sábado, 19 de julho de 2025

Que seja

Transformei isso aqui em um diário, coisa que nunca foi era apenas um lugar de guardar meus textos, porque acho que escrever é deixar eterno. Até encontrei, outro dia, uma amiga que sempre tem me chamado para fazer alguma coisa, mas eu não consigo ficar em lugares com muitas pessoas, completamente recolhida há muitos meses. Então, decidi encontrar ela em um parque bonito daqui. Olhar para o lago me acalmava quando o pânico batia. Mas foi muito bom ver alguém amigo depois de tanto tempo isolada. Enquanto conversávamos, ela disse que a terapeuta havia pedido para ela escrever uma carta para seu último relacionamento aquele que a fez beirar a loucura , mesmo que ela não entregasse, mas dissesse tudo que precisava dizer e que estava entalado. Disse a ela que achava uma ótima ideia. Afinal de contas, esse era meu meio de falar o que explodia em mim. Daí ela disse: “Por que você não escreve uma pra fulana?” Então, eu expliquei pra ela que a escrita, pra mim, tinha uma coisa um pouco mais profunda que um desabafo, e que eu penso que, quando escrevo, torno eterno seja o que for. Eternizo na minha história, que, um dia — sei lá —, se eu não estiver mais aqui, minha família pode ter acesso ao que acontecia dentro de mim. Claro que eu gostaria de vomitar muitas coisas a essa pessoa sobre muitos anos… Mas, para além de saber que ela nem ligaria, eu não quero eternizá-la na minha escrita. Aceito ser a vilã da historinha dela. Todo mundo viu afinal, não foram meses, foram longos anos, e, apesar de ninguém falar à época, muita gente me disse que só eu não enxergava. Mas acabou há anos. Fica o estrago pra lidar! Misturando assuntos, até porque aqui eu posso ser livre. Na escrita, você é livre! Esses dias têm sido muito difíceis. Só vem a mim a vontade de cessar, e fico pensando em maneiras. E choro, choro feito uma criança desamparada, uma adulta desesperada e sem um pingo de esperança! Eu tento, mas estou paralisada. Sem saber de nada dos meus pensamentos. Só me vejo quieta, quase sempre deitada. Minha mãe foi ao centro e pediu para que fizessem um passe de transporte pra mim. Já fizeram algumas vezes. Eu fazia uns abdominais no chão, enquanto parava e prestava atenção na música que tocava no meu fone, e algumas lágrimas escorriam. Minha mãe senta na minha cama, triste, olha pra mim e fala: “Eu pedi pra te fazerem o passe, mas eles não conseguiram. Tem uma parede de espíritos impedindo de chegarem até você.” Eu olhei assustada pra ela e chorando ao mesmo tempo. Fiquei muito mexida. Não é a primeira vez que eu ouço isso. Já ouvi milhares de vezes, de muitas pessoas diferentes, mas nunca deixa de me assustar. E fiquei pensando… minha mãe não sabia que eu estava pensando em fazer merda. Isso veio. Fico pensando por que eles querem tanto que eu me mate. Até onde é a depressão e a ansiedade, e até onde são eles? Por que estão aqui? Há um tempo atrás, eu voltei lá no centro, e a entidade que é o caboclo Oxóssi, que comanda a roda, chorou de soluçar quando me viu. Me abraçou e disse que me amava. E eu fiquei toda arrepiada e meio paralisada. Parece que eu não sei me sentir amada, como se não merecesse ser, como se eu não merecesse viver. Me arrepio inteira enquanto escrevo isso. Um arrepio estranho, que as pessoas costumam dizer que é arrepio na espinha. Meu pai traz coisas pra eu ver e decidir sobre minha casa, e eu só queria dizer pra ele que eu não consigo querer nada. E eu me sinto culpada de não estar empolgada e feliz. Não dá pra fingir que se está feliz. Meu corpo todo fala — na verdade, ele grita , mesmo que minha boca nem se abra! Eu fico pensando se dá pra se curar de algumas coisas que eu passei. “Ah, você não é mais aquela criança.” “Ah, você não é mais aquela adolescente.” Porraaaa! Várias coisas que me prendem ou que eu permito, ou permiti fazerem comigo, vêm de onde, então, caralho? Que porra! Eu não gosto de xingar, mas que pooooooorrraaaaaa!

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