domingo, 7 de dezembro de 2025

O amor é

Dizem que demoramos, em média, cerca de 7 anos para esquecermos alguém que amamos, acho que romanticamente. Mas com certeza estão muito enganados. Não é como saber que um coração bate entre 60 e 100 vezes por minuto, variando de acordo com a idade, ou que existem 384.042 quilômetros entre a Terra e a Lua. Sentimentos não se podem mensurar nem ter prazo de validade como um iogurte. Para o amor não há espaço nem tempo. Sete anos pode ser tempo demais ou tempo de menos. Você pode amar alguém para sempre e escolher não estar mais com ela, ou ela escolher que não quer mais estar com você. O amor não pode ser negociável. Ele é desaforado, não pode ser pausado como um jogo. Talvez ele seja transformado ou não, mas guardado, ainda que se coloque onde não se alcance, ele vai estar. E, de repente, em uma tarde de domingo qualquer, ele te visita de uma forma inesperada e você o devolve para a caixinha inalcançável, porque ele não respeita ninguém quando quer reaparecer. Ele o faz, você querendo ou não. Como diz o Pequeno Príncipe: “Foi o tempo que dedicaste à tua rosa que a fez tão importante”. Há quem acredite em máquina do tempo. Há quem diga que são lunáticos os que creem nisso. Mas eu, que não sou ninguém tão importante nem nada importante, acredito que nós somos uma máquina do tempo. Nossa mente, coração ou espírito nos levam a lugares inimagináveis e são lugares e momentos que já se passaram ou que gostaríamos de viver e estar. Então talvez exista a tal máquina do tempo. Quem vai saber? Quando uma alma toca a outra, sua digital fica ali para sempre, porque para o amor ou toca ou não toca, ele não cabe no meio-termo. Tenho para mim que, aos domingos, a máquina do tempo quer funcionar como se fosse um dia irremediável…

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

Comigo mesma

Ter memória fotográfica já me ajudou em muitas coisas, principalmente relacionadas a estudo e conhecimento. Sempre achei mais fácil aprender, como se abrissem meu cérebro e aquela informação ficasse instalada no meu “software humano”. Mas, na minha vida pessoal, eu gostaria de não tê-la, uma memória fotográfica, sensorial, auditiva, olfativa muuuuuito potente e, se eu pudesse, ainda que talvez me tirasse a facilidade de muitas coisas, eu não queria ter, porque em frações de segundo um cheiro, uma lembrança, um som me transporta para lugares que eu não posso mais revisitar. Obviamente, eu vou para lugares dos quais eu não tenho vontade de voltar e moraria ali facilmente, mas, em contrapartida, vou para lugares em que eu não posso mais estar ou dos quais eu jamais gostaria de ter estado, porque dói, porque me arrependo, porque foi horrível. Aí fica a grande questão: os momentos bons valem os ruins? Não sei. “Eu espancaria anjos e rasgaria o céu”. Eu fico pensando se minha melancolia vem de coisa ruim ou vem de olhar tudo com sentimento demais. Desde tão pequena, coisas tão pequenas me emocionam, me arrepiam. Sempre gostei de músicas intensas e carregadas de sentimentos. Alguém deitado na rua nunca foi algo comum para mim, muito pelo contrário, sempre foi absurdo. Tinha muitos amigos, não posso negar, mas eu tive, em especial, amigos dos quais ninguém queria ser. Eu me recordo que, na idade que eu tinha quando ia para a APAE, porque minha mãe trabalhava lá e eu tinha que ir com ela, eu nunca achei que eles tivessem qualquer diferença de mim e não têm, mas eu sei que não é dessa forma que a sociedade como um todo enxerga. Eu passava o dia inteiro brincando com eles e era difícil me fazer ir embora. Já havia uma sensibilidade diferente para a minha idade. Eu nunca me vi em nenhuma outra profissão que não fosse cuidar. As opções sempre foram ligadas ao cuidar. Nunca gostei de matar, nem insetos. Eu perdi as contas de quantas baratas, que a maioria das pessoas tem asco, rs, eu já virei de barriguinha para baixo de volta para elas irem embora. Eu tinha uma mania de passar hooooras observando formigas. Eu tinha toda uma história na minha cabeça, prestava atenção em como elas picavam as folhas, se organizavam e ficava alucinando em como elas poderiam carregar algo taaaao maior que elas. A lupa que eu ganhei me levava lá para o mundo delas, rs. Achava que piolho tinha casa na cabeça das pessoas e eles eram como nós, kkk. Passava muito tempo olhando as nuvens e via cada coisa com total certeza de que era de verdade. Eu era uma boa menina e achava que o mundo era tão bonito. Eu não sei se sentir tanto fez bem para a minha criança, mas tenho certeza de que fez mal para a minha adulta. As pessoas me acham sensível, mas eu acho que não chegam nem perto de saber como eu realmente sou sensível e o quanto isso me custa e torna a minha vida mais difícil, muito mais difícil. Eu vou embora amando, aí fico tentando acomodar o sentimento em algum lugar o mais inacessível possível. Eu não acho que quem você realmente amou deixa de amar, a gente só acomoda em um lugar onde as mãos não alcancem, mesmo que estejamos nas pontinhas dos pés. Meu texto não tem nem um sentido, mas é que hoje está difícil demais para não falar comigo mesma.

