terça-feira, 3 de novembro de 2026
15 anos
Houve um tempo em que eu era feliz em voz alta, altíssima! Rodeada de amigos, praticava vários esportes e era a engraçadinha das turmas, aquela que fazia todo mundo ao redor morrer de rir. Eu tinha tantos sonhos! Nada mirabolante, mas sonhos!
Eu pensava que teria alguém, uma casa com um jardim bonito e cadeiras de balanço, um cachorrinho correndo pelo quintal e um bebezinho engatinhando pela casa. Esse era o meu maior sonho. Lógico, eu também queria conhecer a Aurora Boreal, mas isso era supérfluo perto do restante!
Sempre fui extremamente ansiosa, desde muito menina, mas tudo mudou aos 15 anos, quando descobri que era diferente, que ia contra tudo o que a sociedade pregava como certo e que, possivelmente, seria pregada na cruz por isso.
Passei muitas tardes, quando ficava sozinha em casa, trancada no banheiro, no escuro e chorando. Depois, pegava um caderno amarelo, daqueles de capa dura, e escrevia páginas e páginas. Quando terminava, arrancava as folhas e jogava tudo fora.
O medo nasceu em mim junto com a descoberta que eu não aceitava. Eu queria ser “normal”, como todos os meus amigos, e carreguei isso comigo por anos. Meu comportamento mudou e foi mudando gradativamente, até que perdi o brilho e a tristeza arrombou a porta com os dois pés!
Eu nunca mais fui a mesma. Fui perdendo o gosto pelas coisas, os sonhos foram se esvaindo aos poucos e o medo tomou conta de mim. Eu também sentia vergonha, porque sempre fui a menina certinha, que nunca precisou que os pais fossem à escola, nunca fez traquinagens. Eu já parecia uma adulta muito responsável!
Isso me mudou para sempre, irremediavelmente!
Sentir medo de ser quem se é é cruel demais, porque você não tem controle sobre quem você é. Você simplesmente é!
Eu pensei, como tantas pessoas pensam, que era só uma fase. Afinal de contas, eu só tinha 15 anos. Hoje tenho 36, e nada mudou. Só o medo, que aumentou, a insegurança, a falta de autoestima e os pensamentos de autoextermínio, que vieram acompanhados de uma depressão gravíssima e de muita ansiedade.
Eu só queria voltar a ser a menina que fui até os 14 anos. Daria tudo para ser uma adulta que viesse daquela menina, com um potencial tão grande, alegre, criativa e sem tanto medo de tudo!
Sinto muito, garota!
segunda-feira, 2 de novembro de 2026
Ninguém
Eu poderia ter sido alguém formidável. Eu poderia ter sido alguém, não fossem os entraves da vida, meus erros, meus medos e, sobretudo, minha tristeza, angústia e desesperança.
Passo meus dias na cama quando não estou no trabalho, onde me esforço bastante para levantar, ir e tentar ser uma pessoa normal. Agradeço a Deus por ainda ter essa possibilidade. Talvez, se eu não me esforçasse para ir, estivesse morrendo em uma cama, porque, na verdade, é isso que sinto vontade de fazer.
Uma gotinha, duas, vinte gotas para me fazer parar de chorar feito uma criança perdida em um shopping lotado de pessoas e muito, muito barulho!
O ontem me massacra, o amanhã me causa pânico e o hoje eu apenas atravesso, como um corpo que perambula no automático.
Eu queria ser feliz. Sei que não existe felicidade plena, mas queria ter momentos felizes. Queria não sentir que meu corpo vive em um estado de alerta constante. Realmente não sei como ele aguenta sem adoecer completamente.
Queria não ter perdido meus amigos pela incapacidade de atravessar a rua.
Sinto falta dos abraços de quem amo, mas mal consigo me aproximar. Eles também não conseguem. Queria dormir no abraço de alguém para não sentir, ao menos por um dia, que o monstro vem me pegar mais uma vez, porque ele vem todos os dias.
E quem é próximo de mim e sabe de tudo me pergunta: “Como você consegue?”
Mas eu não consigo. Eu realmente não consigo. E, a cada dia, consigo menos.
Eu queria ir embora. Deus sabe o quanto eu queria ir embora…
Eu me tornei alguém invisível à vida. De uma possibilidade formidável a ninguém!
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