domingo, 30 de março de 2025
Sempre
Ninguém parte de uma vez. Sempre deixam pistas, e elas moram, talvez, nas miudezas do cotidiano, até que, enfim, chega a partida. Ela começa sutil: um silêncio, um afastamento, a mudança na forma de dizer o nome um do outro. Os apelidos carinhosos vão se esvaindo, o toque físico se torna raro até virar um abismo no meio da cama. A paciência diminui, o cuidado com o outro se distancia a cada dia. Já não se escuta mais, mesmo que, antes, nem fosse preciso ouvir para entender, para abraçar. A solidão se faz presente, mesmo lado a lado. Como pode isso? Sentir falta de alguém que ainda está ali?
Deixa-se de enxergar o outro, e, quando ele finalmente vai embora, esquece-se das conversas e tentativas que fez para continuar. Fica-se apenas com o adeus, como se tudo fosse uma surpresa. Mas a verdade é que você já tinha partido há muito tempo. Foi indo aos poucos, sem perceber... ou talvez percebendo. Mas foi. E, então, o silêncio se transforma em um raio sobre a cabeça. Quem foi sabe por que foi, e quem ficou também sabe. Nem sempre é preciso uma cegueira para seguir em frente; às vezes, é preciso enxergar tudo com clareza. E, muitas vezes, só se vê com nitidez depois que se vai, quando o tempo acalma as feridas e traz libertação. Só então começa o perdão, porque não houve silêncio. Você disse, letra por letra, por anos.
Sempre tive plena consciência de que ninguém muda ninguém. Muda quem quer mudar. Experimente brincar sozinho em uma gangorra e veja se funciona. Se o outro não se movimenta, a brincadeira acaba. Nos relacionamentos, não é diferente. Quando o fim chega, surgem mil teorias, mil acusações, e tudo de bom que o outro representou parece ser apagado. Mas você já estava indo embora há tempos. O outro apenas acordou e enxergou. E essa tomada de consciência vem cheia de dor.
Dizem que é fácil para quem, no fim, foi embora. Mas as duas pessoas que estavam lá sabem que, no silêncio, tudo já havia terminado. E pouco importam as teorias ou o que os outros — que parecem ter estado lá — pensam. Eles não estavam. Ainda que ouçam histórias, não estavam! E, quando algo é deixado para depois, corre-se o risco do nunca mais. Paga-se o preço e recebe-se a oferta.Angelina
quarta-feira, 26 de março de 2025
Assobio
Não quis levantar da cama, mas me obriguei a tal. Caía uma chuva que parecia derramar o céu sobre a cidade. Já pronta e na porta para sair, eu não quis com mais força ainda não sair. Parecia que só a minha cama me cabia. Chorei disfarçadamente no carro enquanto via a chuva lavando a cidade. O dia nem acabou e pareceu durar uma semana inteira, uma densidade no tempo, a mente parecia dar pequenas falhas.
Estou no Uber a caminho de casa. Ligo para minha avó para saber como ela está, e ela pergunta como eu estou. Digo que cansada. Conversamos alguns minutos e eu sempre encerro nossas ligações dizendo: "Vó, eu te amo." E ela sempre retribui com um "Eu também!"
Mas hoje parecia que ela sabia, de alguma maneira, que eu precisava do abraço da palavra. E, antes que eu dissesse, pela primeira vez ela se antecipou a qualquer espera e disse: "Eu te amo demais." Ela me abraçou e me colocou no colo sem saber. A voz embargou e as lágrimas rolaram feito um riachinho tímido.
Enquanto eu tentava não chorar na frente de um desconhecido, ele começou a assobiar uma canção qualquer, do mesmo jeitinho que meu avô fazia. Fechei os olhos e podia imaginá-lo dirigindo, coisa que ele amava fazer e fazia com calma e tranquilidade. Sempre tive muito medo de esquecer detalhes dele, mas eu nunca esqueci. E esse assobio, que há muitos anos não ouvia, me trouxe uma saudade que não está cabendo no meu peito. Até o tom era o mesmo!
Só me lembro da canção:
"Chove lá fora e aqui
Faz tanto frio
Me dá vontade de saber
Aonde está você?
Me telefona
Me chama, me chama, me chama."
Angelina Dias
sábado, 22 de março de 2025
Pés quentinhos
A rede balança para lá e para cá. Olho toda a natureza em volta; só se escuta o balanço das árvores se encontrando com o vento e espécies incontáveis de pássaros cantando suas melodias, cada um à sua maneira. O céu, de um azul infinito. Estou completamente só e com uma quantidade de assuntos se embolando em minha cabeça. Meu coração está um pouco apertado, mas respiro fundo e sei que ela está bem e ficará melhor. Acabo de ligar e dizer que a amo, e ela me retribui com o amor imenso e infinito de nós duas!