Finitude

Dia de despedidas, e eu detesto me despedir. Tenho uma dificuldade imensa de pensar no fim. O ciclo de muitos meninos se encerrou ali naquele lugar hoje, e pude ver o medo, a ansiedade, o mundo inteiro de possibilidades, mas são crianças um pouco crescidas com medo das incertezas da vida lá fora. Hoje eu escrevi em infinitas camisetas, chorei, permiti que me abraçassem e foi uma mistura de dever cumprido, porque eu sei que dei o meu melhor para eles e muitos deles também me deram o melhor do que tinham. Nesses últimos dias eles têm me enchido tanto de amor que eu acho que foi Deus dizendo muitas coisas para mim, e Ele me alcançou através deles. Têm sido dias difíceis e eu com certeza precisava desse afeto. Obrigada. E, pela primeira vez, eu não termino o ano com medo de não ter esse emprego no próximo ano, porque meu coração se acalmou e, de fato, eu consegui entregar para Deus e para a espiritualidade. Eu entendi que eu não tenho o amanhã nem o que passou, eu só tenho esse segundo em que escrevo. Passo em frente a um cemitério que faz parte do meu trajeto de volta para casa. O carro parou e muitas pessoas estavam atravessando a rua para uma última, derradeira despedida, a mais doída de todas. Eu fui completamente atravessada e comecei a arrepiar o meu corpo inteiro e fiquei triste. Parece que eu consegui, em segundos, focar os olhares de dezenas de pessoas e prestei atenção na quantidade de pessoas muito jovens ali. A despedida está nos acompanhando o tempo todo, gostando ou não. Ela me atravessou de maneiras diversas hoje e, no final do dia, o fim da carne, a real despedida daqui e a mais dolorosa me alerta para a certeza de que, para todos nós, hoje pode ser o último dia.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

Sim

Sim! O “sim” foi destruindo quem eu sou desde muito pequena. Meu pai me criou para ser uma cópia dele e a maioria das pessoas que convivem comigo e com ele, na intimidade, dizem que somos muito parecidos. Descobri na terapia que eu precisava aprender a dizer não. Meu pai diz que minha terapeuta foi horrível para mim, que fiquei “boca dura”. Minha ex, que inclusive foi quem me apresentou a ela porque já havia sido paciente, fala aos quatro cantos que ela é péssima; chegou a culpá-la diversas vezes pelo nosso fim. Mas foi ela quem me salvou de mim mesma tantas vezes que não caberia discorrer aqui. Tantas vezes os ouvidos dela foram o único colo que eu tive. Não estou culpando ninguém, mas eu tive que revisitar algumas coisas para entender o porquê de várias coisas, sobretudo da minha saúde mental. Por que eu permiti e permito determinadas coisas? Por que tenho dificuldade em dizer não, em colocar limites quando estou sendo magoada ou desrespeitada? Por que eu perdoo com facilidade, mas quando erro me martirizo eternamente? Temos a ideia de que o sim abre portas e possibilidades, mas o sim me afastou de quem eu sou. Agora, depois de adulta, é tão difícil recalcular a rota. Eu continuo dizendo sim para inúmeras coisas que eu gostaria de responder com um enorme não. Pensando sobre isso, entendi talvez de onde vem a ansiedade de sair, de estar no meio de muitas pessoas: eu fiz isso infinitas vezes sem querer, e isso me angustiava. Só sou respeitada quando não há grosseria nem palestra sobre como precisamos agir, porque me tornei uma pessoa extremamente ansiosa e deprimida. É esse o único motivo? Obviamente não, mas talvez seja uma parte bem razoável de tudo isso. Meu pai continua distribuindo sins enquanto se adoce internamente e entristece minha mãe. Amamos o próximo a partir do amor que temos por quem mais convivemos, porque é ali que vivemos a experiência de partilhar: de conhecer o mais bonito, mas também o mais difícil do outro. Gostaria que ele despertasse para o que venho fazendo, em passos pequenos, tomando consciência. Sei da dificuldade, mas sei também do buraco que me levou.Como canta Tim Bernardes "No dia que eu fui embora Resolvi Deixar pra trás minha história Descobrir Entender quem sou agora Ir e vir Quem sabe eu vá me encontrar Por aí Milhas e milhas distante Anos e anos depois Muita, mas muita esperança Você tenta Você tenta também Você tenta Você tenta ir além No dia que eu fui embora Resolvi Deixar pra trás minha história Descobrir Entender quem sou agora Ir e vir Quem sabe eu vá me encontrar Por aí

