terça-feira, 25 de novembro de 2025
Concha
Não me lembro da minha vida sem essa concha encostada em alguma parte da casa dos meus avós. Eu já era aficionada por ela, mas tinha medo de pegar por ser grande e porque minhas mãos ainda eram pequenas. Então eu me agachava, encostava meus pequenos ouvidos nela, sem tirá-la do lugar, e ouvia o mar.
Hoje, depois de mais de trinta anos, eu e minha avó estávamos fazendo roscas quando ouvimos um barulho de algo caindo. Minha avó se assustou, achando que fosse uma batida de carro, mas era só um objeto perto das plantas. Quando olhei para o lado e vi a concha, peguei-a como a criança que um dia quis pegar. Fechei os olhos e ouvi o mar, saí do mundo por alguns segundos. Falei: “Vó, escuta aqui o mar, mas fecha os olhos”, e assim ela fez.
Contei para ela o quanto sou apaixonada por conchas e que, quando fui a uma praia cheia delas, fiquei parecendo uma criança vendo tudo pela primeira vez. Mas o fato é: criei uma lembrança da minha avó ouvindo o mar de olhos fechados que nunca mais vou esquecer.
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