sexta-feira, 11 de julho de 2025
Quando conheci o escuro
Quando dei conta da minha orientação sexual, o mundo caiu sobre a minha cabeça. A pessoa que, até ali, sempre seguira as regras à risca (se era uma regra, não podia ser quebrada ) nem mesmo um simples apertar a campainha e sair correndo para sentir aquela adrenalina que só a infância poderia proporcionar. Eu nunca me atrasava para chegar à escola, não precisava ser acordada. Um relógio antigo do meu pai, que já nem tinha mais pulseiras, bipava às seis da manhã na beirada da minha cama. Eu me levantava, tomava meu banho, vestia o uniforme e ia para a escola.
Todas as minhas amigas já tinham dado seu primeiro beijo antes mesmo da 8ª série, e eu só queria fazer meus esportes e dar orgulho para os meus pais e avós na escola — sobretudo para a minha mãe, que trabalhava na limpeza. Eu tentava alcançar as melhores notas para, no final do ano, minha mãe, em frente a um ginásio bastante cheio, subir no palco e colocar a medalha no meu pescoço, e todo mundo ver ela linda lá em cima. Mesmo eu morrendo de vergonha, pois sempre tive dificuldade de me expor em público.
Me lembro que já me emocionava com tudo que carregava um valor sentimental. Acho que, por ser ainda tão criança e talvez por um trauma rondando meu subconsciente , eu não tinha essas coisas de namoricos. Dei meu primeiro beijo porque todas as minhas amigas já haviam dado há muito tempo. Elas iam dormir na minha casa ou na escola mesmo, e ficavam divagando sobre as experiências delas, e eu não tinha nada a dizer. Eu pensava, sem dizer nada: Caramba, não senti nada disso que elas dizem. Mas achei que fosse porque não tinha sido algo tão natural, partindo unicamente da minha vontade.
Aos exatos 15 anos, em uma viagem, numa situação específica, minha cabeça rodopiou e eu fiquei tentando digerir, sem falar com ninguém, o que estava sentindo. Quando cheguei em casa, realmente o mundo tinha desabado sobre mim e eu não entendia nada. Como um simples olhar fez uma chave virar tão bruscamente? Eu escrevia sem parar, arrancava as folhas e jogava tudo fora (me arrependo disso, gostaria de ler hoje o que eu escrevia). Me trancava no banheiro e passava horas chorando no escuro, porque eu não entendia o que estava acontecendo comigo e tive muito, mas muito medo de quem de fato eu era. Era um tabu. O preconceito era escancarado, e eu pensava que, aos 15, já havia falhado como pessoa.
Ali eu conheci, pela primeira vez, o escuro, o silêncio, a solidão de ser, mesmo sem nunca ter encostado em uma garota. Eu me punia diariamente e me sentia completamente perdida e sozinha. Eu tinha dessas de passar as coisas mais difíceis sozinha. Sempre achei injusto dividir minhas dores, meus sofrimentos. Achava que estava sendo egoísta, e isso me custou muito e ainda custa.
Lembro, enquanto escrevo, de quantas vezes eu me calei, mesmo criança. Eu nunca abria a boca para contar qualquer coisa ruim que se passava comigo. Cresci permissiva com a falta de respeito, com algumas humilhações. Lembro-me, como se fosse hoje, de um episódio em que eu brincava com meus primos e a mãe deles parou aqueles carrinhos da Kibon, que existiam para além das praias, mas que passavam nos bairros. Ela deu um picolé para cada um deles e eu não ganhei. Não pedi e fingi que estava tudo normal. Meu avô apareceu logo em seguida e me indagou:
— Por que você não está chupando picolé?
Eu só respondi:
— Porque eu não ganhei.
E não esbocei nem uma palavra a mais. Ele disse:
— Vem cá, Angelina.
Me levou até a farmácia, que tinha um freezer da Kibon, e disse:
— Pega o que quiser.
Eu hesitei, disse que não precisava, mas ele insistiu. Peguei um picolé toda desajeitada, porque parecia que aquilo poderia pesar a situação e eu nunca pedia nada pra ninguém. Mas eu entendi, depois, que ele me enxergou. Ele enxergou o que estava acontecendo, e foi um ato de proteção e, sobretudo, de amor.
Eu estou com saudade de você. O mundo era diferente pra mim quando você existia do outro lado da rua, e eu nunca tive coragem de te dizer quem eu era. Apesar de ter certeza de que o senhor sabia. No dia em que o senhor partiu, eu fiquei completamente paralisada. Era difícil demais acreditar. E eu tive tanto medo de que, quando soubesse da minha orientação, e de que na época aquela pessoa de tantos anos não era minha amiga, o senhor pudesse se desapontar comigo mesmo tendo praticamente certeza de que já sabia, e que nada havia mudado entre nós.
Eu chorava a sua perda como se uma parte muito considerável de mim também tivesse partido. E chorava pela possibilidade de o senhor estar desapontado comigo. Hoje eu tenho certeza de que não. O senhor era meu maior incentivador, apostava todas as fichas em mim, e eu vou te amar por toda a eternidade. E, quando do outro lado eu estiver, espero te encontrar de braços abertos onde nada importa além do que fomos como seres humanos e do amor que construímos.
Angelina
“Depois que vivo é que sei que vivi. Na hora o viver me escapa. Sou uma lembrança de mim mesma. Só depois de ‘morrer’ é que vejo que vivi. Eu me escapo de mim mesma. Às vezes eu me apresso em acabar um episódio íntimo de vida para poder captá-lo em recordações, e para, mais do que ter vivido, viver. Um viver que já foi. Deglutido por mim e fazendo agora parte do meu sangue.”
Clarice Lispector — Um Sopro de Vida
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