quinta-feira, 24 de julho de 2025
Um pedaço de bolo quente me fez chorar como pode isso?
Chorei compulsivamente durante o dia todo.
Ontem foi um dia muito difícil. Apesar de ter me sentido absurdamente amada pela espiritualidade, foi extremamente difícil (sem detalhes).
Tive a noção de que as coisas estão muito mais sérias do que eu imaginava.
Senti que a guerra não está só dentro de mim existe uma guerra muito maior, invisível, do lado de fora.
Hoje mal consegui levantar da cama, e era óbvio que isso aconteceria depois de ontem.
Pareço doente no corpo, para além da mente, mas eu sei que não estou.
Tentar enfrentar o que quer que seja, de qualquer maneira, sempre me leva a isso.
Não consigo dormir.
Estou sozinha e refletindo sobre o quão fragilizada, solitária, doente ou sei lá o quê eu estou.
Como o gesto de alguém me dar um pedaço de bolo quente pôde me deixar tão emocionada?
Comi o bolo morrendo de chorar, como se estivesse sendo abraçada ou afagada nos cabelos.
Li um texto que falava de como algo que foi feito para apertar podia aliviar.
Falava sobre abraço.
E, com aquele pedaço de bolo, eu me senti abraçada.
E, ao mesmo tempo, senti o quanto me faz falta um abraço físico, ouvir o coração do outro batendo, o afeto me atravessando a pele.
Olho pela janela e está tudo escuro.
Fico olhando para fora, e não há um barulho sequer não do lado de fora.
E choro mais um pouco.
Choro tsunami.
Não é um choro “riozinho”.
Choro sem direção.
Choro sem lugar.
Choro sem nome.
Choro de dor.
A pior verdade que você podia ouvir
olha só que ironia
era que eu te amava.
Eu te amava com os olhos,
com a boca,
com as mãos,
com o coração.
Te amava inteira,
mesmo quando me deixava em pedaços.
Te amava
como uma mãe que escuta, pela primeira vez,
o coração do filho bater dentro dela
genuíno, frágil, infinito.
Você queria ouvir,
mas eu te amei… amando.
Dizer “eu te amo”,
qualquer um diz.
Mas eu te amei na raiz do amor,
no tronco,
nas folhas mais altas das copas,
nas ondas gigantes de Nazaré,
e no riacho calmo que serpenteia
o fundo da fazenda.
Eu te amei como no furacão,
e como na paz
do canto de um pássaro livre.
Que ironia, não é?
Eu amava você.
— Angelina
domingo, 20 de julho de 2025
Gelado
O mundo está acabando e está todo mundo desfilando seus falsos sorrisos, suas falsas alegrias. “Os bares cheios de almas tão vazias.” As redes sociais só têm gente feliz, com grana no bolso e o olhar se derramando de tristeza. Fico observando…
Mas não é sobre isso que preciso escrever agora. Domingos são os dias mais difíceis para mim – e para uma porção de pessoas. Cada pessoa sabe o porquê, ou talvez não!
Almocei com poucas pessoas hoje. Minhas mãos e pés pareciam a Áustria de tão gelados mas sem auroras boreais. Tento disfarçar, até tocar em alguém e a pessoa se assustar com a temperatura.
A maioria foi embora. Ficamos eu, minha avó e a esposa do meu tio. Começo com um tremor singelo, e ninguém está vendo. De repente, o braço começa a tremer tanto que até balança o braço do sofá. Sentia o corpo inteiro tremer.
Minha avó, desde que soube que há espíritos “acampados”, loucos para que eu desista, começou a rezar o Credo comigo (eu não sei rezar essa oração). Mas fico lá. E, cada vez que ela reza, ela chora. E vou te falar: essa senhorinha não chora fácil.
Quando comecei a tremer sem intervalo, minha avó chamou a outra pessoa e disse:
— Vamos rezar o Credo?
Começaram. Rezei o Pai-Nosso junto. Quando acabou, o livrinho voou literalmente do sofá. Duas vezes. Olhos espantados se assustaram, e eu comentei que sempre que tentavam orar, rezar, fazer prece por mim, aconteciam algumas coisas estranhas. Pedi para não se assustarem.
