sábado, 16 de maio de 2026
Tudo vai mal
"Quando você me ouvir cantar
Venha, não creia, eu não corro perigo
Digo, não digo, não ligo, deixo no ar
Eu sigo apenas porque eu gosto de cantar
Tudo vai mal, tudo
Tudo é igual quando eu canto e sou mudo
Mas eu não minto, não minto
Estou longe e perto, sinto alegrias, tristezas e brinco
Meu amor
Tudo em volta está deserto, tudo certo
Tudo certo como dois e dois são cinco" Caetado Veloso
quarta-feira, 13 de maio de 2026
Quando se volta pra casa
Duas noites turbulentas em que parecia que nenhuma medicação estava no meu corpo. Sim, o dia chegou: eu não consegui levantar e ir trabalhar. Tentei, mas meu corpo e minha mente estafaram sem dormir de uma tal maneira que, pela primeira vez, não levantei para ir ao trabalho. Passei o dia na cama e ainda me obriguei a ir para a faculdade. Tinha um trabalho, não podia ser irresponsável.
Quando me permiti ser, foi um grande estrago em minha vida, e eu achando que não podia cometer um erro. Saí arrastando por aí a irresponsabilidade, todas as consequências e um preço imensurável que paguei e ainda pago. Caro demais, muito caro. Talvez possa me custar o resto da minha história.
Queria me perdoar com a facilidade com que perdoo. Posso afirmar que não existe uma pessoa que me fez mal ou me magoou por quem eu tenha maus sentimentos, mas eu não me perdoo e me puno incessantemente. Eu errei feio, feio demais para mim, entende? Não entendo até hoje como eu pude. Tudo bem, estava tudo péssimo, eu estava morrendo no sentido literal da palavra, mas talvez tivesse sido melhor do que viver com tantos traumas e essa culpa que parece fundida em mim. Quando acho que me livrei, ela vem como uma ventania, arrebentando a porta e me pressionando contra a parede de uma forma em que não respiro e morro a conta-gotas.
Como diz a música: “Tá difícil ser eu sem reclamar de tudo”.
Meu corpo está sem energia. Penso e não consigo colocar nada em prática. Não tenho vontade de me levantar da cama. Aqui é o lugar em que espero o dia inteiro para estar: no silêncio escuro do meu quarto vazio. Tão vazio que me preenche inteira. Olha só que paradoxo: o vazio encher. Comprime principalmente os pulmões e meu miúdo coração, miudinho, miudinho.
Minha criança deve estar tão decepcionada comigo que, às vezes, sinto vergonha dela. Prometi tantas coisas a ela e virei isso aqui. Não tem casa feliz, não tem profissão, não tem um amor, não tem uma criança com meus olhos, não tem alegria em mim. Há muita culpa. Não sorrio. Choro muito, mas não é aquele choro apenas de emoção que nós sempre tivemos, é um choro doído demais. Há péssimos pensamentos, dos quais eu nem tenho coragem de escrevê-los.
Quanta dor alguém consegue aguentar?
Assisti Criaturas Extraordinariamente Brilhantes e até os animais, animal que seus tentáculos têm uma capacidade sensorial e de processamento impressionantes , sofrem, buscam por algo. E que bom que ele conseguiu voltar para casa. Deve ser muito bom voltar para casa, para o tão sonhado fundo do mar. Parece que só há paz quando se volta para casa.
segunda-feira, 11 de maio de 2026
Encolhendo
O que mais me faz falta, antes da depressão, da ansiedade e de tudo isso me engolirem, é a minha vida social. Eu era uma pessoa comunicativa, brincalhona, tinha tantos amigos que minha casa vivia cheia. Gostava de sair para dançar, eu ainda gostava de mim.
Uma amiga está me chamando há meses para sair e eu sempre digo que vou ver. Eu não entendia muito bem por que nunca aceito. Na verdade, achei que era apenas o medo das crises de pânico que me dão e fazem todos os meus músculos doerem.
Ontem, Dia das Mães, na casa da minha avó, que está com Alzheimer, eu ainda brinquei com minha mãe dizendo que queria ficar só com ela e com minhas irmãs. Eu não queria ir. Foi todo mundo, e quiseram tirar fotos com a minha avó. Deviam ter umas 25 pessoas, filhos, netos… todo mundo foi descendo e eu me escondendo. Passavam, me chamavam, me viam mesmo “escondida”, mas eu não consegui ir.
Fiquei com a consciência pesada, pensando que talvez eu nunca mais tenha a chance de estar em uma foto com a minha avó. Apesar de ela nunca ter plantado o amor em mim, fiquei triste e comecei a refletir sobre o motivo de não ter conseguido ir. Percebi que é porque me sinto inferior, sobretudo na aparência. Cresci ouvindo algumas pessoas de lá dizerem que minhas irmãs eram bonitas e eu não. Isso me deixou ainda mais triste.
