sexta-feira, 24 de outubro de 2025

Ausência de mãos

Abracei a mim mesma, nua, como se eu já tivesse esquecido como eram duas mãos quentes tocando meu corpo com carinho e amor. Entrelacei os braços até as costas; a lágrima desceu silenciosa e única. Mas não adiantou todo mundo quer ser amado, cada um à sua maneira, mas ser amado, ser tocado pelo outro como se as digitais pudessem decodificar a nossa pele. Os dedos deslizando calmamente pelas costas, como quem tateia no escuro o caminho de volta para casa. A possibilidade do amor me parece tão distante quanto a estrela cadente que passou e para a qual fiz um pedido, como se aquilo fosse real mas não era. Estar sozinha em silêncio é como não existir; é como se eu me tornasse invisível ao mundo, como quando olho para o espelho e não vejo nada. Deixar de existir não é só morrer deixar de existir é se perder de si. Não há velório, não há choro, não há sepultamento, mas é como se a terra fosse jogada na sua cara e você não conseguisse enxergar. Eu não sabia que era possível morrer e continuar respirando e acho que é uma das mortes mais tristes, porque é silenciosa e solitária. Abraçar a mim mesma não me acolheu, mas me doeu com a ausência de mãos. — Angelina

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