De repente, a esposa do meu tio me contou que ela já sabia disso. Perguntei:
— Como assim você sabe?
Ela disse:
— Eu rezo por você, e a vela sempre apaga.
Minha mãe estava indo orar por você na igreja dela, e ela, junto com duas amigas, simplesmente adoeceram. As três, sem poder ir. Fiquei ouvindo aquilo atônita, porque já aconteceram muitas outras coisas. Coisas que se quebram, velas que se apagam… e muitas outras!
Me levantei e fui dormir, tentando fugir do que estava sentindo. Porque tudologo começa a se embolar, feito fios sem ponta, sem começo, sem final.
Cadê você, Angelina? Você ainda está aqui? Não é possível que vamos acabar assim!
E os girassóis?
E o mar?
E aquela família que você queria ter?
E tudo que você amava?
E seu sorriso, que era tão lindo? Você fechava os olhinhos pra sorrir!
Hoje eu tive que sentar com meu pai. Eu tive que me esforçar muito. E ele me pediu para decidir algumas coisas.
É tão estranho…
Tenho a sensação de que eu não vou morar naquela casa.
Ou é só a minha mente me enganando?
Mal tirei minhas roupas das caixas. Tirei só o que eu precisava… sei lá… pra trabalhar!
Como se nunca mais elas fossem ser abertas por mim.
sábado, 19 de julho de 2025
Que seja
Transformei isso aqui em um diário, coisa que nunca foi era apenas um lugar de guardar meus textos, porque acho que escrever é deixar eterno. Até encontrei, outro dia, uma amiga que sempre tem me chamado para fazer alguma coisa, mas eu não consigo ficar em lugares com muitas pessoas, completamente recolhida há muitos meses. Então, decidi encontrar ela em um parque bonito daqui. Olhar para o lago me acalmava quando o pânico batia. Mas foi muito bom ver alguém amigo depois de tanto tempo isolada.
Enquanto conversávamos, ela disse que a terapeuta havia pedido para ela escrever uma carta para seu último relacionamento aquele que a fez beirar a loucura , mesmo que ela não entregasse, mas dissesse tudo que precisava dizer e que estava entalado. Disse a ela que achava uma ótima ideia. Afinal de contas, esse era meu meio de falar o que explodia em mim. Daí ela disse: “Por que você não escreve uma pra fulana?”
Então, eu expliquei pra ela que a escrita, pra mim, tinha uma coisa um pouco mais profunda que um desabafo, e que eu penso que, quando escrevo, torno eterno seja o que for. Eternizo na minha história, que, um dia — sei lá —, se eu não estiver mais aqui, minha família pode ter acesso ao que acontecia dentro de mim.
Claro que eu gostaria de vomitar muitas coisas a essa pessoa sobre muitos anos… Mas, para além de saber que ela nem ligaria, eu não quero eternizá-la na minha escrita. Aceito ser a vilã da historinha dela. Todo mundo viu afinal, não foram meses, foram longos anos, e, apesar de ninguém falar à época, muita gente me disse que só eu não enxergava. Mas acabou há anos. Fica o estrago pra lidar!
Misturando assuntos, até porque aqui eu posso ser livre. Na escrita, você é livre!
Esses dias têm sido muito difíceis. Só vem a mim a vontade de cessar, e fico pensando em maneiras. E choro, choro feito uma criança desamparada, uma adulta desesperada e sem um pingo de esperança! Eu tento, mas estou paralisada. Sem saber de nada dos meus pensamentos. Só me vejo quieta, quase sempre deitada.
Minha mãe foi ao centro e pediu para que fizessem um passe de transporte pra mim. Já fizeram algumas vezes. Eu fazia uns abdominais no chão, enquanto parava e prestava atenção na música que tocava no meu fone, e algumas lágrimas escorriam. Minha mãe senta na minha cama, triste, olha pra mim e fala: “Eu pedi pra te fazerem o passe, mas eles não conseguiram. Tem uma parede de espíritos impedindo de chegarem até você.”
