quinta-feira, 30 de outubro de 2025

Oi, Angelina criança. É… acho que deu ruim pra gente, rs! Começo esse texto ou desabafo te pedindo desculpas. Eu não pude nos proteger de algumas coisas, e sinto muito por isso. A gente ouve muito a frase: “você não é mais aquela criança”. Será mesmo? Nós vivemos em um lar muito crítico e sem elogios. Você lembra o quanto se esforçava para ser a melhor da escola, só pra que sua mãe que limpava a escola pudesse subir no palco e receber junto com você a medalha de honra ao mérito? A gente via o quanto ela era inferiorizada por ser da limpeza e, mesmo tão pequenas, parecíamos umas oncinhas, “protegendo” ela das crianças cruéis. E lembra como ensaiávamos, mesmo com tanta timidez, só pra ver o papai lá na plateia no dia dos pais? Mas ele nunca pôde ir, porque o trabalho não liberava. Tínhamos o vovô na plateia, mas nós queríamos o papai… aquele que, sempre que tinha dor de cabeça, deitava no seu colo. Você colocava nossas mãos, ainda pequeninas, sobre a cabeça dele. A gente não sabia, mas já éramos médiuns de cura por isso ele se sentia melhor. Nós não deveríamos ter sido tão responsáveis. Dizem que é coisa do nosso signo, mas não. Foi a construção que tivemos. Nos fizeram mini adultas o “correio” dos nossos pais quando eles brigavam e ficavam dias sem se falar. Quando o papai e nossas irmãs brigavam, tínhamos pânico de que alguém fosse embora. E uma delas foi. Cometer erros era como fracassar. E a gente errou pra caramba, mas nunca se perdoou! Ficamos marcadas pra sempre quando aquela tragédia aconteceu. Eu queria tanto ter te protegido… você era uma criança tão inocente! Perdemos o vovô e foi uma das dores mais profundas que já sentimos. Não formamos uma família, você não teve o tão sonhado bebê, e não somos felizes. Perdemos o prazer pela vida. Você não sorri mais como antes, nem faz aquelas performances que faziam todo mundo rir. A gente tá perdida, Angelina. Que merda, né? Você fez faculdade, mas o elogio não veio. Você também foi pra São Paulo acredita que fomos pra cidade de lego? Um diploma tão difícil de conquistar, e mesmo assim não fomos elogiadas. Você (ou eu, ou nós) continuamos achando que não somos capazes. Você ainda chora sozinha, como fazia trancada no banheiro escuro, agachada num canto qualquer. A gente não tem mais medo da morte temos medo da vida. E seus olhos… já não brilham mais como antes, como uma gotinha de luz. Tenho tanta saudade de você. Eu queria ter te protegido. Foi mal. Você não joga mais fora o que escreve vai deixando tudo aqui, pra sei lá o quê. Não tem mais ninguém sentado no jardim te esperando, e você também não espera mais por isso. Você ainda tenta salvar o mundo, mas não consegue se salvar. Aprendemos a dizer “não” às vezes, mas não o suficiente. Você continua amando os animais e tem um monte deles tatuados. Sim, nós fizemos tatuagens! Conseguimos isso, rs. Seu coração ainda continua bonito que só, mas perdemos a esperança e ansiamos pelo fim. Não morremos aos 25, como você tinha certeza pelo menos não corporalmente… mas, de certa forma, sim. Sabe por que a gente vomitava tanto? Temos intolerância à lactose. Eu sei, é chato pra caramba, mas pelo menos não vomitamos mais (embora ainda teimemos às vezes). E você ainda morre de medo de perder as pessoas que ama. Continua chorando só de imaginar. Não somos mais tão sociáveis e não jogamos mais capoeira
você era viciada, né? Aprendeu a tocar todos os instrumentos sozinha e amava competir. Você era uma boa garota. Olha aqui pra mim: você era uma boa garota. Desculpa, Angelina… A gente não conseguiu.

