domingo, 16 de março de 2025
Eu vejo
Nas entrelinhas, existem respostas entranhadas. E eu tenho em mim a natureza de lê-las, como se fossem estrelinhas piscando, chamando minha atenção. Presto atenção no que está no fundo das palavras, no que se esconde sob a superfície. Tenho um tipo de magnetismo com elas; saltam para mim aquilo que está quase oculto, submerso.
Às vezes, finjo que não vejo o ato falho para evitar um embate, um constrangimento. Mas eu vejo. Eu ouço com clareza. Entendo os mais simples movimentos, e mesmo que eu não diga uma palavra sequer, as peças vão se encaixando perfeitamente.
Há beleza em sentir as miudezas da vida, que fazem toda a diferença na imensidão do todo. Mas, às vezes, dói. Nem tudo que está submerso deve ser trazido à tona. Parece que, para viver, é necessária uma certa cegueira—uma cegueira que não me foi dada. A vida é mais difícil para quem percebe o que não deveria ser percebido, para quem já viu o que ainda está por vir, para quem lê as entrelinhas, para quem enxerga escancarado o que está escondido.
As miudezas nos salvam ou nos aprisionam? Não tenho resposta para tal questionamento. Mas tenho a certeza de que ver as entranhas não facilita a vida.
Angelina Dias
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