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Segue

Aprendi a respeitar o meu silêncio, mas sobretudo o silêncio do outro. Não é um tanto quanto absurdo que o silêncio diga mais que um milhão de palavras? Você já tocou a alma de alguém sem dizer uma única palavra? Apenas olhando nos olhos, tão, mas tão de perto, que você consegue ver os desenhos da íris, talvez contar cada cílio. Qual a importância disso? Diz do detalhe, de olhar minuciosamente não um corpo bonito e atraente, mas uma alma explosiva de amor. Aprendi a não supor nada. Não suponha, isso é uma armadilha. Saiba, procure a resposta se isso for importante pra você. Às vezes eu me sinto invisível, e talvez eu seja por muitas vezes, mas nesse dia de silêncio, em que o álbum do Baco explodia no meu fone, surgem as perguntas: você está com raiva de mim? Você está passando mal? Gente, eu sou um ser humano. Tô triste, chateada, com raiva, sei lá… me deixa. “Assina minha camiseta?” Disfarço pra não constranger, mas ela chorou. Uma professora super discreta, que não mantém contato físico com ninguém além dos seus filhos e família, me vê passando em exaustão absoluta. “Taynã, posso te dar um abraço?” Ela me abraça e diz: está acabando. E eu fico pensando o que está acabando? Não sei. Escondida novamente debaixo da mesa, igual àquelas crianças que acham que quando tapam os olhos desaparecem, ouço meu nome ecoar nos corredores e levanto numa rapidez que eu parecia, como diz o Xamã, um velocista com ansiedade. Acabou o descanso. Menino convulsionando, crianças desesperadas, o tempo parecia estar parado. Ele volta à consciência. Me dão ao menos três celulares em ligação com o SAMU e ninguém consegue sequer explicar. Pego um deles, explico a situação e tive que falar que sou enfermeira. Ele acordou sem saber onde estava. Deitei a cabeça dele no meu colo e ele relaxou, normal de um corpo pós-convulsão. Ele havia esquecido de tomar o remédio. “Alguém busca a medicação, não vou sair daqui.” A menina diz: “Taynã, você sabia que nós amamos a senhora?” Silêncio. Poxa vida, aquelas palavras tomaram meu silêncio e eu engoli uma cachoeira que romperia qualquer obstáculo ali mesmo. Não há tempo pra chorar agora. Atenção, pode acontecer de novo. Eu estou cansada de ficar alerta. Queria em mim a liberdade de fazer de uma quarta-feira um sábado, sentada à beira-mar assistindo o sol nascendo. Como vou explicar que a minha cor favorita é o sol nascendo e se pondo? Quem liga? Segue. Tontura repentina. “Taynã, você está passando mal?” Não segue a fila. Parecia que meu espírito havia saído do corpo. Segue. A cabeça dói sem descanso, nenhum remédio melhora. O que está acontecendo? Não interessa. Segue. Será que algum dia eu vou sentir o descanso? Sabe, relaxar completamente, como se não houvesse começo, muito menos final de nada, segura como no útero da minha mãe? As pessoas deduzem demais e poucas querem saber de fato o que acontece. Eu que não vou explicar pra mais ninguém. Se disserem que o céu é rosa, ele vai ser, porque eu preciso sentir um pouco de paz que seja, senão meu corpo não vai aguentar. Sinceramente, pensem o que quiserem. Não preciso que entendam nada, mas gostaria que essa porra de hipervigilância que me persegue desde a infância me desse uma trégua. Nem tudo é um sinal, Taynã. Essa porra foi só uma coincidência. Apaga. Me recolher em minha insignificância me torna uma pessoa mais leve diante da vida. Ninguém precisa esperar nada de mim.

