domingo, 27 de abril de 2025

Não tenho

 “Você tem ideia do ser humano contagiante que você é? É inenarrável sua energia e sua aura — pura luz.”


Não, minha querida, eu não tenho. Confesso a você que já ouvi isso infinitas vezes, de incontáveis pessoas, mas eu não consigo me ver dessa maneira. Ouço diariamente: “Pare de se doar dessa forma. Tal pessoa não merece. Fulano está se aproveitando. Beltrano é interesseiro.”


Eu não sou Madre Teresa de Calcutá, Irmã Dulce ou qualquer outro ser tão iluminado e bom quanto elas, mas eu sou uma boa pessoa. Errante? Demais. E sempre que percebo o erro, eu paro, reflito, me condeno — exageradamente, eu bem sei — e tento mudar o que não é bom em mim.


Desde pequena, eu me sentia diferente perto das pessoas. Era a criança que não gostava de dar trabalho para nada, que passou por coisas bem caladinha porque já entendia que aquilo afetaria profundamente as pessoas que amava. E até situações que não afetariam ninguém, mas que eu, na minha meninice, achava que deveria lidar sozinha. Como no episódio em que pedi para ir ao banheiro no pré, demoraram demais para me deixarem sair, e quando cheguei lá, já havia feito na roupa. Fiquei absurdamente envergonhada. Ninguém viu. Tirei, joguei no lixo, me limpei engolindo o choro de vergonha e voltei para a sala de aula. Contei isso para minha mãe há pouco tempo.


Fui a adolescente certinha, que fazia tudo como as pessoas queriam. Fui desrespeitada diversas vezes por ser permissiva demais, por perdoar com facilidade demais, por achar que todo mundo tinha alguma coisa boa, mesmo quando todos diziam que não. Eu fui mãos estendidas, olhos atentos, cuidadora. Orei por pessoas, mesmo sem conseguir pedir nada por mim mesma. Estava no fundo do fundo do poço e, mesmo assim, fui abrigo em diversas ocasiões na minha vida mesmo precisando de um, tive abrigos também e foram essenciais para que eu ainda esteja aqui.

Cometi erros e me puni como se tivesse cometido o pior dos crimes que um ser humano poderia cometer. E hoje entendo que fui cruel demais comigo mesma, enquanto perdoava com facilidade o outro.


Eu não sei dizer de onde vem isso. Sempre que me perguntavam o que eu gostaria de ser na vida, eu respondia que queria cuidar. Antes de entrar na faculdade, uma tia da minha avó — que não se casou, não teve filhos e era PCD —, com o tempo, foi ficando mais limitada, até precisar de uma cadeira de rodas e não conseguir mais morar sozinha. Pensamos: por que não pegar uma sala comercial e abrir para nossa casa, trazendo ela com suas coisinhas? E assim fizemos. Ela era pequenininha e muito geniosa, rs. Eu cuidava dela pela manhã e, à tarde, minha mãe a levava para as terapias no Centro de Reabilitação.


Mas o tempo passou e eu entrei na faculdade — Enfermagem. Ela não aceitou outra pessoa cuidando dela. Escrevo isso com lágrimas nos olhos, porque ela decidiu ir para um asilo, e isso quebrou meu coração em milhares de pedaços. Tentamos de todas as formas que ela ficasse, que aceitasse outra pessoa, mas ela recusou. Não demorou muitos anos para adoecer e partir, e eu me culpei, por muito tempo, pela morte dela.


