificamente, sem poesia, é quase isso mesmo).
Mas isso dura pouco. A tristeza me bate na cara como se dissesse: “Acorda, menina. Você não é esse passarinho. Você não alcança as nuvens, mesmo que fique nas pontas dos pés, e muito menos é livre. Você se prendeu em si. E passarinho na gaiola não canta: é ilusão. Ele chora. O bater de asas é sua salvação diante da grandeza. Um animalzinho tão miúdo.”
Minha cabeça pensou tanto e imaginou tantas coisas que eu não dormi essa noite. Tive dores de cabeça durante o dia e me deitei num chão cru, sem a maciez de qualquer coisa que fosse possível. Dormi de exaustão. Meu emocional e meu lado racional têm travado batalhas de gladiadores, e quem perde, em todas as circunstâncias, sou eu.
Eu fui quase boa. Eu fui quase inteligente. Eu fui quase brilhante. Eu fui quase livre. Eu fui quase escolhida. Eu fui quase amada. Eu fui quase feliz. Eu fui o quase ou a segunda opção de tanta gente. Quando nada mais existia, eu existia, mas eu era quase. Sempre fui. Ninguém me escolheu. Ninguém quis, de fato, ficar, como se eu fosse suficiente. E eu me tornei o quase: insuficiente e, invariavelmente, terrivelmente triste.
Jogar a toalha também é importante. Entender o limite de tentar receber algo que você não vai receber, ainda que queira muito. Realmente, mãe, querer não é poder. Entendi, a duras penas, que eu preciso soltar, deixar ir, não por orgulho, mas por respeito. É preciso respeitar quem quis ir embora.
Não dá pra rodar o mundo e voltar esperando que alguém vá gritar debaixo de um viaduto que me ama. Não tem ninguém esperando por mim, porque eu não sou a resposta de nada. Eu sou o quase que nunca foi e nunca vai ser.
quarta-feira, 5 de novembro de 2025
"Não chore à beira do meu túmulo, eu não estou lá.
Estou no soprar dos ventos, nas tempestades de verão e nos chuviscos suaves da primavera.
Eu sou a pressa inquieta dos ruídos da cidade e o silêncio das madrugadas.
Não chore à beira do meu túmulo, eu não estou lá.
Estou no brilho das estrelas perfurando a noite e no cantar alegre dos pássaros.
Não, não chorem tristes à beira do meu túmulo, eu não estou lá, eu não morri.
Eu sou a vida incessante e livre, que corre nas águas do rio." Mary Elizabeth Frye
segunda-feira, 3 de novembro de 2025
Esquinas
Tem coisas que só você sabe sobre mim e tem coisas que só eu sei sobre você. Há coisas que ninguém mais no planeta inteiro entenderia, a não ser você. Ninguém completaria com tanta precisão a frase que você começava e não lembrava como continuar, além de mim, quando a sua bússola se atrapalhava inteira e eu dizia que tudo ficaria bem e ficava, porque você acreditava em mim.
Ninguém nunca mais vai cantar dentro do carro como nós cantávamos, nem rir das coisas bestas que só nós duas achávamos engraçadas. Meus pés ainda buscam os seus, vez ou outra, na cama (eu continuo alisando eles nos lençóis até dormir). Tem coisas que acontecem comigo que eu gostaria de correr para te contar, e você ficaria furiosa e diria que eu sou muito boazinha, virando uma onça que não se alimenta há dias, pronta para me proteger, mesmo quando eu não precisava mas eu deixava você achar que eu precisava, e talvez eu precisasse mesmo.
Tenho saudade de olhar nos seus olhos de perto, bem de perto, a ponto de ver os pelinhos dos seus cílios. Sinto saudade, às vezes, da textura da sua pele e da temperatura das suas mãos. Saudade do que éramos e um pesar gigante pelo que nunca mais poderemos ser juntas, porque o tempo não para e ele pode ser muito cruel.
Talvez eu devesse ter tido mais paciência, e você poderia ter me ouvido um pouco mais, porque, quando você achava que eu queria ir embora, era quando eu mais queria ficar. Está chovendo e eu me lembro de você, porque existe um cheiro que sentíamos e nunca conseguimos nomear, mas ambas reconhecíamos, principalmente quando chovia.
Queria que a gente se desconhecesse e que eu esbarrasse em você na rua, e que meu coração acelerasse como se eu estivesse te vendo pela primeira vez. Queria que nós duas dominássemos o mundo como o Pinky e o Cérebro do desenho, e que nunca, em hipótese alguma, fôssemos embora. Porque o tempo não volta atrás, não somos mais as mesmas pessoas, e não sabíamos mas seríamos atravessadas e nos perderíamos para sempre. O livre-arbítrio às vezes é foda, né?
Não olhamos com calma e persistência, porque o amor é uma escolha diária, e eu poderia ter te escolhido até meu último suspiro. Mas você foi embora, e eu também, em um mundo que não poderia existir sem nós duas. Ele continua não sei para você, mas ele me esmaga. E eu sei que nunca mais verei você chegar, porque, quando viramos a esquina, o que ficou para trás se perde para sempre." Se eu puder ter um pedido a mais
Guarde o melhor que tivemos
As confidências, mesmo que banais
Eu deixo em segredo
Nem todo mundo tem a sorte que nós dois tivemos juntos
E é tão bom saber que alguém que me conhece assim tão bem existe" Angelina
Assinar:
Postagens (Atom)



