quinta-feira, 27 de novembro de 2025
Tênue
Do bata esse carro por favor,ao pare o pé freando na primeira oportunidade. Como diz minha psiquiatra, aproveita essa melhora para viver. Sim, amanhã posso voltar para aquele lugar de merda, mas todos os dias que não são um dia para viver sem um elefante sentado no meio do meu peito, em que o choro é um riozinho e não uma cachoeira, devem ser um bom passo. A morte ainda não me assusta, mas nesse instante, que pode durar seja lá quanto tempo, a vida é também uma possibilidade.
A menina me para do nada no meio do corredor: “Taynã, eu estou triste.” Penso ser uma coisa de adolescente, que lido diariamente, e ela me solta, como um vômito: “Meu tio morreu.” Não sabia muito o que dizer e o que veio depois esfriou meu coração na hora, me deu uma paralisada. Ele su… e de uma forma tão cruel com ele mesmo que não consigo nem escrever sobre isso. Não sei o que dizer, tento acolher ela, mas a minha cabeça viu a cena inteirinha e até passei mal. Nessas horas penso sobre a vida e suas linhas tênues diante da morte. Vale a pena?
Mas logo depois, algumas horas mais tarde, o menino que perdeu o pai por um acidente (a vida nos escapa às vezes) estava calçando uma chuteira. Eu disse: “Fulano, você ganhou uma chuteira?” Apesar de tê-la achado muito pequena para o pé enorme dele, ele disse que o colega emprestou. Ele, que ama futebol, estava há meses jogando com um tênis com uma fita colando o buraco enorme no solado. Olhei em volta e todos os amigos dele, sem exceção, estavam de chuteira. Isso me doeu tanto, porque eu vi que doía nele.
Joguei no grupo: “Bora comprar uma chuteira?” Silêncio. Só uma pessoa quis me ajudar. Mas eu comprei, e comprei uma boa. Quando fui perguntar o número dele, mostrei a foto no celular. Ele ficou tão feliz que chorou. Aquele menino enorme chorou. Tentou me abraçar, mas eu não sei aceitar muito afeto. Partilhamos as lágrimas, mas sobretudo a alegria. A felicidade dele aqueceu meu coração, e no olhar triste que ele carrega, um punhado de alegria brilhava.
Pensei: a possibilidade de ajudar alguém vale todas as merdas que eu passo todos os dias nesse lugar. Então eu agradeço. E se eu tivesse desistido ontem ou anteontem, quem ajudaria aquela menina sentada no chão, chorando e gritando de ansiedade? Quem daria um brilhinho no olhar do menino? Permaneço porque deve existir um propósito, ainda que as forças negativas, que eu sei lá de onde vêm, me façam beijar a lona. A minha proteção é infinitamente maior.
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