Eu olhei assustada pra ela e chorando ao mesmo tempo. Fiquei muito mexida. Não é a primeira vez que eu ouço isso. Já ouvi milhares de vezes, de muitas pessoas diferentes, mas nunca deixa de me assustar. E fiquei pensando… minha mãe não sabia que eu estava pensando em fazer merda. Isso veio. Fico pensando por que eles querem tanto que eu me mate. Até onde é a depressão e a ansiedade, e até onde são eles? Por que estão aqui?
Há um tempo atrás, eu voltei lá no centro, e a entidade que é o caboclo Oxóssi, que comanda a roda, chorou de soluçar quando me viu. Me abraçou e disse que me amava. E eu fiquei toda arrepiada e meio paralisada. Parece que eu não sei me sentir amada, como se não merecesse ser, como se eu não merecesse viver. Me arrepio inteira enquanto escrevo isso. Um arrepio estranho, que as pessoas costumam dizer que é arrepio na espinha.
Meu pai traz coisas pra eu ver e decidir sobre minha casa, e eu só queria dizer pra ele que eu não consigo querer nada. E eu me sinto culpada de não estar empolgada e feliz. Não dá pra fingir que se está feliz. Meu corpo todo fala — na verdade, ele grita , mesmo que minha boca nem se abra!
Eu fico pensando se dá pra se curar de algumas coisas que eu passei.
“Ah, você não é mais aquela criança.”
“Ah, você não é mais aquela adolescente.”
Porraaaa! Várias coisas que me prendem ou que eu permito, ou permiti fazerem comigo, vêm de onde, então, caralho? Que porra!
Eu não gosto de xingar, mas que pooooooorrraaaaaa!
domingo, 13 de julho de 2025
Domingos
Domingos
Domingos e suas saudades,
Domingos e suas solidões,
Domingos e seus almoços especiais,
Domingos e suas introspecções.
Domingos e seus silêncios,
Domingos e suas feiras,
Domingos e suas sonecas,
Domingos e suas ausências,
Domingos e suas cadeiras vazias.
Domingos e seus olhos,
Domingos e seus pés gelados,
Domingos e seus barulhos,
Domingos e seus dilemas.
Domingos e seus encontros,
Domingos e seus choros,
Domingos e suas feridas,
Domingos e seu sorriso.
Domingos e seus tédios,
Domingos e seus sonhos,
Domingos e seus descansos,
Domingos e suas frestas,
Domingos de horas paradas.
Domingos e seu abraço,
Domingos e seus passos trôpegos,
Domingos de horas corridas,
Domingos e seus inícios,
Domingos e seus FINAIS.
Angelina
sexta-feira, 11 de julho de 2025
Quando conheci o escuro
Quando dei conta da minha orientação sexual, o mundo caiu sobre a minha cabeça. A pessoa que, até ali, sempre seguira as regras à risca (se era uma regra, não podia ser quebrada ) nem mesmo um simples apertar a campainha e sair correndo para sentir aquela adrenalina que só a infância poderia proporcionar. Eu nunca me atrasava para chegar à escola, não precisava ser acordada. Um relógio antigo do meu pai, que já nem tinha mais pulseiras, bipava às seis da manhã na beirada da minha cama. Eu me levantava, tomava meu banho, vestia o uniforme e ia para a escola.
Todas as minhas amigas já tinham dado seu primeiro beijo antes mesmo da 8ª série, e eu só queria fazer meus esportes e dar orgulho para os meus pais e avós na escola — sobretudo para a minha mãe, que trabalhava na limpeza. Eu tentava alcançar as melhores notas para, no final do ano, minha mãe, em frente a um ginásio bastante cheio, subir no palco e colocar a medalha no meu pescoço, e todo mundo ver ela linda lá em cima. Mesmo eu morrendo de vergonha, pois sempre tive dificuldade de me expor em público.
Me lembro que já me emocionava com tudo que carregava um valor sentimental. Acho que, por ser ainda tão criança e talvez por um trauma rondando meu subconsciente , eu não tinha essas coisas de namoricos. Dei meu primeiro beijo porque todas as minhas amigas já haviam dado há muito tempo. Elas iam dormir na minha casa ou na escola mesmo, e ficavam divagando sobre as experiências delas, e eu não tinha nada a dizer. Eu pensava, sem dizer nada: Caramba, não senti nada disso que elas dizem. Mas achei que fosse porque não tinha sido algo tão natural, partindo unicamente da minha vontade.
