domingo, 20 de julho de 2025
Gelado
O mundo está acabando e está todo mundo desfilando seus falsos sorrisos, suas falsas alegrias. “Os bares cheios de almas tão vazias.” As redes sociais só têm gente feliz, com grana no bolso e o olhar se derramando de tristeza. Fico observando…
Mas não é sobre isso que preciso escrever agora. Domingos são os dias mais difíceis para mim – e para uma porção de pessoas. Cada pessoa sabe o porquê, ou talvez não!
Almocei com poucas pessoas hoje. Minhas mãos e pés pareciam a Áustria de tão gelados mas sem auroras boreais. Tento disfarçar, até tocar em alguém e a pessoa se assustar com a temperatura.
A maioria foi embora. Ficamos eu, minha avó e a esposa do meu tio. Começo com um tremor singelo, e ninguém está vendo. De repente, o braço começa a tremer tanto que até balança o braço do sofá. Sentia o corpo inteiro tremer.
Minha avó, desde que soube que há espíritos “acampados”, loucos para que eu desista, começou a rezar o Credo comigo (eu não sei rezar essa oração). Mas fico lá. E, cada vez que ela reza, ela chora. E vou te falar: essa senhorinha não chora fácil.
Quando comecei a tremer sem intervalo, minha avó chamou a outra pessoa e disse:
— Vamos rezar o Credo?
Começaram. Rezei o Pai-Nosso junto. Quando acabou, o livrinho voou literalmente do sofá. Duas vezes. Olhos espantados se assustaram, e eu comentei que sempre que tentavam orar, rezar, fazer prece por mim, aconteciam algumas coisas estranhas. Pedi para não se assustarem.
De repente, a esposa do meu tio me contou que ela já sabia disso. Perguntei:
— Como assim você sabe?
Ela disse:
— Eu rezo por você, e a vela sempre apaga.
Minha mãe estava indo orar por você na igreja dela, e ela, junto com duas amigas, simplesmente adoeceram. As três, sem poder ir. Fiquei ouvindo aquilo atônita, porque já aconteceram muitas outras coisas. Coisas que se quebram, velas que se apagam… e muitas outras!
Me levantei e fui dormir, tentando fugir do que estava sentindo. Porque tudologo começa a se embolar, feito fios sem ponta, sem começo, sem final.
Cadê você, Angelina? Você ainda está aqui? Não é possível que vamos acabar assim!
E os girassóis?
E o mar?
E aquela família que você queria ter?
E tudo que você amava?
E seu sorriso, que era tão lindo? Você fechava os olhinhos pra sorrir!
Hoje eu tive que sentar com meu pai. Eu tive que me esforçar muito. E ele me pediu para decidir algumas coisas.
É tão estranho…
Tenho a sensação de que eu não vou morar naquela casa.
Ou é só a minha mente me enganando?
Mal tirei minhas roupas das caixas. Tirei só o que eu precisava… sei lá… pra trabalhar!
Como se nunca mais elas fossem ser abertas por mim.
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