domingo, 29 de dezembro de 2024

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A angústia me tomou. Levantei, abri o chuveiro porque percebi que a barragem havia cedido mais uma vez. Chorei, chorei. Agachei, me abracei em uma quase posição fetal e chorei ainda mais. Parecia que eu estava completamente sozinha no universo. Fiquei lá, abraçada a mim mesma, à minha própria dor, à minha própria exaustão. Implorei a Deus, sem conseguir me levantar ou conter as lágrimas que não paravam. Sei que minha relação com Ele não tem sido das melhores, e senti vergonha de pedir qualquer coisa. Mas, na minha exaustão solitária, só consegui implorar, entre soluços e com a dor apertando meu peito: "Deus, me cura ou me leva, por favor!" E, enquanto isso, fui pensando no quanto me sinto um peso na vida das pessoas. Sinto-me como um peso morto, boiando em alto-mar, no escuro, sem salva-vidas, sem um farol, apenas afundando. Estou indo para os 35 anos, e parece que não sou nada. É tão triste, tão doloroso sentir-se assim. Sentir essa paralisia, sentir-se tão incapaz, sentir que você é apenas um fardo. Estou sentindo tanta coisa, mas não quero escrever mais nada. Escreveria as linhas mais tristes essa noite.

sábado, 28 de dezembro de 2024

Perdi o sono, como se a medicação diária nem sequer tivesse sido tomada. Há um silêncio ensurdecedor lá fora e, dentro de mim, um barulho enlouquecedor — ou quase isso. Estou escrevendo para tentar amenizar a angústia. Queria ser livre como a criança que subiu em uma bicicleta cargueira e saiu pedalando sem ajuda de ninguém. Eu não tive rodinhas, não tive medo. Apenas olhei e pensei que era capaz, e fui. Lembro como se fosse hoje aquele pingo de gente dando voltas, como se há muito tempo já andasse naquela bicicleta enorme. Sinto falta dessa coragem, da ausência de medo que me paralisa de tantas formas. Sinto falta de saltar sem me importar se o paraquedas vai abrir. Queria voar em queda livre. Queria que você também tivesse coragem de pular, sem pensar em nada além das nuvens passando entre nós. Queria que não precisássemos de astros, deuses, bússolas ou qualquer pessoa nos dizendo o que é melhor para nós. Que nos olhássemos e sentíssemos: é casa, é lar. Que não importasse o que passou, as listas, ou o que as pessoas pensam. Que não fosse um jogo. Porque só temos o hoje, este dia, o agora. A perfeição não existe e nunca existirá. Isso é algo reservado para quem nos criou. Aprendi que o orgulho e as suposições apenas nos levam mais para o fundo, enquanto a vida se esvai. E, quando percebemos, já é outro tempo; tudo pode ter ido embora para sempre. Como a criança que um dia pedalou sozinha pela vizinhança naquela bicicleta, sem nem imaginar o que a esperava 30 anos depois. Temos o nosso próprio tempo, e ele pode acabar a qualquer segundo. E aí? Vai saltar? Angelina Dias

sábado, 21 de dezembro de 2024

"Eu nao aguento mais". Não! Você quase não aguenta mais, é diferente! Você tem aguentado um pouco a cada dia !!

quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

Coração quente

Não, eu não gosto da solidão, ainda que, por diversas vezes — e mais do que deveria —, eu sinta a necessidade dela. Mas dizer que gosto seria demais. Às vezes, é como estar debaixo da chuva em um dia em que você teve a oportunidade de olhar para o mar enquanto o sol se esconde por detrás dele. No infinito que é a água do mar, ao beijar o sol, ela emite aquele calorzinho, sabe? Aquele que faz você fechar os olhos e sentir, da ponta dos dedos até o último fio de cabelo. (Eu não sei vocês, mas sempre fecho os olhos diante dessa sensação sobrenatural.) Eu gostaria de ter mais dias assim. Sinto uma falta danada! O fundo do poço não combina com o meu coração quente. Eu penso que não posso deixar alguém entrar na minha vida nesses dias de raios estremecedores, de chuvas avassaladoras que percorrem o meu peito, a minha garganta, e se arrebentam pelos meus olhos. Dias que parecem nunca passar! Mas o meu coração nunca deixou de ser quente. Às vezes, ele parece que vai arrebentar a minha caixa torácica, mas está sempre, sempre quente. E isso também me parece um desperdício sem precedentes, não ser dividido com alguém. Você já sentiu o coração de alguém bater sob o seu peito? E os seus pulmões se encherem de oxigênio, para depois o suspiro da calmaria paralisar o tempo? Para mim, é como a sensação do sol se escondendo atrás do mar. Ainda que no fundo do poço, acho um desperdício um coração tão quente não ter outro batendo sob o seu peito. Angelina Dias

domingo, 8 de dezembro de 2024

Insubstituível

Li uma frase que dizia mais ou menos assim: "Cuidado ao achar que todo mundo é substituível; existem pessoas que você jamais encontrará duas vezes". Pessoas não podem ser substituídas; elas são únicas, assim como os planetas! Pessoas podem ser esquecidas, deixadas no passado ou não, mas nunca poderiam ser substituídas. O mundo capitalista nos diz que sim. Não é difícil ouvir, no meio corporativo: "Se você morre, amanhã mesmo é substituído." É isso que querem que acreditemos para nos sugar até a alma, colocando-nos medo para que não sejamos grandes, para que não alcemos voos que nos tirem de lugares que nos deterioram. E eu não estou falando de dinheiro; estou falando de ter o mínimo de dignidade e de sermos, vez ou outra, felizes. Nós acabamos replicando essa lógica em nossas vidas, em todas as esferas! Nunca mais existirá outra versão de mim no mundo, ou de você, que me lê. Mesmo que retornássemos a este planeta, não seríamos nós, como somos agora, nesta vida. Heráclito já dizia: “Ninguém entra no mesmo rio duas vezes, pois, quando isso acontece, já não se é o mesmo, assim como as águas já serão outras.” Acredito que as pessoas ocupam lugares e espaços diferentes em nossas vidas, não como substituição, mas como parte da movimentação natural da vida. O que a frase do início deste texto me diz é: cuidado para não ficar na estante, na prateleira, no sótão, na caixa de coisas esquecidas, no bolso do paletó que não sai do armário. Se você quiser ficar no coração, no sorriso, no perdão após uma briga boba, no abraço caloroso, no silêncio confortável, na memória amorosa, cuide disso. Cuide, se você quer ficar! – Angelina Dias