quinta-feira, 7 de maio de 2026

Saudade

Vô, eu tô com saudade. Com muita saudade. Eu sei que o tempo tem passado rápido demais, mas sempre que coisas importantes acontecem, sejam elas tristes ou felizes, eu penso: o que meu avô acharia disso se ele estivesse aqui? Você ainda falta na mesa, nos retratos, na sua cadeira, no seu cochilo depois do almoço. Minha avó passou para o seu lado da cama e dorme lá desde que você partiu naquele domingo de julho. Eu me lembro de quantas vezes chorei com medo de perder vocês, já que a velhice foi se aproximando, e quando vi seu nome na sala de velório eu paralisei. Pela única vez até aqui, foi uma das, ou talvez a pior dor que já senti. Te ver ir embora me fez perder o chão debaixo dos meus pés, como se eu caísse diretamente em um buraco muito escuro. Ninguém mais foi o mesmo. As pessoas têm receio de falar do senhor, mas eu sempre lembro e falo, porque o senhor é muito vivo em mim. Minha avó tem envelhecido rápido demais, e isso tem doído no meu coração, porque eu tive que deixar ela lá, vô, e eu não queria deixar. Vô, eu ando tão cansada… e lembro de você me dizendo: “Pensa positivo, Angelina.” Mas tem sido difícil demais pensar positivo, vô. Eu tô com saudade e eu sinto medo. Não da morte, mas da vida. É uma dor que eu não sei de onde vem, e fazer o básico tem sido como subir uma montanha. Não se preocupe com esse choro, é só pro peito não explodir. Eu estou mais cansada do que as pessoas possam imaginar e tenho medo de decepcionar. Desculpa… não consigo mais escrever. Pra sempre, sua neguinha Angelina.

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