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Desconstrução

Um rapaz, um homem, mas também uma criança vivendo à margem de uma sociedade egoica. Um ser humano que não foi acolhido, respeitado e, sobretudo, cuidado. Um homem-menino perdido no mundo e perdido dentro de si. O homem-menino tinha muito em comum com a leoa: ambos foram enjaulados, presos e observados de fora como se fossem enfeites, um imponente porém triste, e o outro apenas triste e jogado à margem de qualquer lugar. Quem tem culpa? Somos nós. A sociedade é que tem culpa, não o homem-menino nem a leoa, com seus instintos enjaulados e vendidos por ingressos baratos em um cubículo. A leoa, feita para viver na selva, e o homem-menino, preso na selva de pedra que, para além das cidades, virou o coração das pessoas. Eu me compadeço do homem-menino. Talvez eu também me jogasse na jaula. Ou será que nós já vivemos dentro de uma? Pessoas dizendo que bom que a leoa está bem só potencializam a frieza diante do outro, como se o homem-menino fosse apenas um corpo qualquer caído em um lugar onde merecia estar. Vocês estão putrefatos, e o homem-menino está livre: da jaula, mas sobretudo de vocês. “Amou daquela vez como se fosse a última Beijou sua mulher como se fosse a última E cada filho seu como se fosse o único E atravessou a rua com seu passo tímido Subiu a construção como se fosse máquina Ergueu no patamar quatro paredes sólidas Tijolo com tijolo num desenho mágico Seus olhos embotados de cimento e lágrima Sentou pra descansar como se fosse sábado Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago Dançou e gargalhou como se ouvisse música E tropeçou no céu como se fosse um bêbado E flutuou no ar como se fosse um pássaro E se acabou no chão feito um pacote flácido Agonizou no meio do passeio público Morreu na contramão atrapalhando o tráfego”

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Zzzz

Hoje eu quis muito que o mundo estivesse no mute, e parecia que quanto mais eu ansiava pelo silêncio mais o mundo gritava dentro e fora de mim. Eu senti muita dor no peito, um frio que não passa desde ontem e a sensação de que, de fato, tem um elefante enorme sentado bem no meio do meu peito. “O que foi? O que você tem? Está tudo bem? Quer que eu vá aí? Como posso te ajudar?” Ninguém teve resposta, não porque eu não queria falar. Tudo bem, eu também não queria falar, mas é que eu não sei. Eu realmente não sei. Hoje a máscara que eu uso pra ser não colou. Me escondi até debaixo de uma mesa no meu descanso e apaguei por lá mesmo, completamente exausta. O que eu mais li hoje foi “que dezembro seja meu final feliz”. As pessoas devem estar mais esperançosas, pois nessas datas que antecedem o começo de um novo ano e o final de outro, o que eu mais lia era “ano passado eu morri e esse ano de novo”. O que será que seria o final feliz? O dos contos de fadas ou o do capitalismo selvagem? A resposta é muito óbvia: silêncio. Eu não estou melhor, o remédio é que tenta me deixar meio apática, mas sentimentos fortes rompem as barragens de maneira a alagar tudo como em um susto, e aí eu me afogo outra vez, como tartaruguinhas que saem dos ovos e tentam por instinto entrar no mar e as ondas devolvem elas. Mas a questão é que elas não desistem. E aí eu lembro da Dory do desenho: continue a nadar, continue a nadar. Mas eu não quero mais nadar. Uma professora brinca comigo: como diz na novela, Taynã, tudo de ruim que acontece na vida é pra melhorar. Falei “poxa vida, posso esperar o paraíso então?”, e saí ansiando por um silêncio e uma quietude que aquele lugar jamais poderia me oferecer. Existe uma frase que eu amo que diz mais ou menos assim: você é meu minuto de silêncio em um mundo que grita sem intervalos. Eu não sei de quem é ou se eu inventei. Minha cabeça está igual a da Dory mesmo. Já cochilei algumas vezes aqui. Preciso parar. Meu corpo entrou em exaustão. Talvez eu volte, ou não.