quinta-feira, 12 de março de 2026

Fechado

FECHADOAd aeternum

terça-feira, 10 de março de 2026

Nuvem

A professora perguntou: vocês prefeririam 5 milhões e viver uma semana ou viver? Respondi com uma rapidez tão grande que a sala se calou imediatamente, e eu me senti totalmente exposta. Falei com a naturalidade de quem sai de casa e não volta mais. Eles ligaram minha resposta ao dinheiro, e nada, absolutamente nada, tinha a ver com isso. Ela acha que tenho perfil para a psicanálise, uma abordagem que nunca passou pela minha cabeça. Não acredito que tudo seja inconsciência e coisas do tipo. Acho interessantíssimo mergulhar na subjetividade do outro e nos espelhamentos explícitos, mas acho um pouco de exagero, devo confessar. Não era esse o assunto que está latente em mim neste momento. O que existe em mim agora é uma certa desistência de mim mesma, com uma intensidade assustadora. Posto fotos sorrindo, mas quem me conhece sabe que meus olhos parecem um abismo, ainda que eu force um sorriso. Entendi que não é para o outro achar que eu estou bem, é para seguir com a naturalidade do que está. Não gosto de ter pessoas hipervigilantes atrás de mim. A minha funcionalidade mascara muito a minha dor, tristeza e solidão. Percebi que até a minha ansiedade não é vista por qualquer pessoa. Aprendi algumas táticas para me camuflar, e tem dado muito certo. Quando digo que prefiro 5 milhões, é só pela pura certeza de que, daqui a uma semana, eu não estaria aqui. Minha mente parece um tornado destruindo tudo em volta. Você já ouviu que é podre? Doida? Já usaram da sua doença para te atacar? Espero que não. Eu não estava em condições mínimas de ouvir isso e estou completamente arrependida de ter respondido. Jesus ensinou a Pedro, com alguma dificuldade, que há tempo para falar e tempo para silenciar. Ainda que eu tenha guardado por tantos anos as palavras, porque a culpa tomava conta de mim ferozmente, o silêncio teria sido a melhor resposta para algo tão violento. E eu esqueci do que Jesus ensinou a Pedro. Ainda continuo sem sentir que a casa é minha. Fico pensando que talvez, se eu não suportar, eu gostaria que meus pais ficassem com tudo novinho que está aqui. Mas eu sei que, se eu partir, a vida deles se tornará uma mera existência, e nada do que está aqui vale qualquer coisa. As pessoas tendem a me ligar à frieza e à loucura por dinheiro, e eu não sou nada disso. Nisso, o horóscopo errou feio. Pausa. Os remédios estão fazendo efeito e amanhã às 5h40 preciso acordar. Sinto como se eu visse meu corpo de fora dele, como quando desdobramos no mundo espiritual, e isso, acordada, é um pesadelo. Você tem sede de quê? Você tem fome de quê? O céu está de um azul absurdo, parece que nem existem nuvens. Deve ser um lugar bonito para morar, assim como quando eu era criança e achava que quem morria descansava em uma nuvem.Angelina

terça-feira, 3 de março de 2026

Vendas

Hoje não sei por que razão entrei no Instagram da minha mãe. Ela não posta nada há muito tempo. Fui passando as fotos e, infelizmente, quase todas têm uma pessoa ao meu lado. Ela sempre sorrindo, feliz… e como ninguém notou de fora? E muito menos eu, de dentro de tudo isso. Triste. Tão, mas tão magra, que quando vi as fotos eu chorei. Me senti tão profundamente atravessada ao perceber como me transformei no decorrer dessa relação. Tem uma foto em especial em que estou literalmente cadavérica. Ela estava contente, viva, e eu estava triste e morta. A gente fica se perguntando como a pessoa não enxerga que está em uma relação ruim. Como? Não vê. O amor nos cega, tapa os ouvidos e até a boca. Eu não sei como estou aqui viva hoje. De verdade, eu não sei. Estive à beira da morte, quase como se por um mililitro ela não me alcançasse. O choque da realidade não é simples, não é linear, e sangra coisas que você achava que já haviam cicatrizado há muito tempo. Pensei em pedir para minha mãe apagar. Comentei com ela. Ela perguntou como apagava sem que eu pedisse. Mas parei um segundo, pensei e logo em seguida verbalizei: mãe, o que muda? Enquanto isso, eu chorava no chão, debruçada na Pandora, pedindo, orando para que ao menos ela parasse de sentir dor. Não tenho bons sentimentos a respeito. Na verdade, não tenho bons sentimentos a respeito de nada. O abismo está escorregadio e talvez eu caia.