Enquanto fazia faculdade, trabalhei dois anos em uma creche. Ganhava uma mixaria e ficava muito cansada porque cuidava de seis bebês sozinha. Alguns deles me chamavam de “mamãe”, e eu tinha um amor imenso por eles. Passavam tempo demais comigo. E ali fui tendo, cada vez mais, a confirmação de que o que eu queria na vida era cuidar.Todas as pessoas que eu conheço e se internaram ou passaram por algum procedimento me quis como acompanhante mesmo tomando remédio para dormir eu acordava mil vezes para acompanhar as pessoas ao banheiro ou coisa do tipo , e eu passava muito mal ,não saberia dizer em quantos seres humanos eu dei banho troquei fraldas e até dei comida na boca. Fiz até por quem tinha uma enxaqueca daquelas ou estava em uma crise, sempre em todas ocasiões com muito amor,  Eu não saberia dizer! E eu me pergunto : por que eu não fiz nada disso por mim?               Acontece  que eu cuidei tanto dos outros, que esqueci de cuidar de mim. E minha vida se transformou em um desastre aos meus olhos. Eu achava que aos 35 estaria casada, com um bebê correndo pela casa, brincando com um cachorro, um jardim bonito… Que nesse momento eu estaria balançando na rede com minha esposa e nosso bebê, ouvindo Amor Puro, querendo que o domingo não acabasse nunca. Mas eu me esqueci de mim no caminho. Fui deixando um pedacinho aqui, outro ali… e, quando percebi, já não era nem de longe a pessoa feliz que um dia fui. Fui despetalando.


Eu nunca fui muito sonhadora, mas tinha alguns sonhos, como esse que acabo de contar. E quando você para de sonhar, para de ter interesse pela vida, isso se torna muito perigoso.


Eu não sou boa para aparecer, para ser exaltada ou vitimizada — longe disso. Sempre fui a garota do fundão. Faz parte da minha essência. Mas tenho tentado compreender que nem todas as batalhas são minhas, que eu não posso abraçar o mundo inteiro. Ainda que eu queira, não há braços tão longos, nem coração que aguente. E isso me frustra bastante.


Como eu posso negar ajuda? Como vou ver uma pessoa desmaiada na rua e não ir até lá? Como vou ver alguém quase ser assassinado na minha frente e dizer: “Não é comigo, nada posso fazer”? Eu não sei como fazer isso… mas talvez eu deva aprender a dosar.


Me lembro da canção Construção, de Chico Buarque, que se encaixa muito bem na maioria das pessoas da sociedade.


As coisas são muito mais profundas em mim do que mostro ou permito acessarem. Você pode ter visto minhas lágrimas… mas talvez nunca veja meu coração.


Recebo a mensagem do início desse texto de uma das pessoas que conheço que mais faz pela sociedade como um todo. Fui pega de surpresa com tamanha delicadeza no olhar, que, com cuidado, me viu — sem que eu nem percebesse. Angelina 

“

  • “A morte põe um olho no passado e outro no futuro e deixa a gente cego na hora , no encontro do que foi e do que será , na tortura do que poderia ter sido . Impõe o desespero do definitivo , trava os movimentos . Embrulha o estômago indigesta . Faz frio nos ossos . A morte é vida intensa demais para quem fica .” Tudo é Rio - Carla M



sexta-feira, 25 de abril de 2025

Escrevo longas cartas pra ninguém

 Uma sensação que sempre foi corriqueira na minha vida, mas que há tempos eu não sentia. Para além do coração apertado e da dor — coração dói? Dói! Dói atravessado no peito. Angústia. O barulho absurdo me desorienta um pouco. Arrepio! Um arrepio conhecido por mim, que parece vir do centro do meu ser até os membros superiores. É uma sensação ruim, como se uma premonição ou algo que não fosse bom estivesse acontecendo.


Mando mensagem para a família inteira: Estamos bem? Vem embora para casa!


Entro no Uber para ir embora no horário normal de saída e meu corpo inteiro se arrepia. Pareço sentir alguém ao meu lado, sinto até o calor. Me assusto por alguns segundos e a sensação de que algo ruim aconteceria — ou havia acontecido — me invade como a força de uma onda que te lança na areia.


Me esqueço completamente do culto no lar, feito às quintas-feiras em casa, esteja quem estiver lá. Semana passada mesmo, a casa estava cheia e a mesa ficou completa. Meus pais pareciam brilhar de felicidade ao ver suas três filhas sentadas com eles.


Mas, voltando… mal consegui fazer o culto, tomada por uma impaciência que não parecia ser minha. Ainda assim, fiz. E, em casa, respiro fundo e faço minha prece — que é conversando com Deus. Sempre foi assim o meu jeito de me conectar com Ele. Logo pego no sono.


