sábado, 5 de julho de 2025
Estrelas se apagam
Eu não quero mais ficar aqui. Isso pode soar egoísta, covarde e, sinceramente, eu não me importo com o que qualquer pessoa pense sobre isso. Quem vê esse corpo quieto, encolhido na cama, não faz ideia da gritaria incessante que acontece dentro da minha cabeça. Coração acelerado, pés gelados, minha cabeça dói, meu pescoço dói de tanta tensão e da força descomunal que faço para não me machucar e não me entregar de vez. Eu não tenho mais muita energia para essa guerra de tentar permanecer aqui contra essa força absurda que só me faz querer desaparecer.
Choro, implorando para Deus me levar, deixar alguém que queira ficar, que queira viver. Eu troco de lugar, mas eu não suporto mais sentir isso. Não me obrigue a continuar, por favor. Sei que és misericordioso, tenha misericórdia de mim — mesmo que eu não a mereça. Não é culpa de ninguém, eu só não sei mais viver, não sei… não caibo. Tenho um pouco de paz quando durmo e torço para não acordar.
Ah, mas você não pensa na sua família? Penso, e penso muito, mas isso não muda a minha dor. E a espiritualidade? Não sei. Peço misericórdia é a única coisa em que consigo pensar. Me liberte deste corpo. O Senhor conhece meu coração como ninguém. Em muitos momentos, só o Senhor e o mundo espiritual em que acredito estiveram comigo. Eu tento fazer melhor da próxima vez, mas busca minha alma exausta, Deus. Me deixa dormir no Teu colo de amor. Eu não estou cabendo mais nem dentro do meu próprio corpo.
Eu já fui conhecida como a moça a menina do sorriso bonito. Junto daqueles a quem eu amava, meu sorriso sempre foi fácil, aberto, parecia que eram 64 dentes. Gargalhadas soltas, sem motivo algum, que me arrancavam o ar dos pulmões e faziam todo mundo ao redor se desmanchar em sorrisos, quando eu — arrebatadoramente tímida — imitava um personagem engraçado com todas as suas nuances e gestuais. Sabe quando uma criança aprende a fazer, sei lá, um bichinho? E todo mundo fica pedindo pra ela fazer de novo porque é bom demais? Era assim.
Enquanto ando na corda bamba, como aqueles bêbados equilibristas, lá no fundo (que devem ser as preces dos meus pais e da minha avó que me prendem), fico tentando entender como é possível uma pessoa ir se despetalando pelo caminho dessa maneira. É muito real quando digo que odeio olhar no espelho no sentido real e figurado porque eu não me reconheço.
Outro dia, vi uma entrevista em que perguntavam: “Você prefere X bilhões de reais ou cinco minutos com Deus?”
Cinco minutos com Deus, por favor. Só para eu poder entender tudo, ou pelo menos os pontos mais cruciais que me aconteceram e que me mudaram por completo… ou só para deitar no colo Dele e chorar, e pedir com todo o meu coração para ficar ali sem que a minha partida aqui fizesse as pessoas que me amam sofrerem.
A minha vida, até aqui, foi pautada no outro, no bem-estar, nas vontades, nas mediações, no “pode deixar, eu resolvo”. Cresci seguindo regras, cumprindo ordens à risca, achando desrespeito algo normal e perdoando com facilidade. Talvez eu merecesse eu pensava. E todas as vezes que eu errei, dos pequenos aos grandes erros, eu não me perdoei, até chegar aonde estou hoje: me diminuindo em todas as partes de mim, como se não tivesse conquistado nada na vida, como se não fosse capaz… Me perdendo, como quem tem certeza de que jamais encontrará o caminho de volta.
O medo me paralisou. A culpa me roubou a energia vital. Fui criada para não errar — e, obviamente, eu erraria muitas vezes.
Sabe uma coisa que nunca mudou em mim, apesar de tudo?
O amor que eu carrego nesse coração, que parece que vai arrebentar a qualquer momento e, ao mesmo tempo, fica miúdo, de tanto doer. Tudo me dói mesmo quando escolho o afastamento, o silêncio, a quietude. Eu choro como um rio rompendo todas as barragens. Me preocupo com detalhes que as pessoas nunca saberão… talvez sintam. Porque a energia encontra as pessoas onde quer que elas estejam mesmo que não as vejamos, não falemos com elas, seja neste mundo ou em outro. Acho que as estrelas são nossos pensamentos brilhando por aí, vistos de qualquer lugar.
Meu primeiro nome, em Tupinambá, significa “Os Primeiros Raios de Guaraci (Sol)”, ou ainda “Estrela da Manhã”. Uma coincidência bonita, que só.
Eu gostaria, um dia, de ser estrela.
Divagando demais…
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