Quando estou assim, gosto de escrever. As palavras vão me preenchendo, ao menos em algum cantinho. Me lembro de duas pessoas nesse momento. Uma amiga minha me disse que tem certeza de que “a minha pessoa” está chegando e que não demora. Eu sorrio e digo para ela que estou apenas tentando viver até o final do dia (risos). A outra é minha irmã, que me disse para pegar um papel e escrever tudo que desejo nessa pessoa. (Eu já havia feito isso há um tempo, mas só na minha mente.) Ela disse que tinha que ser escrito, porque fez isso e deu certo. Mas, novamente, respondo que estou apenas tentando chegar até o final do dia!
Se você me perguntasse se desisti do amor e de construir uma família, eu teria na ponta da língua que sim, porque a mente adoecida me faz acreditar que já deu para mim, que todas as coisas que existem na vida já não são mais para mim, e que nem todo mundo — ou quase ninguém — quer um peso segurando a sua porta. Mas, se eu fosse responder mais profundamente, talvez o amor seja uma das coisas que eu mais queira na vida: um amor, uma mão, uma companheira para a vida toda.
Eu sei, eu sei… Talvez seja utópico dizer “para a vida toda”, mas esses amores existem. Eu já presenciei sua existência muitas vezes, até que realmente a morte os separasse. Um amor para dividir as miudezas e as grandezas da vida, as conquistas e as lágrimas mais tristes e profundas. Para cantar nossas músicas favoritas no carro, enquanto cozinhamos, e para sermos silêncio quando necessário. Para que saibamos respeitar o espaço uma da outra, mas que nunca queiramos sair dos abraços. Não parece, mas eu amo abraço — daqueles bem apertados, em que uma sente o coração da outra batendo no peito.
Se você me perguntar, eu digo que desisti. Mas meu inconsciente — ou seja lá o que for — voltou a me trazer, em sonho, a menininha na minha barriga. Depois, eu a amamentava, enquanto a mãozinha dela estava grudada na minha camiseta. E eu senti saudade dela a semana inteira… Faziam anos que eu não sonhava com ela!
Essa semana, vi uma entrevista em que a entrevistada contava que o que mais sentia falta da mãe, que não estava mais neste plano, era que ela tinha os pés muito gelados, e a mãe, com o cobertor, os enrolava todos os dias para esquentá-los. Ela continuou com esse hábito, mas agora ela mesma o fazia. Porém, dizia que tinha muito medo de que seus pés não dormissem quentinhos e que, mesmo sabendo como esquentá-los, queria alguém para enrolá-los vez ou outra.
Nós somos seres que nascemos para ser sociais. É claro que o isolamento, com o passar do tempo, nos dá um certo conforto, porque é difícil se relacionar. Mas é justo que muito custe o que muito vale.
Tenho sido perguntada com frequência se sou casada. Quando digo que não, me perguntam por que estou sozinha. Eu digo que desisti. Mas, lá no fundo, queria que alguém me abraçasse e esquentasse meus pés… e que eu pudesse deixar os pés dela quentinhos para sempre!
Angelina
domingo, 16 de março de 2025
Eu vejo
Nas entrelinhas, existem respostas entranhadas. E eu tenho em mim a natureza de lê-las, como se fossem estrelinhas piscando, chamando minha atenção. Presto atenção no que está no fundo das palavras, no que se esconde sob a superfície. Tenho um tipo de magnetismo com elas; saltam para mim aquilo que está quase oculto, submerso.
Às vezes, finjo que não vejo o ato falho para evitar um embate, um constrangimento. Mas eu vejo. Eu ouço com clareza. Entendo os mais simples movimentos, e mesmo que eu não diga uma palavra sequer, as peças vão se encaixando perfeitamente.
Há beleza em sentir as miudezas da vida, que fazem toda a diferença na imensidão do todo. Mas, às vezes, dói. Nem tudo que está submerso deve ser trazido à tona. Parece que, para viver, é necessária uma certa cegueira—uma cegueira que não me foi dada. A vida é mais difícil para quem percebe o que não deveria ser percebido, para quem já viu o que ainda está por vir, para quem lê as entrelinhas, para quem enxerga escancarado o que está escondido.
As miudezas nos salvam ou nos aprisionam? Não tenho resposta para tal questionamento. Mas tenho a certeza de que ver as entranhas não facilita a vida.
Angelina Dias
quarta-feira, 12 de março de 2025
FECHADO
Acendi a vela. A chama alta dançava. Acendi com uma intenção, em meio a uma prece em voz alta—algo que não costumo fazer. Gosto de falar com Deus no meu silêncio, mas senti a necessidade de que cada palavra fosse pronunciada. A chama realmente dançava, mas a fumaça era preta.
