quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Segue

Aprendi a respeitar o meu silêncio, mas sobretudo o silêncio do outro. Não é um tanto quanto absurdo que o silêncio diga mais que um milhão de palavras? Você já tocou a alma de alguém sem dizer uma única palavra? Apenas olhando nos olhos, tão, mas tão de perto, que você consegue ver os desenhos da íris, talvez contar cada cílio. Qual a importância disso? Diz do detalhe, de olhar minuciosamente não um corpo bonito e atraente, mas uma alma explosiva de amor. Aprendi a não supor nada. Não suponha, isso é uma armadilha. Saiba, procure a resposta se isso for importante pra você. Às vezes eu me sinto invisível, e talvez eu seja por muitas vezes, mas nesse dia de silêncio, em que o álbum do Baco explodia no meu fone, surgem as perguntas: você está com raiva de mim? Você está passando mal? Gente, eu sou um ser humano. Tô triste, chateada, com raiva, sei lá… me deixa. “Assina minha camiseta?” Disfarço pra não constranger, mas ela chorou. Uma professora super discreta, que não mantém contato físico com ninguém além dos seus filhos e família, me vê passando em exaustão absoluta. “Taynã, posso te dar um abraço?” Ela me abraça e diz: está acabando. E eu fico pensando o que está acabando? Não sei. Escondida novamente debaixo da mesa, igual àquelas crianças que acham que quando tapam os olhos desaparecem, ouço meu nome ecoar nos corredores e levanto numa rapidez que eu parecia, como diz o Xamã, um velocista com ansiedade. Acabou o descanso. Menino convulsionando, crianças desesperadas, o tempo parecia estar parado. Ele volta à consciência. Me dão ao menos três celulares em ligação com o SAMU e ninguém consegue sequer explicar. Pego um deles, explico a situação e tive que falar que sou enfermeira. Ele acordou sem saber onde estava. Deitei a cabeça dele no meu colo e ele relaxou, normal de um corpo pós-convulsão. Ele havia esquecido de tomar o remédio. “Alguém busca a medicação, não vou sair daqui.” A menina diz: “Taynã, você sabia que nós amamos a senhora?” Silêncio. Poxa vida, aquelas palavras tomaram meu silêncio e eu engoli uma cachoeira que romperia qualquer obstáculo ali mesmo. Não há tempo pra chorar agora. Atenção, pode acontecer de novo. Eu estou cansada de ficar alerta. Queria em mim a liberdade de fazer de uma quarta-feira um sábado, sentada à beira-mar assistindo o sol nascendo. Como vou explicar que a minha cor favorita é o sol nascendo e se pondo? Quem liga? Segue. Tontura repentina. “Taynã, você está passando mal?” Não segue a fila. Parecia que meu espírito havia saído do corpo. Segue. A cabeça dói sem descanso, nenhum remédio melhora. O que está acontecendo? Não interessa. Segue. Será que algum dia eu vou sentir o descanso? Sabe, relaxar completamente, como se não houvesse começo, muito menos final de nada, segura como no útero da minha mãe? As pessoas deduzem demais e poucas querem saber de fato o que acontece. Eu que não vou explicar pra mais ninguém. Se disserem que o céu é rosa, ele vai ser, porque eu preciso sentir um pouco de paz que seja, senão meu corpo não vai aguentar. Sinceramente, pensem o que quiserem. Não preciso que entendam nada, mas gostaria que essa porra de hipervigilância que me persegue desde a infância me desse uma trégua. Nem tudo é um sinal, Taynã. Essa porra foi só uma coincidência. Apaga. Me recolher em minha insignificância me torna uma pessoa mais leve diante da vida. Ninguém precisa esperar nada de mim.

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