terça-feira, 28 de outubro de 2025

Estranho é querer

O mundo tá feio pra caralho. Egos desfilam como se tivessem o poder nas mãos sobre todas as coisas. Alianças de milhões nos dedos e nem um pingo de amor sob o teto alto de portas gigantes. Todo mundo nas redes sociais tem corpos “bonitos”, postam em cada esquina que atravessam, e todo mundo é feliz e completo mas por trás da tela, o vazio faz mais eco que o microfone ruim da escola! Desfilam suas coleções de bolsas que dariam para alimentar centenas de pessoas. Ontem me apareceu um corte de uma entrevista em que a entrevistada disse que o que mais escuta é que as pessoas não têm tempo para ir à academia, e o apresentador logo solta: “Desculpa, né?”. E ela responde: “Não, não é desculpa. A mãe trabalha o dia inteiro para ganhar um mísero salário e, quando chega em casa, vai cuidar dos afazeres domésticos e dos filhos.” Que porra de bolha é essa em que as pessoas acham que todo mundo tem as mesmas condições e oportunidades? Meritocracia é meu… Elitizaram até a atividade física e acham que TODOS têm oportunidade de fazer; se não o fazem, é mera desculpa disse a pessoa que tem personal trainer, uns tênis de dois mil, nutróloga, endócrino e nenhuma louça pra lavar! Ninguém se importa se você está no fundo do poço: “Se vira, encontre um jeito de sair, senão piso na sua cabeça e te enfio na lama!”. Você vale o que tem, e não quem é. Pessoas performando como dublês de rico enquanto a mãe tá passando fome. Business, performances, metas vendem até a alma pro diabo, se for preciso, pra inflarem ainda mais seus egos e encherem o c* de dinheiro. E acreditem: muitos são extremamente infelizes! A paz não está à venda nas prateleiras das lojas de luxo e muito menos o amor, onde uma ínfima quantidade de pessoas vai pisar e olhe lá, talvez apenas para limpar o chão desses filhos da put@. Ninguém para e olha ao redor a quantidade de pessoas em situação de rua que se tornam invisíveis nessa merda de sociedade. “Se estão na rua é porque são viciados e preguiçosos” e não arrebentados pelo sistema. Esqueça viver um amor verdadeiro sentado debaixo de uma árvore as pessoas estão mais rasas que o rio na seca do nordeste , e mais frias que a Islândia. Es-que-ce! Ou vive na solidão, ou vá embora disso aqui. As poesias são lindas, as músicas são lindas, mas são uma utopia do caralho. As pessoas querem ser amadas, mas não querem amar ninguém. Love bombing, ghosting… viraram moda. E quem demonstra qualquer tipo de sentimento é “emocionado”. Bem-vindo à sociedade de merda. E ainda me perguntam por que eu não quero estar aqui. Estranho é querer. – Angelina

domingo, 26 de outubro de 2025

DEUS

O perdão é entendido como uma decisão consciente e deliberada, mas ainda assim eu acho que é uma dádiva que Deus e toda a espiritualidade nos concederam como se nos dessem um presente para aquebrantar qualquer coração. Liberar o perdão é como esvaziar-se e compreender o quanto nós também erramos diariamente. É entender que todos nós precisamos nos perdoar e perdoar o outro constantemente não como se tivéssemos um superpoder do perdão que não cabe a nós, meros mortais, mas como quem deixa ir, como as águas que correm pelos rios, o que não foi tão bom assim. Hoje eu entendi com mais força, mesmo já tendo esse pensamento há muito tempo, que Deus está dentro de nós. Ele não precisa de templos, igrejas, terreiros, mesquitas ou sinagogas a espiritualidade habita em nós, e nós, com nosso livre-arbítrio, decidimos senti-la verdadeiramente ou não. Meu primo decidiu que quer ser padre, e hoje foi a missa de entrega do escapulário, como forma de proteção (obviamente o escapulário de prata tocava na minha cabeça enquanto tudo acontecia). Eu estava resistente a ir a uma igreja católica fui por ele, mas depois entendi que não foi só por ele. Chorei feito criança em muitos momentos. Olhava para cima, havia uma claraboia enorme, e nas nuvens eu podia ver Deus. Eu vi Deus também no casal logo à minha frente o amor deles era tão explícito que bastava a forma como um olhava para o outro. Enquanto ela chorava sabe a dor de quem perdeu alguém muito amado? , ele a acalentava com tanto amor e cuidado, e ela parecia ter paz. “Combati o bom combate e conservei a minha fé.” Deus não mora em paredes Ele vive dentro de nós. — Angelina

