sexta-feira, 5 de dezembro de 2025
Comigo mesma
Ter memória fotográfica já me ajudou em muitas coisas, principalmente relacionadas a estudo e conhecimento. Sempre achei mais fácil aprender, como se abrissem meu cérebro e aquela informação ficasse instalada no meu “software humano”. Mas, na minha vida pessoal, eu gostaria de não tê-la, uma memória fotográfica, sensorial, auditiva, olfativa muuuuuito potente e, se eu pudesse, ainda que talvez me tirasse a facilidade de muitas coisas, eu não queria ter, porque em frações de segundo um cheiro, uma lembrança, um som me transporta para lugares que eu não posso mais revisitar. Obviamente, eu vou para lugares dos quais eu não tenho vontade de voltar e moraria ali facilmente, mas, em contrapartida, vou para lugares em que eu não posso mais estar ou dos quais eu jamais gostaria de ter estado, porque dói, porque me arrependo, porque foi horrível. Aí fica a grande questão: os momentos bons valem os ruins? Não sei. “Eu espancaria anjos e rasgaria o céu”.
Eu fico pensando se minha melancolia vem de coisa ruim ou vem de olhar tudo com sentimento demais. Desde tão pequena, coisas tão pequenas me emocionam, me arrepiam. Sempre gostei de músicas intensas e carregadas de sentimentos. Alguém deitado na rua nunca foi algo comum para mim, muito pelo contrário, sempre foi absurdo. Tinha muitos amigos, não posso negar, mas eu tive, em especial, amigos dos quais ninguém queria ser. Eu me recordo que, na idade que eu tinha quando ia para a APAE, porque minha mãe trabalhava lá e eu tinha que ir com ela, eu nunca achei que eles tivessem qualquer diferença de mim e não têm, mas eu sei que não é dessa forma que a sociedade como um todo enxerga. Eu passava o dia inteiro brincando com eles e era difícil me fazer ir embora. Já havia uma sensibilidade diferente para a minha idade.
Eu nunca me vi em nenhuma outra profissão que não fosse cuidar. As opções sempre foram ligadas ao cuidar. Nunca gostei de matar, nem insetos. Eu perdi as contas de quantas baratas, que a maioria das pessoas tem asco, rs, eu já virei de barriguinha para baixo de volta para elas irem embora. Eu tinha uma mania de passar hooooras observando formigas. Eu tinha toda uma história na minha cabeça, prestava atenção em como elas picavam as folhas, se organizavam e ficava alucinando em como elas poderiam carregar algo taaaao maior que elas. A lupa que eu ganhei me levava lá para o mundo delas, rs. Achava que piolho tinha casa na cabeça das pessoas e eles eram como nós, kkk. Passava muito tempo olhando as nuvens e via cada coisa com total certeza de que era de verdade. Eu era uma boa menina e achava que o mundo era tão bonito.
Eu não sei se sentir tanto fez bem para a minha criança, mas tenho certeza de que fez mal para a minha adulta. As pessoas me acham sensível, mas eu acho que não chegam nem perto de saber como eu realmente sou sensível e o quanto isso me custa e torna a minha vida mais difícil, muito mais difícil. Eu vou embora amando, aí fico tentando acomodar o sentimento em algum lugar o mais inacessível possível. Eu não acho que quem você realmente amou deixa de amar, a gente só acomoda em um lugar onde as mãos não alcancem, mesmo que estejamos nas pontinhas dos pés.
Meu texto não tem nem um sentido, mas é que hoje está difícil demais para não falar comigo mesma.
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