“Você tem ideia do ser humano contagiante que você é? É inenarrável sua energia e sua aura — pura luz.”
Não, minha querida, eu não tenho. Confesso a você que já ouvi isso infinitas vezes, de incontáveis pessoas, mas eu não consigo me ver dessa maneira. Ouço diariamente: “Pare de se doar dessa forma. Tal pessoa não merece. Fulano está se aproveitando. Beltrano é interesseiro.”
Eu não sou Madre Teresa de Calcutá, Irmã Dulce ou qualquer outro ser tão iluminado e bom quanto elas, mas eu sou uma boa pessoa. Errante? Demais. E sempre que percebo o erro, eu paro, reflito, me condeno — exageradamente, eu bem sei — e tento mudar o que não é bom em mim.
Desde pequena, eu me sentia diferente perto das pessoas. Era a criança que não gostava de dar trabalho para nada, que passou por coisas bem caladinha porque já entendia que aquilo afetaria profundamente as pessoas que amava. E até situações que não afetariam ninguém, mas que eu, na minha meninice, achava que deveria lidar sozinha. Como no episódio em que pedi para ir ao banheiro no pré, demoraram demais para me deixarem sair, e quando cheguei lá, já havia feito na roupa. Fiquei absurdamente envergonhada. Ninguém viu. Tirei, joguei no lixo, me limpei engolindo o choro de vergonha e voltei para a sala de aula. Contei isso para minha mãe há pouco tempo.
Fui a adolescente certinha, que fazia tudo como as pessoas queriam. Fui desrespeitada diversas vezes por ser permissiva demais, por perdoar com facilidade demais, por achar que todo mundo tinha alguma coisa boa, mesmo quando todos diziam que não. Eu fui mãos estendidas, olhos atentos, cuidadora. Orei por pessoas, mesmo sem conseguir pedir nada por mim mesma. Estava no fundo do fundo do poço e, mesmo assim, fui abrigo em diversas ocasiões na minha vida mesmo precisando de um, tive abrigos também e foram essenciais para que eu ainda esteja aqui.
Cometi erros e me puni como se tivesse cometido o pior dos crimes que um ser humano poderia cometer. E hoje entendo que fui cruel demais comigo mesma, enquanto perdoava com facilidade o outro.
Eu não sei dizer de onde vem isso. Sempre que me perguntavam o que eu gostaria de ser na vida, eu respondia que queria cuidar. Antes de entrar na faculdade, uma tia da minha avó — que não se casou, não teve filhos e era PCD —, com o tempo, foi ficando mais limitada, até precisar de uma cadeira de rodas e não conseguir mais morar sozinha. Pensamos: por que não pegar uma sala comercial e abrir para nossa casa, trazendo ela com suas coisinhas? E assim fizemos. Ela era pequenininha e muito geniosa, rs. Eu cuidava dela pela manhã e, à tarde, minha mãe a levava para as terapias no Centro de Reabilitação.
Mas o tempo passou e eu entrei na faculdade — Enfermagem. Ela não aceitou outra pessoa cuidando dela. Escrevo isso com lágrimas nos olhos, porque ela decidiu ir para um asilo, e isso quebrou meu coração em milhares de pedaços. Tentamos de todas as formas que ela ficasse, que aceitasse outra pessoa, mas ela recusou. Não demorou muitos anos para adoecer e partir, e eu me culpei, por muito tempo, pela morte dela.
Enquanto fazia faculdade, trabalhei dois anos em uma creche. Ganhava uma mixaria e ficava muito cansada porque cuidava de seis bebês sozinha. Alguns deles me chamavam de “mamãe”, e eu tinha um amor imenso por eles. Passavam tempo demais comigo. E ali fui tendo, cada vez mais, a confirmação de que o que eu queria na vida era cuidar.Todas as pessoas que eu conheço e se internaram ou passaram por algum procedimento me quis como acompanhante mesmo tomando remédio para dormir eu acordava mil vezes para acompanhar as pessoas ao banheiro ou coisa do tipo , e eu passava muito mal ,não saberia dizer em quantos seres humanos eu dei banho troquei fraldas e até dei comida na boca. Fiz até por quem tinha uma enxaqueca daquelas ou estava em uma crise, sempre em todas ocasiões com muito amor, Eu não saberia dizer! E eu me pergunto : por que eu não fiz nada disso por mim? Acontece que eu cuidei tanto dos outros, que esqueci de cuidar de mim. E minha vida se transformou em um desastre aos meus olhos. Eu achava que aos 35 estaria casada, com um bebê correndo pela casa, brincando com um cachorro, um jardim bonito… Que nesse momento eu estaria balançando na rede com minha esposa e nosso bebê, ouvindo Amor Puro, querendo que o domingo não acabasse nunca. Mas eu me esqueci de mim no caminho. Fui deixando um pedacinho aqui, outro ali… e, quando percebi, já não era nem de longe a pessoa feliz que um dia fui. Fui despetalando.
Eu nunca fui muito sonhadora, mas tinha alguns sonhos, como esse que acabo de contar. E quando você para de sonhar, para de ter interesse pela vida, isso se torna muito perigoso.
Eu não sou boa para aparecer, para ser exaltada ou vitimizada — longe disso. Sempre fui a garota do fundão. Faz parte da minha essência. Mas tenho tentado compreender que nem todas as batalhas são minhas, que eu não posso abraçar o mundo inteiro. Ainda que eu queira, não há braços tão longos, nem coração que aguente. E isso me frustra bastante.
Como eu posso negar ajuda? Como vou ver uma pessoa desmaiada na rua e não ir até lá? Como vou ver alguém quase ser assassinado na minha frente e dizer: “Não é comigo, nada posso fazer”? Eu não sei como fazer isso… mas talvez eu deva aprender a dosar.
Me lembro da canção Construção, de Chico Buarque, que se encaixa muito bem na maioria das pessoas da sociedade.
As coisas são muito mais profundas em mim do que mostro ou permito acessarem. Você pode ter visto minhas lágrimas… mas talvez nunca veja meu coração.
Recebo a mensagem do início desse texto de uma das pessoas que conheço que mais faz pela sociedade como um todo. Fui pega de surpresa com tamanha delicadeza no olhar, que, com cuidado, me viu — sem que eu nem percebesse. Angelina
“
- “A morte põe um olho no passado e outro no futuro e deixa a gente cego na hora , no encontro do que foi e do que será , na tortura do que poderia ter sido . Impõe o desespero do definitivo , trava os movimentos . Embrulha o estômago indigesta . Faz frio nos ossos . A morte é vida intensa demais para quem fica .” Tudo é Rio - Carla M
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