No outro dia, a sensação continua. A cabeça dói e não há remédio que tire a dor. De repente, uma chuva, que logo se abre com o sol. A cabeça persiste doendo. Ouço as araras no meu descanso , e elas não paravam. Me levanto e vou atrás delas, guiada pelos sons. Encontro as duas dando “beijinhos” de araras. Sou apaixonada por elas, sempre fui — por isso tenho uma tatuada no corpo e quase uma  floresta, rs. Animais são um bom sinal, eu penso. E nada de mau há de acontecer!


Angelina


segunda-feira, 21 de abril de 2025

Adeus



Pois daqui eu vi o sol se despedir tantas vezes, desde quando não havia nada construído — somente o sonho que meu avô idealizou e que durou o tempo que deveria durar. Não da forma como ele queria, mas como deveria ser. Como se estivesse sentada em uma roda-gigante, e ela fosse girando lentamente, o sol bate em mim com a temperatura ideal para enternecer o coração. Sempre fecho os olhos quando isso acontece, porque parece que cada célula do meu corpo sente os raios entrando e aquecendo, e por alguns instantes tudo cessa. Faz-se um silêncio tão profundo, e tudo se acalma dentro do meu coração, mesmo que por alguns milésimos de segundo. Não há como não lembrar do meu avô e agradecer pela oportunidade de tudo que fomos permitidos viver aqui, e por todas as pessoas que recebemos e que se sentiram conectadas e bem-recebidas! Somos todos falhos aqui, mas o amor foi transbordante a qualquer um que pisou nessa terra. As pessoas sempre se sentiram à vontade, e sempre tivemos a confiança de que isso aconteceria, mesmo quando nenhum de nós estava aqui. Não é fácil se despedir. Sempre achei difícil demais. As despedidas sempre são intensas e dolorosas para mim. Mas eu quero agradecer por todos os momentos que esta terra me proporcionou — e proporcionou a tantas pessoas. Não há como não lembrar das araras e de tantos pássaros raros que pude ver, das borboletas de todas as cores, flores, árvores, frutos… Ahhh, as estrelas e a lua! Sei que existem em outros lugares, mas nunca serão como aqui e agora. Me despeço também de alguns sonhos, de algumas lembranças não tão boas assim — e de outras que jamais esquecerei. Mas a vida acontece dessa maneira. Dá pra ver daqui, da roda-gigante. Eu sei que essa doença tenebrosa me tirou muitos momentos aqui e, ainda assim, eu pude perceber cada detalhe — mesmo que eu não externasse isso. “Daqui” não merece um texto triste, ainda que seja difícil escrever sobre alegria na minha condição no momento. Mas deixo o registro da minha gratidão. E esse não é um “até logo”. É um adeus. — Angelina