Percebi que eu estava me encolhendo na cadeira para ver se ninguém me olhava ou reparava em mim. Comemoraram o aniversário da minha avó e teve um momento de oração. Eu desabei. Chorei de soluçar. A pessoa que tentou se esconder, se encolher, chorou na frente de todo mundo que estava ali. Um choro doído, daqueles que poucas pessoas já presenciaram.
Percebi que ando me encolhendo em todos os lugares.
Hoje eu não recebi uma mensagem sequer no celular. Somos solitários, mas isso não deixa de doer. Assim como doem todos os músculos e a cabeça quase todos os dias. O corpo não suporta tanto encolhimento. Sinto que, a qualquer momento, tudo vai parar: corpo e mente.
É uma exaustão em um grau tão grande que, da última vez que cheguei nisso, fiquei praticamente um ano de cama. Não comia, tinha muito medo e só conseguia dormir quando o dia clareava.
Estou colocando tudo em um limite muito perigoso. Mas eu não posso desistir ou dar um tempo de tudo na minha vida. Talvez, se eu fizer isso, eu não volte mais…
sábado, 9 de maio de 2026
00:23
São 00:23 de um domingo. Fui a um musical do Djavan no teatro. Foi lindo, mas meus músculos estão doendo de tanto se contraírem por eu estar em público, cercada de pessoas desconhecidas. Tomei um daqueles banhos bem quentes que me trazem conforto e, depois, entrei em uma espécie de hipotermia. Estou enrolada nas cobertas como se do lado de fora estivesse geando… ou talvez seja dentro de mim. Eu não sei dizer.
Pensei em você o dia inteiro e senti que você também estava pensando em mim. Era uma energia impossível de passar despercebida. Não sei a razão ou o motivo disso, mas também… que diferença faria?
Eu daria muitas coisas, talvez todas as minhas coisas, para me sentir envolvida por dois braços e ouvir um coração bater perto do meu ouvido. Um abraço que me esperasse ansiosamente. Eu faria dele meu lar. E, se pudesse escolher um último pedido antes de morrer, seria partir dentro de um abraço quente." Você desagua em mim e eu oceano"
quinta-feira, 7 de maio de 2026
Saudade
Vô, eu tô com saudade. Com muita saudade. Eu sei que o tempo tem passado rápido demais, mas sempre que coisas importantes acontecem, sejam elas tristes ou felizes, eu penso: o que meu avô acharia disso se ele estivesse aqui?
Você ainda falta na mesa, nos retratos, na sua cadeira, no seu cochilo depois do almoço. Minha avó passou para o seu lado da cama e dorme lá desde que você partiu naquele domingo de julho. Eu me lembro de quantas vezes chorei com medo de perder vocês, já que a velhice foi se aproximando, e quando vi seu nome na sala de velório eu paralisei. Pela única vez até aqui, foi uma das, ou talvez a pior dor que já senti.
Te ver ir embora me fez perder o chão debaixo dos meus pés, como se eu caísse diretamente em um buraco muito escuro. Ninguém mais foi o mesmo. As pessoas têm receio de falar do senhor, mas eu sempre lembro e falo, porque o senhor é muito vivo em mim.
Minha avó tem envelhecido rápido demais, e isso tem doído no meu coração, porque eu tive que deixar ela lá, vô, e eu não queria deixar.
Vô, eu ando tão cansada… e lembro de você me dizendo: “Pensa positivo, Angelina.” Mas tem sido difícil demais pensar positivo, vô. Eu tô com saudade e eu sinto medo. Não da morte, mas da vida. É uma dor que eu não sei de onde vem, e fazer o básico tem sido como subir uma montanha.
Não se preocupe com esse choro, é só pro peito não explodir. Eu estou mais cansada do que as pessoas possam imaginar e tenho medo de decepcionar.
Desculpa… não consigo mais escrever.
Pra sempre,
sua neguinha Angelina.
terça-feira, 5 de maio de 2026
Não valeu a pena !
Estamos sendo engolidos pelo buraco negro do sistema, onde o ter se sobressai de forma contundente e explícita. Ninguém quer mais saber quem é você, se você gosta do pôr do sol, qual sua cor favorita. Você ama os animais? Gosta de natureza? Prefere rio ou mar? Gosta dos dois? Quem é a pessoa de quem você mais sente saudade? Você se emociona com facilidade? Do que tem medo? Como foi sua infância? Do que mais sente saudade dessa época e o que apagaria para sempre? Você gosta que mexam nos seus cabelos? Qual seu cheiro preferido no mundo? Gosta de arte? Você gosta de fogueira? E de céu estrelado?
