domingo, 30 de novembro de 2025
É por ele que a gente fica
Cada dia estou mais desapegada das coisas materiais. As coisas vão chegando sem parar por necessidade de montar uma casa que não pareça tanto “a casa da música, era uma casa muito engraçada…”, e eu nem abro para ver. Deus bateu à minha porta ontem carregando um violão nas costas. Deus só pediu uma água para escovar os dentes, me disse que não era daqui e que havia dormido na pamonharia. Praticamente nunca tenho dinheiro em espécie, usamos Pix para quase tudo, mas dois dias antes de Deus bater à minha porta uma colega do trabalho me deu um dinheiro para que eu o passasse por Pix. Eu, que estou com a memória péssima, fui encaminhada mais do que depressa ao dinheiro. Dei a ele a água, mas também o dinheiro, e ele me disse: “moça, isso me faz ter esperança na humanidade, ainda existem pessoas boas no mundo”. Balanço a cabeça que sim, mas só penso que aquilo era o que qualquer pessoa deveria fazer.
As medicações mascaram minhas emoções e eu nem saberia dizer como estou. Apenas estou. Essa noite sonhei com meu avô. Era como se eu pudesse tê-lo salvado e ele ainda estivesse aqui, sentado na cadeira dele, dando uma gargalhada com as peraltices do Pica-Pau. Vô, eu quero acreditar que você está do outro lado e poder te abraçar. O Baco canta uma música um tanto quanto forte e deve ser por isso que eu me lembrei tanto de você. Ela começa com um terapeuta e uma menina, e ele pergunta se ela queria falar sobre. Ela diz que acha que não resolveria. Ele insiste que sim e faz uma pergunta: “se você tivesse mais cinco minutos com seu pai, o que você faria?”. E ela responde: “eu o abraçaria por cinco minutos”. Eu tenho raiva da morte porque ela matou meu pai. A gente mata e vai preso, a morte mata e não vai.
Te vejo do outro lado, em algum lugar bonito, porque eu preciso acreditar que o senhor está em um lugar muito bonito, porque aqui está feio demais, vô. As pessoas parecem robôs vagando por aí, destruindo tudo e querendo vender até o oxigênio que a gente respira. As pessoas são rasas, se você mergulhar se arrebenta inteira. Mas às vezes Deus bate na nossa porta e a gente pensa: será que ainda há um pedacinho de esperança? Não sei. A sensação de não pertencimento continua aqui, e a tristeza de não estar feliz por algumas realizações também permanece vivíssima. Acho que não mereço nada, mas minha psiquiatra repete sem parar que desistir não é uma opção. Confesso que continua muito difícil. Hoje meu “coração” está doendo desde cedo e “esfriando”, e isso só acontece quando algo ruim está por acontecer ou já acontecendo. Minha avó diz “vamos à emergência” e eu só digo que não é nada importante.
Vô, já disse para o amor da sua vida que ela não vai se livrar de mim, que sempre quero ter tempo para dormir com ela. Meu pai diz “duvido que vai querer sair da sua casa”, mal sabe ele que eu não estou feliz. Perguntei: “vó, desde que meu avô foi embora, quem dormiu com a senhora?”. Meu pai ficou em silêncio, porque ele sabe que a única pessoa que mudou qualquer rotina sem hesitar ou ser um peso fui eu, e minha avó reafirma isso. Deixar ela sozinha dói meu coração. Ela diz que eu a vigio até dormindo, que qualquer barulhinho que ela faz eu pergunto instantaneamente, mesmo medicadíssima: “vó, tudo bem?”. E por vezes eu nem lembro.
O amor realmente não tem limites para ser, ele simplesmente é. Às vezes a gente vai embora por amor, mas na maioria das vezes é por ele que a gente fica.
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