domingo, 9 de novembro de 2025
Vó
Ontem foi a minha primeira gargalhada genuína deste ano tão difícil, e ela foi com a minha avó. Eu nunca havia presenciado essa gargalhada dela dessa maneira e isso me tocou de uma forma que talvez ela nem tenha noção. Presto atenção nos detalhes. Vó, quando cheguei de São Paulo depois de ter passado uns maus bocados, eu entendi o motivo de ter ido para lá. Assim que cheguei, peguei seu exame e recebi uma porrada no meio do peito: câncer. Vó, o mundo girou e eu chorei de soluçar só de pensar na possibilidade de você sofrer e de perdê-la, mas a senhora mais uma vez me mostrou o quanto é forte. “Tenho isso? O que preciso fazer? Ok.” E fez tudo certinho, e eu pude acompanhar cada detalhe, atenta às mínimas coisas, porque eu ter ido para São Paulo foi para isso, para te acompanhar. Que mulher forte, sábia e de fé. Ninguém dizia que teve câncer, porque a senhora nunca abaixou a cabeça e nunca desistiu de nada nessa vida. Quão agraciada eu fui e sou.
Quando o vovô foi parar no hospital, eu já peguei minhas coisas e vim para a casa da senhora, porque meu avô nunca deixaria você sozinha. Três dias depois ele partiu, e eu te vi dormir chorando pela primeira vez na minha vida. O amor da sua vida tinha partido e eu tive tanto medo de perder você também, porque parecia que o mundo não poderia existir sem vocês dois juntos. Mas mais uma vez a senhora me mostrou o quão forte e resiliente é. Eu moro com a senhora há praticamente oito anos porque Deus me deu esse presente. Ele me deu duas mães e dois pais. Não é a senhora que precisa de mim, sempre fui eu quem precisou da senhora. Seu amor já me salvou tantas e tantas vezes. Seu cuidado comigo é algo que ninguém vive tão de perto quanto eu.
Por muitos anos, eu tive medo de dizer à senhora quem eu realmente era, mesmo sabendo que a senhora já sabia. E hoje falamos disso com uma naturalidade que aquece meu coração. Não ter receio de quem eu sou perto de você me torna uma pessoa melhor. Tenho visto a senhora envelhecendo, esquecendo algumas coisas, mas nossas conversas sempre são as melhores. Eu aprendo com você e você aprende comigo. Eu não faria nada diferente. E não é só porque meu avô não te deixaria sozinha, é porque eu não te deixaria sozinha. Eu prometi que, se um dia precisar de alguém para literalmente te carregar, eu estarei lá, e se tiver alguém comigo, vai ter que entender isso.
Me indicaram um filme e eu tive muito medo de assistir, porque eu tenho medo de perder você. Sempre tive pânico de perder você. Mas me deu vontade de assistir e eu chorei. Não foi um choro de tristeza, foi um choro de agradecimento, porque te tenho aqui e porque nós nunca nos separamos. Você pede para eu comer, eu peço para a senhora ter cuidado ao atravessar a rua. A senhora pede para eu não chorar e eu peço para a senhora viver mais, aproveitar mais. A senhora diz que sempre pensou na velhice e por isso vocês compraram algumas coisas para não depender de um mísero salário mínimo de uma aposentadoria, que é a realidade de uma grande parcela da população, infelizmente. Mas, vó, troque o forno, viaje mais. A senhora merece. Não precisa guardar mais nada. A senhora tem o suficiente. Só não vai embora para sempre.
Eu não quero estar em primeiro lugar no seu testamento, mas me deixa num pedaço do seu coração. A senhora também não sabe quem ama mais, só sabe que ama. E eu te amo e te agradeço pela oportunidade de ser a sua “neguinha”.
Com amor,
Angelina
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