As pessoas já se apresentam por suas profissões e status sociais, e nós vamos ficando perdidos porque não estamos nos encaixando. Quando uma peça não se encaixa de jeito nenhum no quebra-cabeça, ela é descartada.
Hoje assisti a um filme que me indicaram. Confesso que comecei várias vezes e dormia, mas terminei. O filme se chama “Dias Perfeitos”. Tem pouquíssimas falas, e quem não tem em si sensibilidade e intensidade desiste nos primeiros minutos. Ele esfrega na nossa face, no nosso ego, que não precisamos de quase nada do que temos e que, quando você sai um pouco que seja desse sistema, de alguma maneira se torna mais livre. Não está fissurado por dinheiro, mas é produtivo. Fala pouco, mas observa detalhes que passam despercebidos pela maioria de nós. Ouve sua fita e nem sabe o que é Spotify. A cama é simples, mas sempre tem um livro ao lado.
Ali está escancarado o desapego e a humildade do ser, como se ele estivesse nu da maioria dos pesos que muito nos custam para sustentar. Eu me questiono: vale a pena? Ele aceita a solidão e faz dela sua amiga. Nas miudezas do dia a dia, ele dança com ela. Ele entendeu que nós somos solitários mesmo, e o que muda é o que vamos fazer com isso.
Se alguém perguntar quem é você, que você não responda “sou fulano, tenho tantos anos e sou advogado, médico, professor”, seja lá o que você for. Que você possa responder “sou fulano e amo o mar”, “sou fulano e sou apaixonado pelo pôr do sol”.
Às vezes eu acho que só seria realmente feliz com uma casa, com um rio passando, o barulho dos animais, a água correndo, e que eu tivesse o essencial para viver. A loucura da busca social me arrebentou, e eu estou absurdamente exausta de ser produtiva para a sociedade e estar morrendo, a cada dia, um pedacinho. E quando tudo desaparecer, eu vou te dizer que não valeu a pena.
segunda-feira, 4 de maio de 2026
Como pode
O desânimo me pegou até na escrita, o lugar onde deságuo, desmorono, sou fraca e não consigo mais, o lugar onde sou a inteireza da dor, onde não há fuga, onde posso não ser funcional porque isso está me custando talvez a vida. O cansaço não é o natural, é um cansaço profundo, no mais fundo de mim, um lugar a que ninguém chega.
Os dias estão sendo difíceis, tenho dificuldade de levantar, sonolência excessiva, muitos sonhos, a cabeça dói diariamente e minha memória está parecendo a da Dory do desenho Procurando Nemo, e eu não tenho vontade de continuar a nadar. Está acontecendo muita coisa ao meu redor e praticamente ninguém sabe que sou o apoio de muitas pessoas, mas acontece que estou lutando para estar aqui amanhã e não espero que ninguém entenda isso. É um esforço tão sobrenatural que me faltam forças para ser o que eu quero e preciso ser para as pessoas, mas é que não estou conseguindo ser o mínimo para mim mesma. Não é falta de vontade, é falta de força mesmo.
Criei um bloqueio afetivo tão forte que me sinto como se estivesse me despedindo das pessoas, e meu coração se esvaziando como quem abre o pino da boia no meio do mar. Carregar um elefante nas costas para todo lado é muito difícil. Esquece isso, esquece aquilo, você consegue, isso vai passar, e lá se vão cerca de 21 anos esperando o dia em que o elefante crie asas e vá embora, mas obviamente elefantes não possuem asas.
Parece que meu peito vai explodir e meu corpo vai parar, porque ele está absolutamente exausto e minha mente não para nem quando estou dormindo. Parece que a poesia me foi roubada e, para todo lado que olho, vejo pedra. Eu me lembrei que, quando estava com você, ainda tinha medo da morte. Lembrei disso hoje como um sobressalto, e o significado disso é mais profundo do que eu poderia expressar, porque não ter medo da morte é algo que nunca imaginei sentir. Eu morria de medo de morrer, e hoje subo a rua escura em passos lentos.
Sabe quando uma criança está aprendendo a andar? Ela acha que está em pé, rumo ao caminho certo, e de repente cai. As pessoas sabem de mim o que digo, e eu digo pouco. Deve ser chato ouvir as mesmas coisas, então guardo para mim. Nem escrevo, porque é muito meu. Ir me desprendendo da vida e das pessoas é uma tarefa difícil para mim, apesar de sentir que faço isso, mas é a exaustão de existir. Tenho vontade de deitar, dormir e abrir os olhos em um mundo de regeneração, sei lá, deve existir um lugar melhor. Presa na gaiola com a porta aberta, como pode isso?
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