quarta-feira, 16 de abril de 2025

Dias complexos, complexos demais. Estou me despedindo das pequenas coisas, me despedindo das estrelas como se eu não fosse vê-las mais de outro lugar. Mas é que ali as estrelas são diferentes. Começo a preparar a mudança. Sempre tive problemas com mudanças, e não está sendo diferente agora. Não tenho conseguido pensar em muita coisa, então apenas me despeço de tudo ao redor. Eu sabia que não podia amar aqui, sempre soube. Mas enfim, a despedida está se concretizando. Ontem, as araras pareciam querer entrar na minha casa. Eu estava tendo uma crise, sentada no banheiro, e elas faziam seu som característico como se me chamassem, voando de um lado para o outro sem intervalo. Elas nunca fizeram isso. Normalmente passam, e em certo horário voltam. Mas ontem não. Enquanto eu chorava muito, elas circulavam e emitiam seus sons numa altura absurda. Me concentrei no som delas, ainda que aos prantos, e confesso estar pensativa sobre isso até agora. Pareciam, de fato, me chamar. A vela queimou inteirinha por sete dias completos, sem deixar nada — nem um pedaço do pavio ou cera. Acordo sem querer me levantar, mas vou. E não me parecia ser só a função me chamando. Ouço uns pontos, uma música que não tem saído da minha cabeça, e decido que hoje eu vou ao centro, nem que seja me arrastando. Ainda pela manhã, de novo, a dor fortíssima no peito. Dessa vez, afiro minha própria pressão: 14/13. Me levanto e vida que segue! À tarde, após meu breve descanso — que passei ouvindo música e tentando fazer caça-palavras para não passar chorando como ontem — deu certo! Mal me levanto, alguém me espera para contar que uma pessoa que eu gostaria de nunca mais encontrar na vida está trabalhando logo em frente à escola. Decido não entrar mais no shopping. Peço meu Uber para ir embora para casa. O Uber estava a apenas 1 estrela — pensei: “Melhor não ir, sem nenhuma classificação.” Cancelei e tentei outro por alguns minutos. Quando olho para o lado, vejo um ex-aluno que conheço muito bem. Sei que ele está apenas sendo engolido pelo mundo, pela falta de amor, de proteção que ele deveria ter tido. Ele tem uma espiritualidade absurda. De repente, ele entra xingando um aluno, dizendo que ia matá-lo… Vou em direção a ele, tento segurá-lo e peço para colocarem o outro aluno dentro da escola. As pessoas parecem paralisadas, ou sei lá o quê. Outras tentam segurar depois, mas ele se desvencilha. Chego bem perto dele e falo: “Não faça isso. Vá embora.” De repente, ele volta a si e sai, descendo a rua meio perdido. Entendi por que eu não consegui não ir hoje. O peito voltou a doer, o desânimo bateu. Mas eu vou mesmo assim, eu disse a mim mesma — nem que fosse arrastada. Não tenho suportado mais. O copo não transbordou. Ele está estilhaçado no chão, e a água já até secou. Acabo de escrever esse texto Vou abrir meu guarda-roupas para me vestir. A porta, com um espelho enorme, caiu em cima de mim, e eu, completamente despida, quase não tive forças para segurar. Que susto! Foi como se o mundo tentasse me esmagar justo no momento em que eu me preparava para seguir em frente. Mas não, hoje não. Hoje vocês não vão vencer.Tentaram a semana inteira, hoje com mais intensidade mas eu sei o motivo. Angelina

terça-feira, 15 de abril de 2025

Fim

Um psicólogo colocou fim à sua trajetória. Conhecido, querido por muitos profissionais e, com certeza, por clientes — pelo que vi a seu respeito —, e em alguns lugares li que ele sempre foi uma criança melancólica, mas enfrentou tudo até agora. Ele dizia estar no seu melhor momento da vida, mas talvez tenha chegado ao seu melhor momento — aquele que a maioria de nós busca, senão todos nós — e percebeu que nada havia mudado dentro dele. A angústia, a melancolia, ainda estavam lá. Não sei… só ele saberia dizer o que aconteceu. A única coisa que espero é que a maioria das pessoas estejam erradas, e que uma pessoa que foi tão instrumento aqui na Terra, que ajudou tantas pessoas e só não aguentou mais, tenha sido recebida de forma amorosa e compreensiva para onde quer que tenha ido. Sobretudo, o que eu desejo é que, enfim, a tristeza o tenha libertado. Eu não acredito nesse Deus punitivo. O Deus que eu conheço é misericordioso e amoroso. Ele nos acolhe até quando nós não merecemos, até quando fazemos escolhas ruins ou quando falhamos enquanto seres humanos. Eu não sou ele, nem o conhecia. Cada ser humano é único, e suas dores, consequentemente, também. Falarão de livre-arbítrio, mas será que pensarão sobre o sofrimento que ele carregou por anos e o quanto lutou? Sou uma pessoa melancólica. Há uma tristeza profunda. Não sou uma pessoa maravilhosa, mas tenho uma facilidade de perdoar as coisas que as pessoas fazem comigo — e uma dificuldade absurda de me perdoar. Quando erro, é absurdo o quanto me martirizo e me sacrifico, dentre tantas outras coisas. Viver tem sido insuportável demais. — Angelina

