quarta-feira, 26 de março de 2025
Assobio
Não quis levantar da cama, mas me obriguei a tal. Caía uma chuva que parecia derramar o céu sobre a cidade. Já pronta e na porta para sair, eu não quis com mais força ainda não sair. Parecia que só a minha cama me cabia. Chorei disfarçadamente no carro enquanto via a chuva lavando a cidade. O dia nem acabou e pareceu durar uma semana inteira, uma densidade no tempo, a mente parecia dar pequenas falhas.
Estou no Uber a caminho de casa. Ligo para minha avó para saber como ela está, e ela pergunta como eu estou. Digo que cansada. Conversamos alguns minutos e eu sempre encerro nossas ligações dizendo: "Vó, eu te amo." E ela sempre retribui com um "Eu também!"
Mas hoje parecia que ela sabia, de alguma maneira, que eu precisava do abraço da palavra. E, antes que eu dissesse, pela primeira vez ela se antecipou a qualquer espera e disse: "Eu te amo demais." Ela me abraçou e me colocou no colo sem saber. A voz embargou e as lágrimas rolaram feito um riachinho tímido.
Enquanto eu tentava não chorar na frente de um desconhecido, ele começou a assobiar uma canção qualquer, do mesmo jeitinho que meu avô fazia. Fechei os olhos e podia imaginá-lo dirigindo, coisa que ele amava fazer e fazia com calma e tranquilidade. Sempre tive muito medo de esquecer detalhes dele, mas eu nunca esqueci. E esse assobio, que há muitos anos não ouvia, me trouxe uma saudade que não está cabendo no meu peito. Até o tom era o mesmo!
Só me lembro da canção:
"Chove lá fora e aqui
Faz tanto frio
Me dá vontade de saber
Aonde está você?
Me telefona
Me chama, me chama, me chama."
Angelina Dias
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