segunda-feira, 30 de junho de 2025

Óbvio

A mensagem que a Juliana mandou para a mãe me parece uma despedida inconsciente, tão carregada de amor e gratidão! Essa tragédia me deixou em grande angústia e uma esperança cega. Juliana era uma entusiasta da vida; amava viver e vivia com a coragem e intensidade de uma mulher que decidiu ser livre. Isso me fez refletir, especialmente sobre a liberdade, mas, sobretudo, sobre a finitude — sobre a importância de falar, mesmo aquilo que nos parece óbvio. Talvez não seja tão óbvio para o outro, principalmente pelo fato de cada um ter uma forma própria de compreender o mundo. Falo, neste momento, sobre o amor. Sobre o afeto. Para alguns, um abraço é amor; para outros, o silêncio é amor. A experiência é amor. Fazer um café da manhã e levar na cama é amor. A escuta atenta é amor. Mas o óbvio também precisa ser dito, explícito, nu, escancarado — palavra por palavra. Dizer: eu te amo, te admiro, você me inspira. Não precisa de pontuação perfeita, ortografia impecável — a única coisa que o amor exige é ser dito com o coração exposto. O outro merece saber. Pode não ser tão óbvio quanto você imagina. E dizer pode mudar tudo. Pode fazer toda a diferença na sua vida e na do outro. Como Juliana, nós também podemos nunca ter a chance do amanhã, do depois. Portanto, é preciso refletir e mudar a nossa relação com o amor,com a vida . Amanhã eu digo que amo. Amanhã eu digo que perdoei. Amanhã eu digo que é especial, que é importante. Amanhã eu peço perdão. Amanhã eu digo que sou grata, que me importo, que me inspira, que me fortalece. Amanhã, amanhã, mais tarde, depois… Oh, tamanha ilusão! Oh, tamanho desperdício! Que orgulho tolo… O amor exige vulnerabilidade, o coração exposto, em carne viva, porque o amanhã, meu caro, pode não chegar — e todos nós sabemos disso. Mas a maioria acredita que o amanhã virá sem dúvidas, e deixamos as coisas mais importantes e simples para depois, e depois… E então se foi.E então nos fomos. E então se foram. E então fim.

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