
Pois daqui eu vi o sol se despedir tantas vezes, desde quando não havia nada construído — somente o sonho que meu avô idealizou e que durou o tempo que deveria durar. Não da forma como ele queria, mas como deveria ser.
Como se estivesse sentada em uma roda-gigante, e ela fosse girando lentamente, o sol bate em mim com a temperatura ideal para enternecer o coração. Sempre fecho os olhos quando isso acontece, porque parece que cada célula do meu corpo sente os raios entrando e aquecendo, e por alguns instantes tudo cessa. Faz-se um silêncio tão profundo, e tudo se acalma dentro do meu coração, mesmo que por alguns milésimos de segundo.
Não há como não lembrar do meu avô e agradecer pela oportunidade de tudo que fomos permitidos viver aqui, e por todas as pessoas que recebemos e que se sentiram conectadas e bem-recebidas! Somos todos falhos aqui, mas o amor foi transbordante a qualquer um que pisou nessa terra. As pessoas sempre se sentiram à vontade, e sempre tivemos a confiança de que isso aconteceria, mesmo quando nenhum de nós estava aqui.
Não é fácil se despedir. Sempre achei difícil demais. As despedidas sempre são intensas e dolorosas para mim. Mas eu quero agradecer por todos os momentos que esta terra me proporcionou — e proporcionou a tantas pessoas.
Não há como não lembrar das araras e de tantos pássaros raros que pude ver, das borboletas de todas as cores, flores, árvores, frutos… Ahhh, as estrelas e a lua! Sei que existem em outros lugares, mas nunca serão como aqui e agora.
Me despeço também de alguns sonhos, de algumas lembranças não tão boas assim — e de outras que jamais esquecerei. Mas a vida acontece dessa maneira. Dá pra ver daqui, da roda-gigante.
Eu sei que essa doença tenebrosa me tirou muitos momentos aqui e, ainda assim, eu pude perceber cada detalhe — mesmo que eu não externasse isso.
“Daqui” não merece um texto triste, ainda que seja difícil escrever sobre alegria na minha condição no momento. Mas deixo o registro da minha gratidão.
E esse não é um “até logo”.
É um adeus.
— Angelina
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