quinta-feira, 6 de novembro de 2025

Quase

Como pode alguém, em sã consciência, se acostumar com o céu? Olho para o alto, lá beeem longe de mim, as nuvens densas e imensas; passarinhos voam alto, outros mais baixo, e o céu é mais azul que as águas das Maldivas. Aliás, o que são as Maldivas quando se tem um céu? É gratuito, é pintura viva que nenhum artista no mundo conseguiria pintar ou fotografar em sua grandeza milimetricamente perfeita. Penso naquela pergunta tão usada por aí: “Que animal você gostaria de ser?” A maioria responde animais fortes: leão, onça, leopardo… sempre algo poderoso na cadeia alimentar. Eu queria ser aquele passarinho, livre, tão livre. E que bonito deve ser ver as nuvens robustas lá de cima, que parecem mais um algodão-doce gigante ou como se águas tivessem sido congeladas naquela forma. Sempre pensei nas nuvens como algodões que formavam milhões de possíveis animais, objetos, rostos ou qualquer coisa que a imaginação criasse. Mas hoje, para além disso, eu pensei em águas congeladas formando aquele espetáculo (e, cientificamente, sem poesia, é quase isso mesmo). Mas isso dura pouco. A tristeza me bate na cara como se dissesse: “Acorda, menina. Você não é esse passarinho. Você não alcança as nuvens, mesmo que fique nas pontas dos pés, e muito menos é livre. Você se prendeu em si. E passarinho na gaiola não canta: é ilusão. Ele chora. O bater de asas é sua salvação diante da grandeza. Um animalzinho tão miúdo.” Minha cabeça pensou tanto e imaginou tantas coisas que eu não dormi essa noite. Tive dores de cabeça durante o dia e me deitei num chão cru, sem a maciez de qualquer coisa que fosse possível. Dormi de exaustão. Meu emocional e meu lado racional têm travado batalhas de gladiadores, e quem perde, em todas as circunstâncias, sou eu. Eu fui quase boa. Eu fui quase inteligente. Eu fui quase brilhante. Eu fui quase livre. Eu fui quase escolhida. Eu fui quase amada. Eu fui quase feliz. Eu fui o quase ou a segunda opção de tanta gente. Quando nada mais existia, eu existia, mas eu era quase. Sempre fui. Ninguém me escolheu. Ninguém quis, de fato, ficar, como se eu fosse suficiente. E eu me tornei o quase: insuficiente e, invariavelmente, terrivelmente triste. Jogar a toalha também é importante. Entender o limite de tentar receber algo que você não vai receber, ainda que queira muito. Realmente, mãe, querer não é poder. Entendi, a duras penas, que eu preciso soltar, deixar ir, não por orgulho, mas por respeito. É preciso respeitar quem quis ir embora. Não dá pra rodar o mundo e voltar esperando que alguém vá gritar debaixo de um viaduto que me ama. Não tem ninguém esperando por mim, porque eu não sou a resposta de nada. Eu sou o quase que nunca foi e nunca vai ser.

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