Aos exatos 15 anos, em uma viagem, numa situação específica, minha cabeça rodopiou e eu fiquei tentando digerir, sem falar com ninguém, o que estava sentindo. Quando cheguei em casa, realmente o mundo tinha desabado sobre mim e eu não entendia nada. Como um simples olhar fez uma chave virar tão bruscamente? Eu escrevia sem parar, arrancava as folhas e jogava tudo fora (me arrependo disso, gostaria de ler hoje o que eu escrevia). Me trancava no banheiro e passava horas chorando no escuro, porque eu não entendia o que estava acontecendo comigo e tive muito, mas muito medo de quem de fato eu era. Era um tabu. O preconceito era escancarado, e eu pensava que, aos 15, já havia falhado como pessoa.
Ali eu conheci, pela primeira vez, o escuro, o silêncio, a solidão de ser, mesmo sem nunca ter encostado em uma garota. Eu me punia diariamente e me sentia completamente perdida e sozinha. Eu tinha dessas de passar as coisas mais difíceis sozinha. Sempre achei injusto dividir minhas dores, meus sofrimentos. Achava que estava sendo egoísta, e isso me custou muito e ainda custa.
Lembro, enquanto escrevo, de quantas vezes eu me calei, mesmo criança. Eu nunca abria a boca para contar qualquer coisa ruim que se passava comigo. Cresci permissiva com a falta de respeito, com algumas humilhações. Lembro-me, como se fosse hoje, de um episódio em que eu brincava com meus primos e a mãe deles parou aqueles carrinhos da Kibon, que existiam para além das praias, mas que passavam nos bairros. Ela deu um picolé para cada um deles e eu não ganhei. Não pedi e fingi que estava tudo normal. Meu avô apareceu logo em seguida e me indagou:
— Por que você não está chupando picolé?
Eu só respondi:
— Porque eu não ganhei.
E não esbocei nem uma palavra a mais. Ele disse:
— Vem cá, Angelina.
Me levou até a farmácia, que tinha um freezer da Kibon, e disse:
— Pega o que quiser.
Eu hesitei, disse que não precisava, mas ele insistiu. Peguei um picolé toda desajeitada, porque parecia que aquilo poderia pesar a situação e eu nunca pedia nada pra ninguém. Mas eu entendi, depois, que ele me enxergou. Ele enxergou o que estava acontecendo, e foi um ato de proteção e, sobretudo, de amor.
Eu estou com saudade de você. O mundo era diferente pra mim quando você existia do outro lado da rua, e eu nunca tive coragem de te dizer quem eu era. Apesar de ter certeza de que o senhor sabia. No dia em que o senhor partiu, eu fiquei completamente paralisada. Era difícil demais acreditar. E eu tive tanto medo de que, quando soubesse da minha orientação, e de que na época aquela pessoa de tantos anos não era minha amiga, o senhor pudesse se desapontar comigo mesmo tendo praticamente certeza de que já sabia, e que nada havia mudado entre nós.
Eu chorava a sua perda como se uma parte muito considerável de mim também tivesse partido. E chorava pela possibilidade de o senhor estar desapontado comigo. Hoje eu tenho certeza de que não. O senhor era meu maior incentivador, apostava todas as fichas em mim, e eu vou te amar por toda a eternidade. E, quando do outro lado eu estiver, espero te encontrar de braços abertos onde nada importa além do que fomos como seres humanos e do amor que construímos.
Angelina
“Depois que vivo é que sei que vivi. Na hora o viver me escapa. Sou uma lembrança de mim mesma. Só depois de ‘morrer’ é que vejo que vivi. Eu me escapo de mim mesma. Às vezes eu me apresso em acabar um episódio íntimo de vida para poder captá-lo em recordações, e para, mais do que ter vivido, viver. Um viver que já foi. Deglutido por mim e fazendo agora parte do meu sangue.”
