quarta-feira, 13 de maio de 2026

Quando se volta pra casa

Duas noites turbulentas em que parecia que nenhuma medicação estava no meu corpo. Sim, o dia chegou: eu não consegui levantar e ir trabalhar. Tentei, mas meu corpo e minha mente estafaram sem dormir de uma tal maneira que, pela primeira vez, não levantei para ir ao trabalho. Passei o dia na cama e ainda me obriguei a ir para a faculdade. Tinha um trabalho, não podia ser irresponsável. Quando me permiti ser, foi um grande estrago em minha vida, e eu achando que não podia cometer um erro. Saí arrastando por aí a irresponsabilidade, todas as consequências e um preço imensurável que paguei e ainda pago. Caro demais, muito caro. Talvez possa me custar o resto da minha história. Queria me perdoar com a facilidade com que perdoo. Posso afirmar que não existe uma pessoa que me fez mal ou me magoou por quem eu tenha maus sentimentos, mas eu não me perdoo e me puno incessantemente. Eu errei feio, feio demais para mim, entende? Não entendo até hoje como eu pude. Tudo bem, estava tudo péssimo, eu estava morrendo no sentido literal da palavra, mas talvez tivesse sido melhor do que viver com tantos traumas e essa culpa que parece fundida em mim. Quando acho que me livrei, ela vem como uma ventania, arrebentando a porta e me pressionando contra a parede de uma forma em que não respiro e morro a conta-gotas. Como diz a música: “Tá difícil ser eu sem reclamar de tudo”. Meu corpo está sem energia. Penso e não consigo colocar nada em prática. Não tenho vontade de me levantar da cama. Aqui é o lugar em que espero o dia inteiro para estar: no silêncio escuro do meu quarto vazio. Tão vazio que me preenche inteira. Olha só que paradoxo: o vazio encher. Comprime principalmente os pulmões e meu miúdo coração, miudinho, miudinho. Minha criança deve estar tão decepcionada comigo que, às vezes, sinto vergonha dela. Prometi tantas coisas a ela e virei isso aqui. Não tem casa feliz, não tem profissão, não tem um amor, não tem uma criança com meus olhos, não tem alegria em mim. Há muita culpa. Não sorrio. Choro muito, mas não é aquele choro apenas de emoção que nós sempre tivemos, é um choro doído demais. Há péssimos pensamentos, dos quais eu nem tenho coragem de escrevê-los. Quanta dor alguém consegue aguentar? Assisti Criaturas Extraordinariamente Brilhantes e até os animais, animal que seus tentáculos têm uma capacidade sensorial e de processamento impressionantes , sofrem, buscam por algo. E que bom que ele conseguiu voltar para casa. Deve ser muito bom voltar para casa, para o tão sonhado fundo do mar. Parece que só há paz quando se volta para casa.

Nenhum comentário:

Postar um comentário