sexta-feira, 24 de outubro de 2025

Não recomendo

Acordei, mas não recomendo. Uma frase absurdamente clichê, eu sei, mas é que hoje eu gostaria muito de ficar na cama, sem nem me mexer ou ouvir qualquer voz que seja ser alimentada pelo silêncio. O noticiário diz que hoje chove, e que as ruas podem ficar alagadas, como as ruas que se atravessam dentro de mim. “Ei, me escuta aqui”, diz a menina. “Pare de procurar cajus em pés de goiaba. O tempo não volta, e você morre no final da história morre metaforicamente na vida de alguém ou verdadeiramente em um dia banal, em que acordou, escovou os dentes, tomou seu café e acreditou que ainda teria muito tempo.” O mundo está ao contrário, e muita gente já reparou, Cássia. O segundo sol chegou e não realinhou as órbitas dos planetas, e estão quase todos iludidos com o poder. Minhas costas doem, mas é o coração que se desmancha. As medicações me afastam do tempo, mas o relógio não para. Quem promete ficar, não fica. Quem disse “te amo”, depois conta que você era um peso e quando essa pessoa poderia ser um peso, você a carregou mesmo com o seu peso e o dela. O mundo anda feio, e ninguém parece se importar. O telefone não tocou para saber se eu ainda respirava do outro lado. E quando eu me for, flores e homenagens não faltarão. Ser bom em um mundo tão cruel e caótico nos amassa como o metrô de São Paulo em horário de pico, onde tudo se espreme, se aperta, e você sai do vagão sem nem perceber porque alguém te empurrou. Nadar contra a correnteza é difícil, e você pode se afogar. Uma formiga miúda passa com um pedacinho de folha que, pra mim, é minúsculo, mas pra ela é imensidão. Ela não desiste. A natureza é perfeita, e os animais são a forma mais simples de pureza, persistência, amor e coletividade. Um animal abandonado continua amando seu tutor e eu morro de saudade de você. Sou um grão de areia no fundo mais fundo do mar. E morro de saudade de você. — Angelina

Ausência de mãos

Abracei a mim mesma, nua, como se eu já tivesse esquecido como eram duas mãos quentes tocando meu corpo com carinho e amor. Entrelacei os braços até as costas; a lágrima desceu silenciosa e única. Mas não adiantou todo mundo quer ser amado, cada um à sua maneira, mas ser amado, ser tocado pelo outro como se as digitais pudessem decodificar a nossa pele. Os dedos deslizando calmamente pelas costas, como quem tateia no escuro o caminho de volta para casa. A possibilidade do amor me parece tão distante quanto a estrela cadente que passou e para a qual fiz um pedido, como se aquilo fosse real mas não era. Estar sozinha em silêncio é como não existir; é como se eu me tornasse invisível ao mundo, como quando olho para o espelho e não vejo nada. Deixar de existir não é só morrer deixar de existir é se perder de si. Não há velório, não há choro, não há sepultamento, mas é como se a terra fosse jogada na sua cara e você não conseguisse enxergar. Eu não sabia que era possível morrer e continuar respirando e acho que é uma das mortes mais tristes, porque é silenciosa e solitária. Abraçar a mim mesma não me acolheu, mas me doeu com a ausência de mãos. — Angelina

