domingo, 14 de junho de 2026

Minha menininha

Sonhei com a minha menininha. Eu havia feito inseminação artificial e peguei todos de surpresa. Minha barriga estava grande e linda, até brilhava. Eu estava em estado de êxtase. As tias conversavam com ela, e ela dava cambalhotas em meu ventre. Em dado momento, ela se empolgou tanto e minha barriga estava tão esticada que a mãozinha dela marcou na pele. Foi uma das coisas mais lindas que eu já vi na vida. Nem uma aurora boreal poderia sequer competir, nem a noite estrelada chegaria perto da pintura linda que sua mãozinha faria. Você estava no sonho e eu não sei por que ainda aparece. Fico tentando encontrar um significado, mas obviamente não chego a lugar algum. Talvez não signifique nada, ou talvez signifique. Que diferença faz? Mas a minha menininha talvez mudaria a minha vida completamente. Incontáveis vezes sonhei com ela: na barriga, amamentando, enquanto ela agarrava a mãozinha na minha blusa, dentre tantos outros sonhos desde muito nova. Ela se chamaria Angelina, e eu sinto saudades dela. Acordei com a barriga tomada por uma sensação de vazio, como se esse corpo não fosse o meu, mas sim o que carregava a menininha. Passei o dia com um sentimento diferente, como se houvesse uma pequena ponta de esperança em mim, arrepiando-me intensamente. Minha menininha talvez fosse a minha esperança, fosse meu grande amor, fosse meu motivo para continuar. Minha menininha encheu meu ventre com tanto amor que não parecia um sonho. Não sei se ela apenas nasceria, ou se eu renasceria nela.

quarta-feira, 10 de junho de 2026

Angústia

Meu coração não para de esfriar, como quando você se assusta, desce em uma montanha-russa ou sente que algo muito ruim pode acontecer. Pode ser minha ansiedade, mas não parece ser. Respiro fundo e sinto como se houvesse um elefante sentado sobre o meu peito. Que angústia!

sábado, 6 de junho de 2026

Carta aberta

Tenho uma saudade insuportável de mim. Estou longe de ser quem eu era. Há um vazio que parece um buraco negro, e não existe choro que me alivie ou console. Nesses momentos, sobretudo, eu só queria uma mão apertando a minha, uma batidinha nas costas que fosse, um pouco de calor humano. Deus, me perdoa. Perdoa os meus pecados, os meus erros e as minhas faltas. Mas, por favor, eu te imploro: me traga de volta ou me leva embora de uma vez. Não dá para continuar aqui, morta estando viva, e eu não suporto mais. Perdoa também a minha fraqueza. Eu tentei, eu tento, com a pouca e quase nula força que me resta. Esta é uma carta aberta ao Senhor e a toda espiritualidade que me protege e me guia. Eu sei que já disse algumas vezes que não aguentava mais, mas é que desta vez está desesperador. Eu não quero mais me levantar da cama. Não queria mais fazer nada. Está sendo muito sofrido, e parece que meu peito vai explodir. Acho que vai acabar explodindo mesmo. Ter que mostrar que está tudo bem quando se está por um triz é muito cansativo. Mas ninguém precisa se preocupar mais. Acho que todos esses anos já foram sofrimento suficiente para quem está perto de mim. E uma das coisas que eu sempre tentei, mesmo falhando tantas vezes, foi poupar as pessoas de sofrer. Todas as vezes em que não consegui me assombram até hoje como estacas cravadas no peito. E, quando elas se movem, sangra e dói demais. Eu não suporto mais apenas sobreviver. Nada faz sentido para mim. Nada tem sentido algum. Eu sei que não estou sozinha no mundo e sou grata por isso, mas a solidão me engoliu por inteiro. Eu não sei mais o que é um toque humano. E, quando lembro da frase “nascemos sós e retornaremos sós”, penso que talvez esteja na minha hora do retorno. Senhor, esta é uma carta de desespero em carne viva. Me traga de volta ou me leva de uma vez. Amém. "Sei que sabes mais sobre mim que eu mesmo Mas é que hoje eu precisava escutar o seu coração Deixa eu me abrir com o Senhor Colocar minha cabeça em teu colo, Deus Aproveita e faz um carinho Porque todo filho quer isso do pai deixa eu te contar minha dor Quando eu estou longe de casa, pai"

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Um corpo

Desço na escola. Viaturas, ambulância… Meu coração saltou e senti uma náusea absurda. Havia um homem assassinado com requintes de crueldade: um corpo caído sobre o próprio sangue. Um corpo preto, um corpo pobre. Deixaram-no exposto como em um museu de terror por horas, sem tapar nem ao menos seu rosto completamente desfigurado. Todo mundo sacava o celular como diante de um circo de horrores. Comentários macabros, como se fosse um pedaço de pau deixado ao chão, como se ele não fosse humano, como se não sangrasse, não chorasse, não sofresse, não tivesse uma mãe, não tivesse saído de um ventre, não fosse filho de u “80 tiros te lembram que existe pele alva e pele alvo. Quem disparou usava farda (mais uma vez). Quem te acusou nem lá num tava (banda de espírito de porco). Porque um corpo preto morto é tipo os hit das parada. Todo mundo vê, mas essa porra não diz nada.” Olhei no espelho, Ícaro me encarou: “Cuidado, não voa tão perto do sol. Eles num guenta te ver livre, imagina te ver rei.” O abutre quer te ver drogado para dizer: “Ó, num falei?” A sociedade está irrevogavelmente doente. Likes valem mais do que a dor de uma morte violentíssima, como se nada fosse. Chico Buarque escreveu : E tropeçou no céu como se fosse um bêbado E flutuou no ar como se fosse um pássaro E se acabou no chão feito um pacote flácido Agonizou no meio do passeio público Morreu na contramão atrapalhando o tráfego” não parei de pensar naquele homem, não interessa quem ele era ,ninguém merece um final tão trágico assistido como a banalidade de quem atravessa uma rua !