segunda-feira, 11 de maio de 2026

Encolhendo

O que mais me faz falta, antes da depressão, da ansiedade e de tudo isso me engolirem, é a minha vida social. Eu era uma pessoa comunicativa, brincalhona, tinha tantos amigos que minha casa vivia cheia. Gostava de sair para dançar, eu ainda gostava de mim. Uma amiga está me chamando há meses para sair e eu sempre digo que vou ver. Eu não entendia muito bem por que nunca aceito. Na verdade, achei que era apenas o medo das crises de pânico que me dão e fazem todos os meus músculos doerem. Ontem, Dia das Mães, na casa da minha avó, que está com Alzheimer, eu ainda brinquei com minha mãe dizendo que queria ficar só com ela e com minhas irmãs. Eu não queria ir. Foi todo mundo, e quiseram tirar fotos com a minha avó. Deviam ter umas 25 pessoas, filhos, netos… todo mundo foi descendo e eu me escondendo. Passavam, me chamavam, me viam mesmo “escondida”, mas eu não consegui ir. Fiquei com a consciência pesada, pensando que talvez eu nunca mais tenha a chance de estar em uma foto com a minha avó. Apesar de ela nunca ter plantado o amor em mim, fiquei triste e comecei a refletir sobre o motivo de não ter conseguido ir. Percebi que é porque me sinto inferior, sobretudo na aparência. Cresci ouvindo algumas pessoas de lá dizerem que minhas irmãs eram bonitas e eu não. Isso me deixou ainda mais triste. Percebi que eu estava me encolhendo na cadeira para ver se ninguém me olhava ou reparava em mim. Comemoraram o aniversário da minha avó e teve um momento de oração. Eu desabei. Chorei de soluçar. A pessoa que tentou se esconder, se encolher, chorou na frente de todo mundo que estava ali. Um choro doído, daqueles que poucas pessoas já presenciaram. Percebi que ando me encolhendo em todos os lugares. Hoje eu não recebi uma mensagem sequer no celular. Somos solitários, mas isso não deixa de doer. Assim como doem todos os músculos e a cabeça quase todos os dias. O corpo não suporta tanto encolhimento. Sinto que, a qualquer momento, tudo vai parar: corpo e mente. É uma exaustão em um grau tão grande que, da última vez que cheguei nisso, fiquei praticamente um ano de cama. Não comia, tinha muito medo e só conseguia dormir quando o dia clareava. Estou colocando tudo em um limite muito perigoso. Mas eu não posso desistir ou dar um tempo de tudo na minha vida. Talvez, se eu fizer isso, eu não volte mais…

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