Veio uma pessoa fortemente à minha mente, alguém que não fazia parte da intenção da prece. Meu coração doeu, quis chorar, quis mandar uma mensagem, mas não mandei. Pedi proteção do fundo do meu coração e espero muito ter alcançado.
É preciso ir, mesmo quando não se quer. Deixar ir sempre será difícil.
Vi uma entrevista da Fernanda Torres em que lhe perguntaram: "Do que você tem mais medo na vida?" E ela respondeu: "Medo de perder o interesse pela vida, porque pode acontecer em qualquer idade. Você pode ter vivido 30, 70 anos, mas se perder o interesse pela vida, o que vier pela frente será um inferno. Não conseguir se relacionar com o mundo, não ter uma razão para estar vivo, para trabalhar… porque a vida é difícil, então, para suportá-la, é preciso ter interesse por ela."
Não sei por que estou escrevendo isso. Não sinto mais vontade de escrever. Isso já aconteceu antes. Minha cabeça rodopia, o corpo dói. As abelhas deixaram suas marcas—fiquei envenenada, inchada, a pele inflamada—mas está passando.
Queria que passasse também esse sentir que grita, que não me deixa relaxar, que não me deixa sentir o mundo com calma. Mas as coisas são como são, e chega uma hora em que você cansa e só aceita.
Aceita com a cabeça rodopiando, feito um peão na mão de uma criança. Mas aceita.
Angelina Dias
sexta-feira, 7 de março de 2025
segunda-feira, 3 de março de 2025
Vagalume
Vi algo que eu não via há muitos anos (acho que muitos anos, minha memória não anda muito legal), mas a sensação foi como se estivesse vendo algo quase que pela primeira vez. Fiquei estática, olhando e vendo ele piscar na escuridão. Era apenas um, mas parecia algo sobrenatural diante dos meus olhos.
Automaticamente, voltei para a rede, balançando, por volta dos meus 12, 13 anos no máximo, na última chácara em que meus avós moraram. Os filhos, netos e muitas outras pessoas mal esperavam a sexta-feira para irmos todos para lá – isso quando não era feriado ou férias (que eu passava quase inteiras lá com eles).
Voltei para aquela rede em que me balançava em completa aventura, alto, o mais alto que fosse possível. Depois, me enrolava inteira nela até ficar de barriga para baixo, e alguém me balançava, ou eu mesma me balançava, e achava tão legal! Meu avô sempre teve chácaras, e eu sempre amei a natureza. Me aventurava em tudo que tinha. Desde os meus 5 anos, já passava alguns dias com eles.
Mas, voltando para essa última chácara em que moraram, eu já era maior e passava quase o mês inteiro lá nas férias. Às vezes, eles me traziam porque eu chorava de saudade dos meus pais e das minhas irmãs. Tinha um rio, e eu amava pescar e devolver (não usávamos fisgas para não machucar os peixes). Brincava de argila, andava de caiaque na represa e também pescava os peixes maiores. Nadava com os patinhos, ia ver eles tirarem leite das vacas, alimentarem os porcos e as galinhas.
Víamos frutas como melancia, morango e tantas outras crescendo. Adorava mexer nas ferramentas do meu avô, andar de carrinho de mão, soltar pipa, ver minha avó fazendo rosquinhas, biscoitos, queijos (e tantas outras receitas) e fritando o melhor ovo do mundo!
Mas, ontem, ao ver o vagalume, fiquei meio que em transe. Parada, eu sorri, porque as lembranças foram surgindo(muitas) como se alguém tivesse apertado o avanço rápido de um vídeo em meu cérebro . Lá, eu os via diariamente, muitos deles. Apagávamos todas as luzes para que pudéssemos admirá-los. Parecia uma dança bonita – e era bonita demais! Durava horas e, depois, acendíamos a fogueira e assávamos milho.
Eu era tão feliz, e eu sabia! Angelina
sábado, 1 de março de 2025
Picadas
Um enxame de abelhas me atacou hoje! Rosto, pescoço, orelha, couro cabeludo, braços… tudo picado! Que dor! Foram, no mínimo, 20 picadas.
Lembrei do filme Meu Primeiro Amor—não sei por que ele veio à minha cabeça depois que a dor amenizou. Agora estou toda inchada.
Sou curiosa sobre alguns significados e encontrei isto:
Pode estar relacionado a sentimentos de ansiedade ou sobrecarga, seja no trabalho ou nas responsabilidades pessoais.
Pode indicar exaustão, como um aviso do subconsciente de que estou esgotada.
Doeu muito, e sei que vai passar. Só queria que o que dói por dentro passasse assim também. Angelina
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