quarta-feira, 29 de janeiro de 2025

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 De vez em quando, Deus me tira a poesia. Olho pedra, vejo pedra mesmo." — Adélia Prado

E, nesses dias, o que já é difícil se torna ainda mais difícil! Meu corpo quer ficar na cama, está cansado demais, mas eu o obrigo a levantar e cumprir seus deveres. Minha mente quer silêncio, mas ela grita como uma criança que não vê a mãe por perto em um shopping lotado. Eu só queria que ela dormisse por alguns dias, semanas ou, sei lá, meses!

Eu ficaria aqui, sem me mover, vivendo o ápice da quietude. Às vezes — aliás, muitas vezes — tenho a sensação de que não existo mais, e meu corpo cansado fica perambulando por aí com minha mente barulhenta. Como pode isso?

|……… Angelina Dias

terça-feira, 28 de janeiro de 2025

Tempo

 Qual o tempo que você vive? Preso ao passado ou ao futuro? Não existem máquinas do tempo para voltar ao passado, e qual garantia você tem do futuro? Seja bom, se esforce para melhorar o que não é, guarde seu coração, preserve a sua essência, se ela for boa; se não for, mude! Espere menos da vida, viva o que ela tem te entregado com atenção hoje.

Ouvi uma mulher jovem com metástases ósseas, e ela contava que havia feito um passeio com o marido. Ela estava feliz e dizia que prestou atenção ao movimento das árvores, ao vento que passava entre eles, aos raios do sol, porque queria guardar cada sentido, já que sabia que chegaria a hora de não poder mais sentir. Ela vive o hoje com toda intensidade. Certamente, não vivia dessa maneira antes!

Portanto, será que vale a pena viver tão preocupado com o futuro? Claro que não se pode ser inconsequente — há consequências! Mas até que ponto você está se preocupando e se afligindo com o futuro, sem prestar atenção e viver, de fato, o presente? O amanhã existe? Será?

A depressão me tirou muito do futuro, mas não de uma forma positiva e agradável. Mas eu gostaria que você, que possa me ler, pense: em qual lugar do tempo você está vivendo?

Angelina Dias

sábado, 25 de janeiro de 2025

Silêncio

 Dizem que, antes de um terremoto acontecer, há um silêncio absoluto. Não sei se isso é apenas poético, mas já presenciei esse silêncio absoluto — e não foi apenas em situações ruins, como a de um grande terremoto. Eu já ouvi esse silêncio ao olhar dentro dos olhos de alguém, ou quando estava em um abraço apertado, e até mesmo quando, em silêncio, outra alma tocou a minha. Não é um silêncio comum! É o silêncio como se tudo em volta não existisse, absolutamente nada. Em algumas situações, eu só ouvia alguns batimentos cardíacos (e pense em uma mente barulhenta).

Eu nunca esperei muitas coisas da vida, mas as melhores e as piores, até aqui, vieram acompanhadas de silêncio! Eu gostaria de te dizer muitas coisas. Espero que sinta, porque, no momento, há apenas silêncio! Se é o presságio de um terremoto ou apenas para ouvir as batidas do coração, eu não sei.

Angelina Dias

domingo, 19 de janeiro de 2025

20 de janeiro

 Amanhã seria seu aniversário, né, vô? Ao contrário de mim, você amava a comemoração do dia do seu nascimento. Nunca era uma data que passasse em branco. Sebastião nasceu dia 20 de janeiro, dia comemorado como o Dia de São Sebastião! Você e a vovó sempre lotavam a casa com pessoas queridas e uma fartura de comida, mas, antes de tudo, rezava-se o terço diante do altarzinho com São Sebastião.

Como você é querido... Digo "é" porque, além do tempo e da distância, continua sendo muito querido e amado! Eu sinto tanta saudade de você: da sua voz, do seu jeito, da sua gargalhada, da sua inteligência, do seu humor, mas principalmente do seu amor, vô. Sinto falta de ouvir o seu coração batendo quando podia te abraçar e de sentir seus pulmões se enchendo de oxigênio.

Eu sei que o senhor nunca gostou de me ver chorando. Sempre me dizia: "Angelina, pensa positivo." Então não fique triste com esse choro enquanto te escrevo. É um choro de saudade, não de tristeza! Tenho certeza de que amanhã tem festa onde quer que você esteja, e que é muito, mas muito melhor do que aqui.

O tempo continua passando por aqui. Já se passaram seis anos, e você ainda tem 76! Eu te amo e espero ansiosamente pelo nosso reencontro. Outro dia sonhei com você e me mostrou aquele lugar tão lindo... Pedi para você me deixar ficar lá, mas você disse que eu não podia. Ainda assim, eu queria tanto!

Se puder, venha me ver hoje de novo, só para eu te dar um abraço. Estou precisando do seu abraço e de ouvir o "Angelina" mais meigo e amoroso que já ouvi. Sinto que me protege daí, e eu te amo profundamente daqui!

Até a lua, ida e volta!

Com amor,
Sua Angelina

terça-feira, 14 de janeiro de 2025

Caderno amarelo

Quando eu tinha por volta dos meus 14 anos, virei uma “escritora” voraz. Sabe aqueles cadernos com pautas que eram usados na escola? Capa dura, de várias cores. Esse, por acaso, era amarelo. Eu havia ganhado de um achados e perdidos da escola, no final do ano, quando os alunos jogavam para o alto cadernos ainda cheios de linhas a serem preenchidas. É curioso que os textos ocupavam páginas e mais páginas, não apenas algumas linhas. Lembro-me de que eram densos, profundíssimos. Talvez, se alguém colocasse o ouvido encostado na capa, escutaria um coração batendo. Ao terminar de escrever cada texto — e isso acontecia em minutos, apesar de tantas páginas —, eu arrancava cada uma delas, rasgava e jogava fora. Fiz isso muitas e muitas vezes, até não sobrarem mais folhas! Depois, ganhei cartolinas amassadas e tintas guaches vencidas, que iriam para o lixo, e pintei em cada uma daquelas folhas coisas lindas para alguns e sem nexo para outros. Gostava de ouvir Elis Regina, Marcelo D2, Freddie Mercury, Cazuza, U2, Zé Ramalho, Titãs, Renato Russo, Whitney Houston, Ney Matogrosso, dentre tantos outros (todos intensos à sua maneira). Mas, em especial, lembro-me como se fosse agora da primeira vez que ouvi Rosa de Hiroshima, escrita por Vinicius de Moraes. Eu era apenas uma criança e voltava àquela música tantas vezes (Ney Matogrosso interpretava)que quase fiz o som pifar. Sentada no banco de um Opala, eu não conseguia parar de ouvir. Senti toda a força, a dor e os inúmeros sentimentos contidos naquela letra. Acho que ninguém aguentava mais me ouvir repetindo a música (risos): “Pensem nas crianças Mudas telepáticas Pensem nas meninas Cegas inexatas Pensem nas mulheres Rotas alteradas Pensem nas feridas Como rosas cálidas Mas oh, não se esqueçam Da rosa, da rosa Da rosa de Hiroshima A rosa hereditária” Eu nunca me esquecerei! Angelina