domingo, 23 de novembro de 2025
Prisão perpétua
Se me perguntassem hoje do que mais me arrependo na vida, não é ter ficado tanto tempo em um lugar onde eu não me cabia mais, se é que algum dia eu realmente coube. Isso não importa neste momento. O que mais me arrependo é ter arruinado a confiança e a admiração que ela tinha por mim, mas, sobretudo, tê-la magoado. Eu sei que não poderíamos ser felizes juntas, ainda que achássemos ter certeza de que seria eterno, e eu posso dizer que acreditava nisso. Mas magoá-la foi como enfiar uma faca no meu peito e no dela, atravessando-nos irremediavelmente para sempre.
Eu sei que ela também errou comigo, mas eu não errei só com ela; errei comigo também. Fui condicionada a não cometer erros, e sinto que nunca vou me perdoar por isso. Quando penso que errei com alguém, meu coração dói demais e me falta o ar, mesmo que a pessoa também tenha errado comigo. Eu não poderia… Eu colocava todo mundo que cometia esse erro na mesma caixa, até acontecer comigo e eu entender que não é bem assim. Eu não tenho orgulho, e nunca mais falharia de novo com quem quer que fosse dessa maneira. Gostaria de voltar no tempo, não para ficarmos juntas, mas para não ter errado e não ter machucado você. Isso me persegue como um fantasma, se arrastando atrás de mim e dizendo que eu não mereço nada de bom, porque eu nunca poderia ter machucado ela.
As coisas fugiram do meu controle, e eu sempre tive cuidado para não perdê-lo, independentemente da situação. Eu não fiz o que fiz, nem fui embora, por falta de amor, ou porque uma pessoa com informações privilegiadas tenha cruzado meu caminho em forma de caos fantasiado de amor. Se sentir viva também é se sentir enxergada. Ela mesma disse que só tinha medo de que eu me matasse. Devia ter pena de mim, um dos sentimentos mais tristes que alguém poderia ter por mim. Já não me enxergava como um ser humano, mas como um relógio-bomba suicida.
Eu sei que já pedi perdão a ela infinitas vezes, pessoalmente e de todas as formas possíveis, mas também sei que ela nunca me perdoou, e isso massacra meu coração. Chico Xavier costumava dizer: “Fico triste quando alguém me ofende, mas, com certeza, eu ficaria mais triste se fosse eu o ofensor… Magoar alguém é terrível!” E é terrível demais. Já se passaram anos, mas eu também nunca me perdoei e me condenei à prisão perpétua.
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