sexta-feira, 10 de outubro de 2025
O amor
Minha mãe se internou hoje para um procedimento simples, mas eu, obviamente, fiquei preocupada.
Meu pai veio para acompanhá-la, mas se sentiu mal e foi para a emergência.
Minha mãe me ligou e eu saí do outro lado da cidade, onde trabalho, e o trânsito parecia o eterno aquele que jamais passaria.
Dei uma carteirada: “Sou enfermeira, preciso ver meu pai agora!”
Ele estava se contorcendo e chorando de dor. Engoli o choro, porque eu facilmente passaria a dor dele para mim.
Enquanto isso, minha mãe estava à beira de entrar sozinha no centro cirúrgico, desesperada, e eu tentava acalmá-la pelo telefone, ao mesmo tempo em que cuidava do meu pai pessoalmente.
Às vezes penso: “Que bom que eu tenho conhecimento.”
Exigi com rigor as medicações para o meu pai e fui atendida.
A morfina foi a única que tirou a dor dele; tramal e outras pareciam água.
Enquanto o exame dele não sai, estou no apartamento esperando minha mãe chegar, para que ela não sinta que está sozinha.
De repente, escuto no corredor: “Parada! Parada! Pega o carrinho!”
Nessa hora, meu coração pareceu parar de bater.
Preferi não sair, porque o impulso seria ir ajudar imediatamente mas eu sei que não posso, e talvez nem conseguiria.
Meu punho parece estar aberto há uns três dias, mas não consegui me conter e saí.
Vi a médica que estava atendendo meu pai correndo junto.
Me desesperei até ver que não era ele.
Não que quem estivesse lá não fosse tão importante quanto ele…
E chorei, mesmo não sendo ele.
Tento me acalmar, mas choro misturando a dor de ver meu pai se contorcendo, a solidão (ou seria minha, aquela solidão?) da minha mãe entrando no centro cirúrgico, e o grito de “parada” ecoando na minha cabeça, junto ao som de um esposo sendo amparado.
Olho para cima e vejo um quadro e a arte me salva de mim mesma.
Casas humildes, uma mãe de mãos dadas a um filho, e um cachorrinho logo atrás.
Quase todo o meu coração é deles e ele se partiu em dois, como se eu pudesse me dividir ao meio: acolher a dor do meu pai e a solidão e preocupação da minha mãe.
E, no meio de tudo isso, o amor.
Sempre o amor.
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