terça-feira, 1 de abril de 2025

Único lugar

Chorei copiosamente na mesa do jantar. Entre soluços, uma crise de ansiedade foi tomando uma proporção desesperadora. Minha mãe se levantou da mesa, sem saber o que fazer além de pedir para eu parar, porque ela ficava nervosa ao me ver daquele jeito — e eu não conseguia parar! E então me lembrei de que não foi só a depressão e outras coisas que me trouxeram o distanciamento do toque físico. Enquanto eu chorava aos soluços, tampando o rosto com a camiseta em um sinal de vergonha e fragilidade exposta demais, quis o abraço de minha mãe. Mas ele não veio, porque ela não consegue, nunca conseguiu! Lembro-me de abraçá-la meio que à força quando era mais jovem. Minha mãe não teve esse afeto e, por isso, não tem como ser diferente hoje. Ela me ama profundamente à sua maneira, mas, naquele momento, me senti uma criança esperando o abraço da mãe que não veio. Infelizmente, desbloqueei a lembrança que estava muito bem guardada: esse toque físico foi ansiado a vida inteira — e eu chorei ainda mais! Chorei por mim, por ela, por sua mãe e sabe-se lá por mais quem, que não teve e, assim, não pôde dar! Só o colo de minha mãe teria sido o lugar para o meu choro ontem. Só o útero dela seria um lugar seguro para eu retornar! Angelina Dias

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