quarta-feira, 16 de abril de 2025
Dias complexos, complexos demais. Estou me despedindo das pequenas coisas, me despedindo das estrelas como se eu não fosse vê-las mais de outro lugar. Mas é que ali as estrelas são diferentes. Começo a preparar a mudança. Sempre tive problemas com mudanças, e não está sendo diferente agora. Não tenho conseguido pensar em muita coisa, então apenas me despeço de tudo ao redor.
Eu sabia que não podia amar aqui, sempre soube. Mas enfim, a despedida está se concretizando.
Ontem, as araras pareciam querer entrar na minha casa. Eu estava tendo uma crise, sentada no banheiro, e elas faziam seu som característico como se me chamassem, voando de um lado para o outro sem intervalo. Elas nunca fizeram isso. Normalmente passam, e em certo horário voltam. Mas ontem não.
Enquanto eu chorava muito, elas circulavam e emitiam seus sons numa altura absurda. Me concentrei no som delas, ainda que aos prantos, e confesso estar pensativa sobre isso até agora. Pareciam, de fato, me chamar.
A vela queimou inteirinha por sete dias completos, sem deixar nada — nem um pedaço do pavio ou cera.
Acordo sem querer me levantar, mas vou. E não me parecia ser só a função me chamando. Ouço uns pontos, uma música que não tem saído da minha cabeça, e decido que hoje eu vou ao centro, nem que seja me arrastando.
Ainda pela manhã, de novo, a dor fortíssima no peito. Dessa vez, afiro minha própria pressão: 14/13. Me levanto e vida que segue!
À tarde, após meu breve descanso — que passei ouvindo música e tentando fazer caça-palavras para não passar chorando como ontem — deu certo!
Mal me levanto, alguém me espera para contar que uma pessoa que eu gostaria de nunca mais encontrar na vida está trabalhando logo em frente à escola. Decido não entrar mais no shopping.
Peço meu Uber para ir embora para casa. O Uber estava a apenas 1 estrela — pensei: “Melhor não ir, sem nenhuma classificação.” Cancelei e tentei outro por alguns minutos. Quando olho para o lado, vejo um ex-aluno que conheço muito bem. Sei que ele está apenas sendo engolido pelo mundo, pela falta de amor, de proteção que ele deveria ter tido. Ele tem uma espiritualidade absurda.
De repente, ele entra xingando um aluno, dizendo que ia matá-lo… Vou em direção a ele, tento segurá-lo e peço para colocarem o outro aluno dentro da escola. As pessoas parecem paralisadas, ou sei lá o quê. Outras tentam segurar depois, mas ele se desvencilha.
Chego bem perto dele e falo: “Não faça isso. Vá embora.”
De repente, ele volta a si e sai, descendo a rua meio perdido.
Entendi por que eu não consegui não ir hoje. O peito voltou a doer, o desânimo bateu. Mas eu vou mesmo assim, eu disse a mim mesma — nem que fosse arrastada.
Não tenho suportado mais. O copo não transbordou. Ele está estilhaçado no chão, e a água já até secou. Acabo de escrever esse texto Vou abrir meu guarda-roupas para me vestir. A porta, com um espelho enorme, caiu em cima de mim, e eu, completamente despida, quase não tive forças para segurar. Que susto! Foi como se o mundo tentasse me esmagar justo no momento em que eu me preparava para seguir em frente. Mas não, hoje não. Hoje vocês não vão vencer.Tentaram a semana inteira, hoje com mais intensidade mas eu sei o motivo.
Angelina
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