terça-feira, 21 de outubro de 2025

O final do dia se torna pesado, como um elefante sentado no meio do meu peito, comprimindo meus pulmões e meu pequeno grande coração até que explodissem. Acordo cedo e passo o dia cuidando da dor física ou não de outras pessoas. Visto a roupa de ser e sou, quando finalmente deito meu corpo no colchão, estou completamente estafada. Choro sem ruídos, com o rosto afundado no travesseiro da cama vazia ,vazia até de mim mesma. Um vazio deitada em uma cama com espaço demais e que, paradoxalmente, não me cabe. Eu sei, não faz sentido. Eu só queria ser amada essa é a conclusão. Amada de verdade. Amada de forma nua e calorosa. Amada, gritada no meio dos carros. Amada com um abraço que me reanimasse, como numa parada cardiorrespiratória, em que não se desiste até que não haja mais pulso. Amada no silêncio, e quando eu cantar desafinada minha música preferida no som alto, que você sorria achando engraçado e não patético e dissesse que adora a dancinha boba que eu faço pra você, só pra você. E que ama minhas torradas com café. Amada quando eu não quiser levantar da cama e você disser que eu preciso levantar pra te abraçar e dizer que te amo, bem perto do seu ouvido. Amada com os olhos brilhando, como quando você me olhou pela primeira vez e me achou linda independente do que eu vestia ou do quanto tinha na minha conta bancária , com a certeza de que envelheceríamos juntas, em cadeiras de balanço no jardim bonito, mesmo que nunca fôssemos às Maldivas ou víssemos a aurora boreal. Porque nos bastaria a nudez de ser, e o amor mesmo quando fosse tempestade ou furacão daqueles que parecem nunca passar manteria nossas mãos unidas. E, mesmo que o coração batesse mais devagar pela velhice, ainda aceleraria quando eu te visse e você me abraçasse como se nossos corpos desafiassem a física e ocupassem o mesmo espaço. E isso, isso seria melhor do que conhecer as Maldivas ou o que quer que fosse. Eu te amaria pra sempre, se você quisesse ficar e me amar pra sempre também. E que se danassem as utopias e os olhos atravessados sob nossas mãos dadas, balançando no meio do público abismado com o nosso amor. Eu só queria ficar aqui porque viver me daria mais tempo pra olhar seus olhos bonitos e te dizer que, mesmo brava, você continuava linda. E que eu pudesse assistir ao último pôr do sol segurando sua mão, ou deitada no seu colo. E que, mesmo que eu fosse embora, eu levasse comigo a certeza de que fui amada como se nenhuma outra mulher existisse no mundo.... Angelina

segunda-feira, 20 de outubro de 2025

Choro

Como um velocista que corre em câmera lenta e ninguém poderia entender como isso é possível. Por favor, faça silêncio. Por favor! Choro. E só queria o silêncio absoluto, como o monge sentado na ponta de uma montanha congelada na Islândia, assistindo à aurora boreal acontecer diante dos seus olhos no mais absoluto silêncio. Não há conversas em sua mente, não há tristeza, não há incerteza e, muito menos, solidão. É um silêncio bonito, como quem mergulha dentro de si, no mais fundo, aonde ninguém alcançaria a não ser você. É difícil olhar a luz quando se está preso na caverna escura os olhos doem, e também meu coração. Nem Platão explicaria. Atravesso a ponte e paro sempre no meio dela. Olho para baixo, e o vento me empurra com toda força para o abismo, sem paraquedas. Choro. Choro que parece não ter motivos ou motivos demais. Nunca me perdoei por nada, e não há remédio que segure a minha dor por muito tempo. Respira. Todo mundo acha que você está melhor. Choro. Ainda tenho muita vontade de desaparecer, como se nunca tivesse existido. Sabe, sumir sem deixar pegadas na areia? Sem saudade, sem dor, sem abismo. Apenas deixar de existir, como se nunca houvesse pisado aqui. Eu estou tão cansada. Tão cansada, meu Deus. Tão cansada. Choro. Talvez eu tenha perdido as asas, como a borboleta que vi mais cedo ela se esforçava, mas nunca mais poderia voar. Querida, deu no noticiário que o mundo acaba amanhã! Angelina

domingo, 19 de outubro de 2025

Um dia .