Clarice Lispector — Um Sopro de Vida
segunda-feira, 7 de julho de 2025
Palavras
Disse à minha mãe que sentia falta do toque físico dela, que sempre senti. Nesses dias de crises intensas, eu queria que ela me colocasse no colo. Não precisava dizer uma palavra. Ela vive dizendo que queria me colocar no útero de novo, mas isso não é possível, mãe. Mas a minha cabeça encostada no seu peito, ouvindo seu coração bater, me faria querer ficar aqui mais um pouco só pra te ver sendo.
O amor que tenho por você… nem a música mais bonita na voz de Bethânia, nem a poesia mais profunda escrita por Clarice poderiam sequer beirar a descrição.
Minha avó passa sua mão bem de levezinho enquanto eu choro “escondida” e ouço, bem baixinho, em meio aos meus soluços, ela com os olhos apertadinhos, como os meus rezando com sua fé inabalável sob meu corpo encolhido. E eu me sinto muito culpada por amar tanto, mas tanto, ela… e ela ter que me ver nessa vulnerabilidade nua, crua, que eu tentei (e consegui) esconder deles por anos.
Meu pai, todos os dias, dá uma espiada na porta e tenta me fazer levantar. Mas ontem, enquanto eu passava por ele, ele me puxou e me deu um abraço e eu quis me derramar.
Eu tinha uma conexão com meu pai inexplicável. Lembro-me, com amor, de quando ele estava com dor de cabeça: ele chegava do trabalho, deitava a cabeça no meu colo pequeno, colocava minha mão na testa dele e, com os olhos fechados, dizia que eu estava sarando ele e parecia realmente funcionar.
A gratidão por tudo que fizeram e fazem por mim… e o amor do meu avô, misturado com a saudade que nunca cessa — dia 15 fazem 7 anos — e não é possível que já tenha se passado tanto tempo sem ver seus olhos doces, marejados, ao falar “Angelina” da forma mais bonita que alguém poderia pronunciar o meu nome…eu que não lembro de nada ultimamente nunca me esqueço de você e tudo isso me atravessa como a uma flecha certeira.
Três vídeos apareceram pra mim, um atrás do outro. No primeiro, uma senhora com um cobertor, sem saber que estava sendo filmada de longe, sem plateias, sem holofotes, sem esperar nada em troca, embrulha com todo amor uma pessoa em situação de rua, dormindo no chão. Ele nem a viu, e ela o embrulhou como uma mãe, como uma avó, com amor e cuidado. Eu vi Deus ali.
No segundo vídeo, uma sobrinha, que estava sem falar com seu tio, bloqueados, liga e começa a chorar assim que ouve a voz dele. Ele se preocupa com ela, mas ela diz que só queria que ele soubesse que o amava e era grata. Ele responde: “O tio está indo aí.” Ela diz que não precisa, mas ele insiste: “Já estou indo.” Eu vi o amor, o perdão e, principalmente, o “amanhã pode ser tarde, eu te amo hoje e preciso que saiba disso hoje, agora.”
O terceiro vídeo tinha uma música de fundo. No primeiro momento, achei que estivesse enganada com o que dizia a canção. Nunca havia ouvido antes. Kanarô foi a palavra que ouvi,palavra que acho bonita demais. Quando prestei atenção, vi que a música tinha esse nome. E ela falava sobre saudade. Kanarô, na língua dos índios Yawanawá, significa “saudade” — mas uma saudade que faz chorar.
E eu senti saudade de tanta coisa… mas, sobretudo, senti saudade de mim mesma. Saudade de doer de mim mesma.
sábado, 5 de julho de 2025
Estrelas se apagam
Eu não quero mais ficar aqui. Isso pode soar egoísta, covarde e, sinceramente, eu não me importo com o que qualquer pessoa pense sobre isso. Quem vê esse corpo quieto, encolhido na cama, não faz ideia da gritaria incessante que acontece dentro da minha cabeça. Coração acelerado, pés gelados, minha cabeça dói, meu pescoço dói de tanta tensão e da força descomunal que faço para não me machucar e não me entregar de vez. Eu não tenho mais muita energia para essa guerra de tentar permanecer aqui contra essa força absurda que só me faz querer desaparecer.
