terça-feira, 5 de maio de 2026
Não valeu a pena !
Estamos sendo engolidos pelo buraco negro do sistema, onde o ter se sobressai de forma contundente e explícita. Ninguém quer mais saber quem é você, se você gosta do pôr do sol, qual sua cor favorita. Você ama os animais? Gosta de natureza? Prefere rio ou mar? Gosta dos dois? Quem é a pessoa de quem você mais sente saudade? Você se emociona com facilidade? Do que tem medo? Como foi sua infância? Do que mais sente saudade dessa época e o que apagaria para sempre? Você gosta que mexam nos seus cabelos? Qual seu cheiro preferido no mundo? Gosta de arte? Você gosta de fogueira? E de céu estrelado?
As pessoas já se apresentam por suas profissões e status sociais, e nós vamos ficando perdidos porque não estamos nos encaixando. Quando uma peça não se encaixa de jeito nenhum no quebra-cabeça, ela é descartada.
Hoje assisti a um filme que me indicaram. Confesso que comecei várias vezes e dormia, mas terminei. O filme se chama “Dias Perfeitos”. Tem pouquíssimas falas, e quem não tem em si sensibilidade e intensidade desiste nos primeiros minutos. Ele esfrega na nossa face, no nosso ego, que não precisamos de quase nada do que temos e que, quando você sai um pouco que seja desse sistema, de alguma maneira se torna mais livre. Não está fissurado por dinheiro, mas é produtivo. Fala pouco, mas observa detalhes que passam despercebidos pela maioria de nós. Ouve sua fita e nem sabe o que é Spotify. A cama é simples, mas sempre tem um livro ao lado.
Ali está escancarado o desapego e a humildade do ser, como se ele estivesse nu da maioria dos pesos que muito nos custam para sustentar. Eu me questiono: vale a pena? Ele aceita a solidão e faz dela sua amiga. Nas miudezas do dia a dia, ele dança com ela. Ele entendeu que nós somos solitários mesmo, e o que muda é o que vamos fazer com isso.
Se alguém perguntar quem é você, que você não responda “sou fulano, tenho tantos anos e sou advogado, médico, professor”, seja lá o que você for. Que você possa responder “sou fulano e amo o mar”, “sou fulano e sou apaixonado pelo pôr do sol”.
Às vezes eu acho que só seria realmente feliz com uma casa, com um rio passando, o barulho dos animais, a água correndo, e que eu tivesse o essencial para viver. A loucura da busca social me arrebentou, e eu estou absurdamente exausta de ser produtiva para a sociedade e estar morrendo, a cada dia, um pedacinho. E quando tudo desaparecer, eu vou te dizer que não valeu a pena.
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