Um dia, alguém me falou que precisamos falar de um assunto até que ele desaperte dentro de nós. Como se, enquanto falamos, um pedacinho daquela história fosse se dissipando no ar. Oh, querida, ninguém quer ouvir você falar do mesmo assunto até ele se tornar mais leve a não ser a sua terapeuta, se você tiver condições de pagar por uma. Enquanto minha cabeça latejava, a senhora do outro lado da rua olhava sorrindo para o alto da árvore. Um casal de alguma espécie de papagaio aprontava uma “gritaria” que parecia ter muito mais que dois. Os olhos dela fixos, o sorriso no rosto, como se estivesse grudado como uma criança quando vê um algodão-doce gigante e colorido. Não a conheço, não sei o nome dela, mas achei bonito demais, como se fosse uma obra de Van Gogh exposta no Museu do Louvre. Por um milésimo de segundo, esqueci até que minha cabeça doía. A arte viva diante de mim me enchia de esperança de que a humanidade ainda pode ter jeito. Meu coração aperta. Vou arrumar algumas coisas ao lado da minha cama, abro a gaveta para procurar algo e encontro duzentos cruzeiros, uma nota de um real intacta, uma moeda de cruzeiro, o canivete que não saía do bolso dele porque sempre teve chácara e adorava cortar frutas pra nós de um jeito que só ele sabia cortar. Dois pentes daqueles antigos, redondos e um pequenino tinha um fio de cabelo dele. E, como uma surpresa depois de oito anos, eu poderia tocar em um “pedaço” dele. E eu choro. Não de tristeza, mas de amor. Não, Chorão, ninguém me perguntou como é que foi meu dia. Uma palavra amiga, uma notícia boa e realmente, isso faz falta no dia a dia. Baixa manutenção. Baixa manutenção, porra! Que tipo de relação é essa que querem ter com outro ser humano? Isso é só pra reafirmar o egoísmo e mudar o nome pra não parecer tão feio assim. As pessoas estão achando que vivem num tabuleiro de xadrez, jogando e eliminando as peças! O pedreiro corre a massa na parede da minha casa e eu só consigo pensar: “Caramba, o cara é um artista.” E logo verbalizei: “Você é um artista.” Somente artistas podem fazer o que ele estava fazendo ali. Mas ele não parecia saber disso. Pessoas rasas e vazias me fazem convites muito obrigada, mas prefiro o celibato do que trocar qualquer energia que seja com vocês. Odeio ficar sozinha, mas não me espremo mais nem um milímetro pra caber em qualquer espaço que seja. Vocês não querem permanecer, e eu não sou rodoviária nem aeroporto. Eu sou casa. E só entre se quiser morar, com a nudez de quem acaba de nascer. Angelina

sábado, 18 de outubro de 2025

"Quando você fala que não acredita no amor, mas brinca com as crianças quando elas não têm atenção, talvez você seja o amor. Quando você fala que não acredita no amor, mas sempre tenta deixar ninguém excluído, talvez você seja o amor. Quando você fala que não acredita no amor, mas sempre percebe quando alguém tá mal, talvez você seja o amor. Quando você fala que não acredita no amor, mas sempre tá disponível para tudo e todos, talvez você seja o amor. Quando você fala que não acredita no amor, mas sempre faz carinho nos animais de rua, talvez você seja o amor. Quando você fala que não acredita no amor, mas sempre vê o lado bom das pessoas, talvez você seja o amor. Quando você fala que não acredita no amor, mas sempre vai ajudar aquelas pessoas, mesmo você precisando de ajuda, talvez você seja o amor. Quando você fala que não acredita no amor, mas sempre se coloca no lugar do outro, talvez você seja o amor."( autor desconhecido )

