sexta-feira, 7 de novembro de 2025
Chão
Eu tô deitada no chão puro e gelado depois de um dia excessivamente exaustivo e difícil. Sou interrogada diversas vezes pelos meus colegas de trabalho: “Taynã, o que você está fazendo aqui? Tem coisa muito melhor pra você, um salário melhor.” E eu sempre respondo: estou onde Deus e a espiritualidade querem que eu esteja e sei que é temporário, mesmo que achem que eu tenha “gabarito” demais para estar lá. Não é fácil, nem recompensatório a ponto de valer numericamente na conta bancária.
Hoje foi uma correria que parecia que eu era oito pessoas ao mesmo tempo. Mas eu sei quem estava comigo. “Corre, a menina desmaiou!”, e enquanto atendo uma, aparece outra, e ninguém parece se importar muito. Eu acho isso assustador. Não sei de onde, ou na verdade sei, que veio a força para carregá-las no colo enquanto os “machos alfa” nem se levantaram. Eles, os alunos, só chamam pelo meu nome como se chamassem por suas mães: “Taynãaaa! Crise de ansiedade, não consegue respirar!”.
E eu tenho certeza de que a espiritualidade estava comigo. Ela se acalmou em segundos, e isso não foi só hoje. Já chamei Conselho Tutelar por abuso de menor e tantas outras infinitas coisas que acabam nas minhas mãos naquele ambiente inóspito. Mas eu sei que aqueles meninos precisam de mim, não porque eu seja importante ou especial, mas porque a espiritualidade faz coisas inimagináveis ali me usando. Muitas delas só eles e eu sabemos o quanto fazemos diariamente e o quão difícil é.
Deitada nesse chão frio, eu agradeço pelo dia de hoje. Porque, para além dos meninos, eles me salvaram mais uma vez. Amanhã eu não sei. Mas hoje eu venci mais um dia.
E enquanto a galera está se arrumando para viver a noite goiana, eu estou apenas com uma roupa de ginástica no chão. Eu tenho tanto medo do mundo e, ao mesmo tempo, um mundo inteirinho mora em mim. Eu tenho medo de atravessar a rua… você entende o que estou dizendo?
Talvez você viesse, talvez não. Talvez eu sentisse paz, talvez não. Talvez você pulasse em mim cruzando os braços no meu pescoço com saudade, talvez não. Talvez eu te contasse que meu dia foi muito difícil, mas talvez você fizesse carinho nas minhas costas e eu esquecesse de tudo. Talvez eu ainda quisesse ficar, talvez você fosse embora. Talvez eu te amasse, talvez não houvesse outra no seu caminho, ou talvez já tenha. Talvez nossos mundos colidissem e virassem estrelas. Talvez eu vivesse. Talvez, se você pegasse na minha mão, eu não teria medo de atravessar a rua.
Talvez você achasse meus textos bonitos, talvez eu os ache cafonas. Talvez você pichasse meu nome no muro da minha casa. Talvez você nunca mais passasse na minha rua. Talvez eu chegasse de surpresa, talvez não.
Eu estou tão exausta que não levantei até agora, e talvez eu nem queira levantar. Talvez eu fosse embora e nunca mais voltasse.
Ah e eu sempre preferi ser chamada de Angelina!
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