domingo, 6 de abril de 2025

A fim

Escrevo a fim de que minha caixa torácica não se arrebente e meu coração — este que dói — simplesmente pare. Se dói, é porque ainda exerce sua função e bombeia meu sangue, mesmo que contra a minha vontade. Sorte ser sua contração algo involuntário; suas fibras musculares o fizeram para a vida, e ele luta com toda a sua força para bater! Eu queria escrever uma carta aberta para Deus, mas não preciso. Ele me lê até nas entrelinhas do pensamento, sentimento, sensações que eu possa tentar esconder até de mim mesma. Não é preciso deixar nada escrito para Ele, e muito menos dividir com quem quer que seja o que é intimamente nosso. Tive dois sonhos diferentes, mas com a mesma mensagem. Parecia, nos dois, uma comunicação de uma pessoa, mas em ambos algo atravessava: um, uma ligação chiada que não me deixava ouvir direito, além de reconhecer de cara a voz e ouvir começo do que me dizia chorando; o outro, uma carta molhada bem no meio, com um buraco enorme que não me deixava terminar de ler além do que consegui ouvir na ligação. A ansiedade tem me deixado nervosa, me causando muitas crises de pânico. Meu peito dói, o oxigênio parece não entrar. A depressão tem me causado uma tristeza pulsante demais, choros que alagariam o centro da cidade que nunca é inaugurada dentro de mim, porque vive inundada e barulhenta demais! Eu estou tão cansada… Me lembro do filme A Cabana, e gostaria de estar na casa do Papai, sentada com Ela na varanda calma, comendo um pedaço de bolo; ou correndo com seu Filho sobre o rio, com a certeza de que não afundaria; ou então com o Espírito Santo, tirando o que precisasse para novas flores nascerem no jardim. Mas estou aqui, abraçada com uma angústia que só me faz querer não existir neste plano. Acho que o plano deu errado. Angelina

sexta-feira, 4 de abril de 2025

Tenho quebrado copos é o que tenho feito raramente me machuco embora uma vez sim uma vez quebrei um copo com as mãos era frágil demais foi o que pensei era feito para quebrar-se foi o que pensei e não: eu fui feita para quebrar em geral eles apenas se espatifam na pia entre a louça branca e os talheres (esses não quebram nunca) ou no chão espalhando-se então com um baque luminoso tenho recolhido cacos tenho observado brevemente seu formato pensando que acontecer é irreversível pensando em como é fácil destroçar tenho embrulhado os cacos com jornal para que ninguém se machuque como minha mãe me ensinou como se fosse mesmo possível evitar os cortes (mas que não seja eu a ferir) tenho andado a tentar não me ferir e não ferir os outros enquanto esgoto o estoque de copos mas não,tenho quebrado minhas próprias mãos golpeando os azulejos não tenho passado a noite deitada no chão de mármore estudando as trocas de calor não tenho mastigado o vidro procurando separar na boca o sabor do sangue o sabor do sabão nem tenho feito uma oração pelo destino variado do que antes era um e por minha força morre múltiplo tenho quebrado copos para isso parece deram-me mãos tenho depois encontrado cacos que não recolhi e que identifico por um brilho súbito no chão da cozinha de manhã tenho andado com cuidado com os olhos no chão à procura de algo que brilhe e tenho quebrado copos é o que tenho feito Ana Martins Marques

terça-feira, 1 de abril de 2025

Único lugar

Chorei copiosamente na mesa do jantar. Entre soluços, uma crise de ansiedade foi tomando uma proporção desesperadora. Minha mãe se levantou da mesa, sem saber o que fazer além de pedir para eu parar, porque ela ficava nervosa ao me ver daquele jeito — e eu não conseguia parar! E então me lembrei de que não foi só a depressão e outras coisas que me trouxeram o distanciamento do toque físico. Enquanto eu chorava aos soluços, tampando o rosto com a camiseta em um sinal de vergonha e fragilidade exposta demais, quis o abraço de minha mãe. Mas ele não veio, porque ela não consegue, nunca conseguiu! Lembro-me de abraçá-la meio que à força quando era mais jovem. Minha mãe não teve esse afeto e, por isso, não tem como ser diferente hoje. Ela me ama profundamente à sua maneira, mas, naquele momento, me senti uma criança esperando o abraço da mãe que não veio. Infelizmente, desbloqueei a lembrança que estava muito bem guardada: esse toque físico foi ansiado a vida inteira — e eu chorei ainda mais! Chorei por mim, por ela, por sua mãe e sabe-se lá por mais quem, que não teve e, assim, não pôde dar! Só o colo de minha mãe teria sido o lugar para o meu choro ontem. Só o útero dela seria um lugar seguro para eu retornar! Angelina Dias