sexta-feira, 10 de outubro de 2025

O amor

Minha mãe se internou hoje para um procedimento simples, mas eu, obviamente, fiquei preocupada. Meu pai veio para acompanhá-la, mas se sentiu mal e foi para a emergência. Minha mãe me ligou e eu saí do outro lado da cidade, onde trabalho, e o trânsito parecia o eterno aquele que jamais passaria. Dei uma carteirada: “Sou enfermeira, preciso ver meu pai agora!” Ele estava se contorcendo e chorando de dor. Engoli o choro, porque eu facilmente passaria a dor dele para mim. Enquanto isso, minha mãe estava à beira de entrar sozinha no centro cirúrgico, desesperada, e eu tentava acalmá-la pelo telefone, ao mesmo tempo em que cuidava do meu pai pessoalmente. Às vezes penso: “Que bom que eu tenho conhecimento.” Exigi com rigor as medicações para o meu pai e fui atendida. A morfina foi a única que tirou a dor dele; tramal e outras pareciam água. Enquanto o exame dele não sai, estou no apartamento esperando minha mãe chegar, para que ela não sinta que está sozinha. De repente, escuto no corredor: “Parada! Parada! Pega o carrinho!” Nessa hora, meu coração pareceu parar de bater. Preferi não sair, porque o impulso seria ir ajudar imediatamente mas eu sei que não posso, e talvez nem conseguiria. Meu punho parece estar aberto há uns três dias, mas não consegui me conter e saí. Vi a médica que estava atendendo meu pai correndo junto. Me desesperei até ver que não era ele. Não que quem estivesse lá não fosse tão importante quanto ele… E chorei, mesmo não sendo ele. Tento me acalmar, mas choro misturando a dor de ver meu pai se contorcendo, a solidão (ou seria minha, aquela solidão?) da minha mãe entrando no centro cirúrgico, e o grito de “parada” ecoando na minha cabeça, junto ao som de um esposo sendo amparado. Olho para cima e vejo um quadro e a arte me salva de mim mesma. Casas humildes, uma mãe de mãos dadas a um filho, e um cachorrinho logo atrás. Quase todo o meu coração é deles e ele se partiu em dois, como se eu pudesse me dividir ao meio: acolher a dor do meu pai e a solidão e preocupação da minha mãe. E, no meio de tudo isso, o amor. Sempre o amor.

quarta-feira, 8 de outubro de 2025

Eu pensei em te mandar flores, em aparecer de repente e dizer que eu estava ali. Eu quis te dar um colo, mexer no seu cabelo e dizer que você não precisava ser tão forte. Eu quis te cantar uma música qualquer, te contar que o mundo é grande pra te abraçar, e que o buraco é pequeno demais e escuro demais. Quis te contar que muita coisa em mim mudou e saber o que em você mudou. Te contar que eu não sei escolher nada pra minha casa, e que eu odeio a ideia de morar sozinha. Te contar que eu caí no buraco mais fundo, no umbigo do mundo, e não sei o caminho pra subir à superfície. Queria te contar que eu nunca consegui te odiar, e que não confio mais em ninguém. Que hoje eu vi uma borboleta tão grande e bonita que me perdi olhando pra ela. Queria saber como você se lembra de mim. Você lembra de mim quando vê ou ouve alguma coisa? Você já me amou? Ou já quis me amar? Será que você já me escreveu um texto, uma poesia ou uma frase num canto de um guardanapo? Será que você já digitou uma mensagem e não me enviou? Você já quis que eu te amasse? Eu descobri que tenho medo do abandono e mergulhei em uma cachoeira supergelada. Agora eu não tenho mais medo de morrer. Será que, numa quinta-feira qualquer, de um dia banal, você sente saudade de mim? Eu não sei se meu teto combina com meu piso. Eu quase não falo mais, e gosto ainda mais do silêncio. O mundo é barulhento demais pra mim. Eu quero ir embora e tenho que escolher os móveis. Eu choro no banho e me sinto só. Você ainda gosta de café e torradas? Eu não sou feliz e não tenho mais medo de morrer. Hoje está sendo um daqueles dias. — Angelina

