sexta-feira, 24 de outubro de 2025

Não recomendo

Acordei, mas não recomendo. Uma frase absurdamente clichê, eu sei, mas é que hoje eu gostaria muito de ficar na cama, sem nem me mexer ou ouvir qualquer voz que seja ser alimentada pelo silêncio. O noticiário diz que hoje chove, e que as ruas podem ficar alagadas, como as ruas que se atravessam dentro de mim. “Ei, me escuta aqui”, diz a menina. “Pare de procurar cajus em pés de goiaba. O tempo não volta, e você morre no final da história morre metaforicamente na vida de alguém ou verdadeiramente em um dia banal, em que acordou, escovou os dentes, tomou seu café e acreditou que ainda teria muito tempo.” O mundo está ao contrário, e muita gente já reparou, Cássia. O segundo sol chegou e não realinhou as órbitas dos planetas, e estão quase todos iludidos com o poder. Minhas costas doem, mas é o coração que se desmancha. As medicações me afastam do tempo, mas o relógio não para. Quem promete ficar, não fica. Quem disse “te amo”, depois conta que você era um peso e quando essa pessoa poderia ser um peso, você a carregou mesmo com o seu peso e o dela. O mundo anda feio, e ninguém parece se importar. O telefone não tocou para saber se eu ainda respirava do outro lado. E quando eu me for, flores e homenagens não faltarão. Ser bom em um mundo tão cruel e caótico nos amassa como o metrô de São Paulo em horário de pico, onde tudo se espreme, se aperta, e você sai do vagão sem nem perceber porque alguém te empurrou. Nadar contra a correnteza é difícil, e você pode se afogar. Uma formiga miúda passa com um pedacinho de folha que, pra mim, é minúsculo, mas pra ela é imensidão. Ela não desiste. A natureza é perfeita, e os animais são a forma mais simples de pureza, persistência, amor e coletividade. Um animal abandonado continua amando seu tutor e eu morro de saudade de você. Sou um grão de areia no fundo mais fundo do mar. E morro de saudade de você. — Angelina

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