segunda-feira, 1 de junho de 2026

Um corpo

Desço na escola. Viaturas, ambulância… Meu coração saltou e senti uma náusea absurda. Havia um homem assassinado com requintes de crueldade: um corpo caído sobre o próprio sangue. Um corpo preto, um corpo pobre. Deixaram-no exposto como em um museu de terror por horas, sem tapar nem ao menos seu rosto completamente desfigurado. Todo mundo sacava o celular como diante de um circo de horrores. Comentários macabros, como se fosse um pedaço de pau deixado ao chão, como se ele não fosse humano, como se não sangrasse, não chorasse, não sofresse, não tivesse uma mãe, não tivesse saído de um ventre, não fosse filho de u “80 tiros te lembram que existe pele alva e pele alvo. Quem disparou usava farda (mais uma vez). Quem te acusou nem lá num tava (banda de espírito de porco). Porque um corpo preto morto é tipo os hit das parada. Todo mundo vê, mas essa porra não diz nada.” Olhei no espelho, Ícaro me encarou: “Cuidado, não voa tão perto do sol. Eles num guenta te ver livre, imagina te ver rei.” O abutre quer te ver drogado para dizer: “Ó, num falei?” A sociedade está irrevogavelmente doente. Likes valem mais do que a dor de uma morte violentíssima, como se nada fosse. Chico Buarque escreveu : E tropeçou no céu como se fosse um bêbado E flutuou no ar como se fosse um pássaro E se acabou no chão feito um pacote flácido Agonizou no meio do passeio público Morreu na contramão atrapalhando o tráfego” não parei de pensar naquele homem, não interessa quem ele era ,ninguém merece um final tão trágico assistido como a banalidade de quem atravessa uma rua !

Nenhum comentário:

Postar um comentário