domingo, 5 de outubro de 2025

Não, este não é um texto bonito de amor. Os domingos reacendem com força brutal o vazio, as ausências e, sobretudo, a tristeza mete o pé na porta e me derruba na cama, onde eu tenho vontade de me afundar no colchão até desaparecer. Tenho tentado, e todo mundo em volta acha que eu estou melhor, mas é nesses dias como hoje e quase a semana inteira com o coração apertado na minha caixa torácica e um choro embargado que eu vejo e sinto que ainda estou no mesmo lugar. Eu ainda quero desaparecer e, neste momento, a ansiedade, entrelaçada com a tristeza, me abate, e acho que eu nem seria algo bonito como um ponto luminoso, uma conchinha na beira do mar, uma arara voando, o sol se despedindo... Não seria bonito. Não haveria absolutamente nada além da tristeza lacerante e do vazio que talvez eu deixasse: uma carta ou talvez não. O que eu poderia dizer? Nada poderia consolar ninguém. Dessa vez, deságuo ainda meio contida, mas não fiz voltar as lágrimas ou parar o tsunami que me engole inteira. Eu entendi que eu sempre tive medo de ser abandonada, e talvez seja assim que eu me sinta. Mostro para os meus que eu estou melhor, convivendo mais, falando mais... Me sinto uma farsa porque, depois, é assim que fico: no meu vazio completo. Dizem que existe “a melhora da morte”, e eu acredito nisso porque já vivenciei muitos casos em hospitais ou em pessoas próximas! Que merda! Eu odeio estar só, mas não deixo ninguém se aproximar de mim. As pessoas tentam de alguma forma puxar assunto, me conhecer, e o corte é seco! Eu não confio mais em ninguém, e parece que eu nunca mais vou sentir conexão ou segurança com quem quer que seja. Engole o choro e vai dormir, que amanhã bem cedo você tem que trabalhar e ser produtiva, mesmo não querendo existir!
Os olhos de um mesmo corpo, eles dizem imensos textos sem uma palavra sequer !

sábado, 4 de outubro de 2025

Criança

Para quem não me conhece e não sabe de todos os processos que me paralisaram e ainda me paralisam em tantas coisas pode parecer apenas uma simples foto com uma bicicleta da década de 70/80. Mas, para quem me conhece, essa foto está carregada de muitas informações. Eu andei com ela na rua como quando era criança livre, completamente livre naqueles minutos. E meu pai olhava aquilo com tanto entusiasmo que parecia que eu estava dando meus primeiros passos. Ele tirou essa foto para mandar para o primo do meu avô, dono da bicicleta, e eu ainda disse: “Pai, tira só da bicicleta, ouviu?” Mas ele não resistiu a registrar esse momento em que a vida corria no meu sangue. E então, o dono da bicicleta eternizou a imagem no papel, em tamanho grande talvez para que eu nunca me esquecesse de que a Angelina criança ainda existe em mim, e que meu coração ainda pulsa, mesmo quando eu não quero.

sexta-feira, 3 de outubro de 2025

"Eu queria que alguém me conhecesse, sabe quando a gente encontra alguém que parece que já te conhece? E ela te olha como se entendesse cada partícula do seu ser. Você olha de volta como se entendesse cada partícula dela. Sabe quando você olha para alguém e entende todas as intenções, como se a vida tivesse te guiado para aquela pessoa por algum motivo particular dela, desses mistérios não resolvidos, sabe, são aquelas conexões que acontecem umas três vezes na vida, mas acontecem. Eu queria que alguém segurasse a minha cabeça com as duas mãos olhasse no fundo dos meus olhos e dissesse “eu acho que te entendo”. Como se ela me conhecesse e assim como eu também estivesse esperando me encontrar… talvez eu veja filmes demais sem motivos, talvez eu deveria largar esses livros bobos e breca no meu teatro do absurdo, começar a me alimentar direito, aprender a escrever mais e melhor, ter menos medo de falar com as pessoas, mas até lá, eu sigo no aguardo de conhecer alguém que “meio que me conhece”.(autoria gabisteca)

