quarta-feira, 18 de dezembro de 2024
Coração quente
Não, eu não gosto da solidão, ainda que, por diversas vezes — e mais do que deveria —, eu sinta a necessidade dela. Mas dizer que gosto seria demais. Às vezes, é como estar debaixo da chuva em um dia em que você teve a oportunidade de olhar para o mar enquanto o sol se esconde por detrás dele. No infinito que é a água do mar, ao beijar o sol, ela emite aquele calorzinho, sabe? Aquele que faz você fechar os olhos e sentir, da ponta dos dedos até o último fio de cabelo. (Eu não sei vocês, mas sempre fecho os olhos diante dessa sensação sobrenatural.)
Eu gostaria de ter mais dias assim. Sinto uma falta danada! O fundo do poço não combina com o meu coração quente.
Eu penso que não posso deixar alguém entrar na minha vida nesses dias de raios estremecedores, de chuvas avassaladoras que percorrem o meu peito, a minha garganta, e se arrebentam pelos meus olhos. Dias que parecem nunca passar!
Mas o meu coração nunca deixou de ser quente. Às vezes, ele parece que vai arrebentar a minha caixa torácica, mas está sempre, sempre quente. E isso também me parece um desperdício sem precedentes, não ser dividido com alguém.
Você já sentiu o coração de alguém bater sob o seu peito? E os seus pulmões se encherem de oxigênio, para depois o suspiro da calmaria paralisar o tempo? Para mim, é como a sensação do sol se escondendo atrás do mar.
Ainda que no fundo do poço, acho um desperdício um coração tão quente não ter outro batendo sob o seu peito. Angelina Dias
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