quarta-feira, 1 de outubro de 2025
Pedra
Como diz Adélia Prado: “De vez em quando Deus me tira a poesia.
Olho pedra, vejo pedra mesmo.”
E esses dias são quase insuportáveis. Olho para o céu e choro, como se implorasse por alguma coisa que só meu coração entende. Não tenho tempo para chorar, então parece que as lágrimas voltam para os canais lacrimais, como se não pudessem escorrer pelo meu rosto triste.
Sinto-me completamente só, como se nenhum lugar me coubesse, me fizesse cafuné nos cabelos ou me desse um colo amoroso. Como se nenhuma luz se acendesse com a minha chegada. “Menina, não faça de ninguém uma cidade.” Mas poxa…
Estou devorando um livro, “Não fossem as sílabas do sábado”, e parece que estou sentada dentro de todas as cenas que consigo visualizar de uma forma absurda, como se estivesse ali assistindo tudo acontecer. Então, para além desse livro, vejo uma foto tão perfeita e amorosa do meu primo com seu bebê de poucos dias, deitadinho no peito dele. E me vem, com toda força, o sonho que eu tinha de ser mãe desde muito jovem. Mas junto vem a impossibilidade e a crença pendurada no meu peito de que não tenho capacidade para nada imagine só para gerar uma vida, um coraçãozinho batendo dentro de mim.
É um perigo grande demais deixar-se perder de si mesma, ser devorada pela sensação de incapacidade, não conseguir se olhar no espelho ou dentro de si e não ver nada que seja bom ou que possa fazer alguma diferença no mundo.
Me ocorre, enquanto deságuo, para quantas pessoas eu escrevi e eternizei e acho que nunca fui tema do amor de alguém por mim.
A solidão me bate na cara como se marcasse a minha pele para sempre. Angelina
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