quinta-feira, 2 de outubro de 2025

Possibilidade

Com sol e chuva você sonhava que tudo ia ser melhor depois. Você queria ser o grande herói das estradas, tudo o que você queria ser. Sei um segredo: você tem medo e só pensa agora em voltar. Não fala mais na bota e no anel de Zapata… Tudo o que você devia ser, sem medo. Não se lembra mais de mim, não quis deixar que eu falasse de tudo. Tudo o que você podia ser, na estrada. Ah! Sol e chuva na sua estrada, mas não importa, não faz mal. Você ainda pensa, e isso já é melhor do que nada. Tudo o que você consegue ser — ou nada. Não importa, não faz mal, você ainda pensa, e é melhor do que nada. Tudo o que você consegue ser ou nada. Uma canção pequena, mas carregada de sentimento, para quem tem coração para senti-la. Interpretada lindamente por Milton Nascimento, que nasceu com uma voz única, sensível e potente. Esta música, em especial, é sem dúvidas uma das mais bonitas que já ouvi em sua voz. Já imaginou tudo o que você podia ser, sem medo? Se enxergar, se reconstruir, se perceber com todos os sentidos que existem em você! Li a notícia de que ele está com demência e logo me veio à mente uma pesquisa ainda em fase experimental, mas que, sinceramente, merece um Prêmio Nobel. Trata-se da polilaminina, uma proteína advinda da placenta. Veja como isso é potente: vem através de uma mulher, de um lugar de manter a vida. O estudo é liderado por brasileiros, que quase sempre entram nas estatísticas da “fuga de cérebros” por não receberem incentivos aqui. O resultado é impressionante: uma pessoa com lesão total em uma vértebra recuperou a capacidade motora após receber a proteína injetada na medula espinhal. Buum! A possibilidade de regeneração de neurônios e de recuperação das funções ainda está em estudo, mas já abre uma luz. Meu avô materno morreu com demência e minha avó materna está com Alzheimer já avançado. Isso acende em mim um alerta e também uma esperança de que a cura pode estar a caminho. Que muitas famílias não precisem mais assistir, impotentes, às pessoas que amam indo embora de si mesmas, presas em corpos quase sempre saudáveis. Que os pacientes não se percam de si, mantendo a capacidade de viver com suas faculdades mentais preservadas, ainda que naturalmente degradadas pelos anos. Eu presenciei de perto o sofrimento deles, e também acompanhei outros casos de longe. A possibilidade de cura merece ser celebrada. Conheci ainda um caso muito particular, mas, por se tratar de uma pessoa extremamente reservada, não irei detalhar aqui. O que desejo é que essa descoberta honre as memórias e abra novas possibilidades. Que muitas outras pessoas não precisem passar por essa tempestade. Que seja, de fato, uma luz no fim do túnel. Angelina

quarta-feira, 1 de outubro de 2025

Pedra

Como diz Adélia Prado: “De vez em quando Deus me tira a poesia. Olho pedra, vejo pedra mesmo.” E esses dias são quase insuportáveis. Olho para o céu e choro, como se implorasse por alguma coisa que só meu coração entende. Não tenho tempo para chorar, então parece que as lágrimas voltam para os canais lacrimais, como se não pudessem escorrer pelo meu rosto triste. Sinto-me completamente só, como se nenhum lugar me coubesse, me fizesse cafuné nos cabelos ou me desse um colo amoroso. Como se nenhuma luz se acendesse com a minha chegada. “Menina, não faça de ninguém uma cidade.” Mas poxa… Estou devorando um livro, “Não fossem as sílabas do sábado”, e parece que estou sentada dentro de todas as cenas que consigo visualizar de uma forma absurda, como se estivesse ali assistindo tudo acontecer. Então, para além desse livro, vejo uma foto tão perfeita e amorosa do meu primo com seu bebê de poucos dias, deitadinho no peito dele. E me vem, com toda força, o sonho que eu tinha de ser mãe desde muito jovem. Mas junto vem a impossibilidade e a crença pendurada no meu peito de que não tenho capacidade para nada imagine só para gerar uma vida, um coraçãozinho batendo dentro de mim. É um perigo grande demais deixar-se perder de si mesma, ser devorada pela sensação de incapacidade, não conseguir se olhar no espelho ou dentro de si e não ver nada que seja bom ou que possa fazer alguma diferença no mundo. Me ocorre, enquanto deságuo, para quantas pessoas eu escrevi e eternizei e acho que nunca fui tema do amor de alguém por mim. A solidão me bate na cara como se marcasse a minha pele para sempre. Angelina