terça-feira, 14 de janeiro de 2025

Caderno amarelo

Quando eu tinha por volta dos meus 14 anos, virei uma “escritora” voraz. Sabe aqueles cadernos com pautas que eram usados na escola? Capa dura, de várias cores. Esse, por acaso, era amarelo. Eu havia ganhado de um achados e perdidos da escola, no final do ano, quando os alunos jogavam para o alto cadernos ainda cheios de linhas a serem preenchidas. É curioso que os textos ocupavam páginas e mais páginas, não apenas algumas linhas. Lembro-me de que eram densos, profundíssimos. Talvez, se alguém colocasse o ouvido encostado na capa, escutaria um coração batendo. Ao terminar de escrever cada texto — e isso acontecia em minutos, apesar de tantas páginas —, eu arrancava cada uma delas, rasgava e jogava fora. Fiz isso muitas e muitas vezes, até não sobrarem mais folhas! Depois, ganhei cartolinas amassadas e tintas guaches vencidas, que iriam para o lixo, e pintei em cada uma daquelas folhas coisas lindas para alguns e sem nexo para outros. Gostava de ouvir Elis Regina, Marcelo D2, Freddie Mercury, Cazuza, U2, Zé Ramalho, Titãs, Renato Russo, Whitney Houston, Ney Matogrosso, dentre tantos outros (todos intensos à sua maneira). Mas, em especial, lembro-me como se fosse agora da primeira vez que ouvi Rosa de Hiroshima, escrita por Vinicius de Moraes. Eu era apenas uma criança e voltava àquela música tantas vezes (Ney Matogrosso interpretava)que quase fiz o som pifar. Sentada no banco de um Opala, eu não conseguia parar de ouvir. Senti toda a força, a dor e os inúmeros sentimentos contidos naquela letra. Acho que ninguém aguentava mais me ouvir repetindo a música (risos): “Pensem nas crianças Mudas telepáticas Pensem nas meninas Cegas inexatas Pensem nas mulheres Rotas alteradas Pensem nas feridas Como rosas cálidas Mas oh, não se esqueçam Da rosa, da rosa Da rosa de Hiroshima A rosa hereditária” Eu nunca me esquecerei! Angelina

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