terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Desconstrução

Um rapaz, um homem, mas também uma criança vivendo à margem de uma sociedade egoica. Um ser humano que não foi acolhido, respeitado e, sobretudo, cuidado. Um homem-menino perdido no mundo e perdido dentro de si. O homem-menino tinha muito em comum com a leoa: ambos foram enjaulados, presos e observados de fora como se fossem enfeites, um imponente porém triste, e o outro apenas triste e jogado à margem de qualquer lugar. Quem tem culpa? Somos nós. A sociedade é que tem culpa, não o homem-menino nem a leoa, com seus instintos enjaulados e vendidos por ingressos baratos em um cubículo. A leoa, feita para viver na selva, e o homem-menino, preso na selva de pedra que, para além das cidades, virou o coração das pessoas. Eu me compadeço do homem-menino. Talvez eu também me jogasse na jaula. Ou será que nós já vivemos dentro de uma? Pessoas dizendo que bom que a leoa está bem só potencializam a frieza diante do outro, como se o homem-menino fosse apenas um corpo qualquer caído em um lugar onde merecia estar. Vocês estão putrefatos, e o homem-menino está livre: da jaula, mas sobretudo de vocês. “Amou daquela vez como se fosse a última Beijou sua mulher como se fosse a última E cada filho seu como se fosse o único E atravessou a rua com seu passo tímido Subiu a construção como se fosse máquina Ergueu no patamar quatro paredes sólidas Tijolo com tijolo num desenho mágico Seus olhos embotados de cimento e lágrima Sentou pra descansar como se fosse sábado Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago Dançou e gargalhou como se ouvisse música E tropeçou no céu como se fosse um bêbado E flutuou no ar como se fosse um pássaro E se acabou no chão feito um pacote flácido Agonizou no meio do passeio público Morreu na contramão atrapalhando o tráfego”

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