Choro, implorando para Deus me levar, deixar alguém que queira ficar, que queira viver. Eu troco de lugar, mas eu não suporto mais sentir isso. Não me obrigue a continuar, por favor. Sei que és misericordioso, tenha misericórdia de mim — mesmo que eu não a mereça. Não é culpa de ninguém, eu só não sei mais viver, não sei… não caibo. Tenho um pouco de paz quando durmo e torço para não acordar.
Ah, mas você não pensa na sua família? Penso, e penso muito, mas isso não muda a minha dor. E a espiritualidade? Não sei. Peço misericórdia é a única coisa em que consigo pensar. Me liberte deste corpo. O Senhor conhece meu coração como ninguém. Em muitos momentos, só o Senhor e o mundo espiritual em que acredito estiveram comigo. Eu tento fazer melhor da próxima vez, mas busca minha alma exausta, Deus. Me deixa dormir no Teu colo de amor. Eu não estou cabendo mais nem dentro do meu próprio corpo.
Eu já fui conhecida como a moça a menina do sorriso bonito. Junto daqueles a quem eu amava, meu sorriso sempre foi fácil, aberto, parecia que eram 64 dentes. Gargalhadas soltas, sem motivo algum, que me arrancavam o ar dos pulmões e faziam todo mundo ao redor se desmanchar em sorrisos, quando eu — arrebatadoramente tímida — imitava um personagem engraçado com todas as suas nuances e gestuais. Sabe quando uma criança aprende a fazer, sei lá, um bichinho? E todo mundo fica pedindo pra ela fazer de novo porque é bom demais? Era assim.
Enquanto ando na corda bamba, como aqueles bêbados equilibristas, lá no fundo (que devem ser as preces dos meus pais e da minha avó que me prendem), fico tentando entender como é possível uma pessoa ir se despetalando pelo caminho dessa maneira. É muito real quando digo que odeio olhar no espelho no sentido real e figurado porque eu não me reconheço.
Outro dia, vi uma entrevista em que perguntavam: “Você prefere X bilhões de reais ou cinco minutos com Deus?”
Cinco minutos com Deus, por favor. Só para eu poder entender tudo, ou pelo menos os pontos mais cruciais que me aconteceram e que me mudaram por completo… ou só para deitar no colo Dele e chorar, e pedir com todo o meu coração para ficar ali sem que a minha partida aqui fizesse as pessoas que me amam sofrerem.
A minha vida, até aqui, foi pautada no outro, no bem-estar, nas vontades, nas mediações, no “pode deixar, eu resolvo”. Cresci seguindo regras, cumprindo ordens à risca, achando desrespeito algo normal e perdoando com facilidade. Talvez eu merecesse eu pensava. E todas as vezes que eu errei, dos pequenos aos grandes erros, eu não me perdoei, até chegar aonde estou hoje: me diminuindo em todas as partes de mim, como se não tivesse conquistado nada na vida, como se não fosse capaz… Me perdendo, como quem tem certeza de que jamais encontrará o caminho de volta.
O medo me paralisou. A culpa me roubou a energia vital. Fui criada para não errar — e, obviamente, eu erraria muitas vezes.
Sabe uma coisa que nunca mudou em mim, apesar de tudo?
O amor que eu carrego nesse coração, que parece que vai arrebentar a qualquer momento e, ao mesmo tempo, fica miúdo, de tanto doer. Tudo me dói mesmo quando escolho o afastamento, o silêncio, a quietude. Eu choro como um rio rompendo todas as barragens. Me preocupo com detalhes que as pessoas nunca saberão… talvez sintam. Porque a energia encontra as pessoas onde quer que elas estejam mesmo que não as vejamos, não falemos com elas, seja neste mundo ou em outro. Acho que as estrelas são nossos pensamentos brilhando por aí, vistos de qualquer lugar.
Meu primeiro nome, em Tupinambá, significa “Os Primeiros Raios de Guaraci (Sol)”, ou ainda “Estrela da Manhã”. Uma coincidência bonita, que só.
Eu gostaria, um dia, de ser estrela.
Divagando demais…
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