domingo, 19 de outubro de 2025

Um dia .

Um dia, alguém me falou que precisamos falar de um assunto até que ele desaperte dentro de nós. Como se, enquanto falamos, um pedacinho daquela história fosse se dissipando no ar. Oh, querida, ninguém quer ouvir você falar do mesmo assunto até ele se tornar mais leve a não ser a sua terapeuta, se você tiver condições de pagar por uma. Enquanto minha cabeça latejava, a senhora do outro lado da rua olhava sorrindo para o alto da árvore. Um casal de alguma espécie de papagaio aprontava uma “gritaria” que parecia ter muito mais que dois. Os olhos dela fixos, o sorriso no rosto, como se estivesse grudado como uma criança quando vê um algodão-doce gigante e colorido. Não a conheço, não sei o nome dela, mas achei bonito demais, como se fosse uma obra de Van Gogh exposta no Museu do Louvre. Por um milésimo de segundo, esqueci até que minha cabeça doía. A arte viva diante de mim me enchia de esperança de que a humanidade ainda pode ter jeito. Meu coração aperta. Vou arrumar algumas coisas ao lado da minha cama, abro a gaveta para procurar algo e encontro duzentos cruzeiros, uma nota de um real intacta, uma moeda de cruzeiro, o canivete que não saía do bolso dele porque sempre teve chácara e adorava cortar frutas pra nós de um jeito que só ele sabia cortar. Dois pentes daqueles antigos, redondos e um pequenino tinha um fio de cabelo dele. E, como uma surpresa depois de oito anos, eu poderia tocar em um “pedaço” dele. E eu choro. Não de tristeza, mas de amor. Não, Chorão, ninguém me perguntou como é que foi meu dia. Uma palavra amiga, uma notícia boa e realmente, isso faz falta no dia a dia. Baixa manutenção. Baixa manutenção, porra! Que tipo de relação é essa que querem ter com outro ser humano? Isso é só pra reafirmar o egoísmo e mudar o nome pra não parecer tão feio assim. As pessoas estão achando que vivem num tabuleiro de xadrez, jogando e eliminando as peças! O pedreiro corre a massa na parede da minha casa e eu só consigo pensar: “Caramba, o cara é um artista.” E logo verbalizei: “Você é um artista.” Somente artistas podem fazer o que ele estava fazendo ali. Mas ele não parecia saber disso. Pessoas rasas e vazias me fazem convites muito obrigada, mas prefiro o celibato do que trocar qualquer energia que seja com vocês. Odeio ficar sozinha, mas não me espremo mais nem um milímetro pra caber em qualquer espaço que seja. Vocês não querem permanecer, e eu não sou rodoviária nem aeroporto. Eu sou casa. E só entre se quiser morar, com a nudez de quem acaba de nascer. Angelina

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