quinta-feira, 30 de outubro de 2025
Oi, Angelina criança.
É… acho que deu ruim pra gente, rs!
Começo esse texto ou desabafo te pedindo desculpas. Eu não pude nos proteger de algumas coisas, e sinto muito por isso.
A gente ouve muito a frase: “você não é mais aquela criança”. Será mesmo?
Nós vivemos em um lar muito crítico e sem elogios. Você lembra o quanto se esforçava para ser a melhor da escola, só pra que sua mãe que limpava a escola pudesse subir no palco e receber junto com você a medalha de honra ao mérito?
A gente via o quanto ela era inferiorizada por ser da limpeza e, mesmo tão pequenas, parecíamos umas oncinhas, “protegendo” ela das crianças cruéis.
E lembra como ensaiávamos, mesmo com tanta timidez, só pra ver o papai lá na plateia no dia dos pais? Mas ele nunca pôde ir, porque o trabalho não liberava.
Tínhamos o vovô na plateia, mas nós queríamos o papai… aquele que, sempre que tinha dor de cabeça, deitava no seu colo. Você colocava nossas mãos, ainda pequeninas, sobre a cabeça dele. A gente não sabia, mas já éramos médiuns de cura por isso ele se sentia melhor.
Nós não deveríamos ter sido tão responsáveis. Dizem que é coisa do nosso signo, mas não. Foi a construção que tivemos.
Nos fizeram mini adultas o “correio” dos nossos pais quando eles brigavam e ficavam dias sem se falar.
Quando o papai e nossas irmãs brigavam, tínhamos pânico de que alguém fosse embora. E uma delas foi.
Cometer erros era como fracassar. E a gente errou pra caramba, mas nunca se perdoou!
Ficamos marcadas pra sempre quando aquela tragédia aconteceu. Eu queria tanto ter te protegido… você era uma criança tão inocente!
Perdemos o vovô e foi uma das dores mais profundas que já sentimos.
Não formamos uma família, você não teve o tão sonhado bebê, e não somos felizes. Perdemos o prazer pela vida. Você não sorri mais como antes, nem faz aquelas performances que faziam todo mundo rir.
A gente tá perdida, Angelina. Que merda, né?
Você fez faculdade, mas o elogio não veio.
Você também foi pra São Paulo acredita que fomos pra cidade de lego?
Um diploma tão difícil de conquistar, e mesmo assim não fomos elogiadas.
Você (ou eu, ou nós) continuamos achando que não somos capazes.
Você ainda chora sozinha, como fazia trancada no banheiro escuro, agachada num canto qualquer.
A gente não tem mais medo da morte temos medo da vida.
E seus olhos… já não brilham mais como antes, como uma gotinha de luz.
Tenho tanta saudade de você.
Eu queria ter te protegido.
Foi mal.
Você não joga mais fora o que escreve vai deixando tudo aqui, pra sei lá o quê.
Não tem mais ninguém sentado no jardim te esperando, e você também não espera mais por isso.
Você ainda tenta salvar o mundo, mas não consegue se salvar.
Aprendemos a dizer “não” às vezes, mas não o suficiente.
Você continua amando os animais e tem um monte deles tatuados.
Sim, nós fizemos tatuagens! Conseguimos isso, rs.
Seu coração ainda continua bonito que só, mas perdemos a esperança e ansiamos pelo fim.
Não morremos aos 25, como você tinha certeza pelo menos não corporalmente… mas, de certa forma, sim.
Sabe por que a gente vomitava tanto?
Temos intolerância à lactose. Eu sei, é chato pra caramba, mas pelo menos não vomitamos mais (embora ainda teimemos às vezes).
E você ainda morre de medo de perder as pessoas que ama.
Continua chorando só de imaginar.
Não somos mais tão sociáveis e não jogamos mais capoeira você era viciada, né?
Aprendeu a tocar todos os instrumentos sozinha e amava competir.
Você era uma boa garota.
Olha aqui pra mim: você era uma boa garota.
Desculpa, Angelina…
A gente não conseguiu.
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