segunda-feira, 7 de julho de 2025
Palavras
Disse à minha mãe que sentia falta do toque físico dela, que sempre senti. Nesses dias de crises intensas, eu queria que ela me colocasse no colo. Não precisava dizer uma palavra. Ela vive dizendo que queria me colocar no útero de novo, mas isso não é possível, mãe. Mas a minha cabeça encostada no seu peito, ouvindo seu coração bater, me faria querer ficar aqui mais um pouco só pra te ver sendo.
O amor que tenho por você… nem a música mais bonita na voz de Bethânia, nem a poesia mais profunda escrita por Clarice poderiam sequer beirar a descrição.
Minha avó passa sua mão bem de levezinho enquanto eu choro “escondida” e ouço, bem baixinho, em meio aos meus soluços, ela com os olhos apertadinhos, como os meus rezando com sua fé inabalável sob meu corpo encolhido. E eu me sinto muito culpada por amar tanto, mas tanto, ela… e ela ter que me ver nessa vulnerabilidade nua, crua, que eu tentei (e consegui) esconder deles por anos.
Meu pai, todos os dias, dá uma espiada na porta e tenta me fazer levantar. Mas ontem, enquanto eu passava por ele, ele me puxou e me deu um abraço e eu quis me derramar.
Eu tinha uma conexão com meu pai inexplicável. Lembro-me, com amor, de quando ele estava com dor de cabeça: ele chegava do trabalho, deitava a cabeça no meu colo pequeno, colocava minha mão na testa dele e, com os olhos fechados, dizia que eu estava sarando ele e parecia realmente funcionar.
A gratidão por tudo que fizeram e fazem por mim… e o amor do meu avô, misturado com a saudade que nunca cessa — dia 15 fazem 7 anos — e não é possível que já tenha se passado tanto tempo sem ver seus olhos doces, marejados, ao falar “Angelina” da forma mais bonita que alguém poderia pronunciar o meu nome…eu que não lembro de nada ultimamente nunca me esqueço de você e tudo isso me atravessa como a uma flecha certeira.
Três vídeos apareceram pra mim, um atrás do outro. No primeiro, uma senhora com um cobertor, sem saber que estava sendo filmada de longe, sem plateias, sem holofotes, sem esperar nada em troca, embrulha com todo amor uma pessoa em situação de rua, dormindo no chão. Ele nem a viu, e ela o embrulhou como uma mãe, como uma avó, com amor e cuidado. Eu vi Deus ali.
No segundo vídeo, uma sobrinha, que estava sem falar com seu tio, bloqueados, liga e começa a chorar assim que ouve a voz dele. Ele se preocupa com ela, mas ela diz que só queria que ele soubesse que o amava e era grata. Ele responde: “O tio está indo aí.” Ela diz que não precisa, mas ele insiste: “Já estou indo.” Eu vi o amor, o perdão e, principalmente, o “amanhã pode ser tarde, eu te amo hoje e preciso que saiba disso hoje, agora.”
O terceiro vídeo tinha uma música de fundo. No primeiro momento, achei que estivesse enganada com o que dizia a canção. Nunca havia ouvido antes. Kanarô foi a palavra que ouvi,palavra que acho bonita demais. Quando prestei atenção, vi que a música tinha esse nome. E ela falava sobre saudade. Kanarô, na língua dos índios Yawanawá, significa “saudade” — mas uma saudade que faz chorar.
E eu senti saudade de tanta coisa… mas, sobretudo, senti saudade de mim mesma. Saudade de doer de mim mesma.
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