quinta-feira, 12 de junho de 2025
9 minutos
9 minutos, 191 metros, 322 km/h e mais de 290 pessoas desencarnando. Um único sobrevivente ocupava uma daquelas poltronas. Mais de 290 histórias sendo mudadas em poucos minutos. Histórias daqueles que partiram e de tantos que ficaram com a ausência repentina, inesperada.
Passo em frente a um cemitério neste exato momento em que escrevo, a caminho de outro compromisso. Quantos amores de alguém estão ali? Quantas almas perdidas que não entendem, que não aceitam e ficam vagando no escuro, no vazio.
A morte é um dos silêncios mais barulhentos que existem — ou o barulho mais silencioso e doloroso na vida de um ser humano.
Se alguém leu, viu ou ouviu essa notícia — ou quando qualquer pessoa perde alguém que ama — e não sente nada, há algo de muito errado. Não tem como algo não se movimentar dentro de nós. Não tem como a dor do outro não fazer barulho em você.
Vejo balões em forma de coração por toda parte. Minha rede social foi tomada por declarações. A prova da obviedade de que o mundo não para, mesmo diante de tamanha tragédia. Mesmo eu achando que ele deveria parar, na utopia que ainda habita em mim. Assim como quando perdi meu avô, assim como tantas pessoas perderam aqueles que amavam. A gente sente que tudo deveria parar.
Mas não para. E nunca vai. O que assusta mesmo é ver a frieza da maioria, que não sente nada. Como quem folheia um encarte de shopping.
Parafraseando: “O mundo está ao contrário e QUASE NINGUÉM reparou.”
Angelina
quarta-feira, 11 de junho de 2025
Saudade
Que saudade de você.
Uma saudade quieta e, ao mesmo tempo, barulhenta dentro de mim.
Saudade de riozinho calmo, de chuva de verão… e, de repente, cachoeira, tempestade com raios e trovões.
Saudade de te ver chegar e acreditar, no fundo, que você jamais partiria.
Do seu sorriso bonito, céu de fim de tarde com cores que ninguém consegue descrever, só sentir.
Saudade do seu olhar de águia — atento, livre — e, ao mesmo tempo, daqueles gatinhos mansos, domesticados, que se aninham no peito da gente.
Saudade de você sendo você.
Saudade de você na janela, de você existindo, de saber que amanhã te veria, e depois, e depois, e depois…
E sempre, e sempre…
Saudade de você.
Angelina.
terça-feira, 10 de junho de 2025
Um dia frio , um bom lugar ….
O céu amanheceu cinza, o tempo frio e, ainda assim, as araras me dão bom dia. Acho que elas estão me mostrando que algumas coisas na vida podem ser ressignificadas, pois todas as vezes que eu as ouvia ultimamente sentia uma angústia absurda. E, ao invés de elas sumirem, começaram a aparecer com muito mais frequência. Não há um dia sequer em que eu durma ou acorde sem elas.
Hoje elas estavam meio agitadinhas e eu disse: “Bom dia, lindezas”, e sorri sozinha, pensando o quanto a natureza é perfeita. A cachorrinha da vizinha, que é louca por mim, me recebeu no portão enquanto eu esperava o Uber. Chiquinha não pode me ver: larga as tutoras dela, que são mãe e filha, na hora; se requebra, pula, abana o rabinho e fica feliz como se eu fosse tão importante aqui. E, por aqueles instantes, eu me sinto. O Uber chega, eu entro e ela fica me olhando de longe, até eu desaparecer.
O frio me deixa um pouco mais triste que o normal. Enquanto olho para o céu, dois pássaros — que eu não sei a espécie — cantam no telhado. Um canto tão triste que, só pra variar um pouco, escorrem algumas lágrimas.
Estava lendo sobre como essas datas, como o dia 12 de junho, afetam nós, mulheres. E faz total sentido, pois falava da mulher solteira, da mulher em um relacionamento tóxico e de tantos outros vieses. Eu sou questionada quase que diariamente se sou casada, se namoro, se fico, se converso com alguém — como se isso fosse algo obrigatório. E, quando eu gabarito todas as perguntas com um grande NÃO, começam as perguntas e afirmações, querendo justificativas. Eu não as devo a ninguém.
Eu detesto casualidades. Nunca gostei. Já até tentei e não gostei nem um pouco. E, nesses meses, eu só estou tentando sobreviver, de fato. Eu até disse, em outro texto, de uma carta que está escrita em alguma caixa que não foi desfeita. Eu escrevi para alguém que eu não sei quem é e muito menos se eu vou chegar a entregar para alguém. Mas, se eu entregar, será porque eu acho que, enfim, é pra sempre.
Me perguntaram: “Você gosta de ser solteira?”
Não, cara. Eu tenho 35 anos. Eu gostaria de estar grudada no frio com o amor da minha vida, sendo feliz — talvez com uma criança correndo pela casa, junto com nossos pets! Mas eu não vou sair com qualquer pessoa. Não vou ficar com alguém só porque não gosto de ficar sozinha. Eu não estou querendo nem conversar com ninguém romanticamente. Não tem espaço para nada passageiro em mim. Ou talvez não haja espaço para nada. Eu nunca fiz isso e não seria agora.
Voltei para uma rede social depois de seis meses, praticamente, e nunca a achei tão patética quanto tenho achado. As pessoas parecem objetos, e isso me assusta bastante. Todo mundo lá é feliz, bem-sucedido e sem problemas na vida. Parecem robôs!
Além de me deixar mais triste, o frio me deixa mais introspectiva e pensativa — se é que isso pode ser possível. Mas, em um desses momentos, eu percebi que alguns ciclos se fecharam dentro de mim, de vez. E isso é muito bom. Independente do que aconteça comigo, eu conseguindo ou não, fechar ciclos era essencial. E isso aconteceu.
Angelina.
"A gente passa a vida pelejando com o dilema de existir ou desistir, com o que é bom e o que é ruim, o certo e o errado, a morte e a vida. Essas coisas não se separam. O lugar que dói é o mesmo que sente arrepios. É no corpo, no amor e na liberdade de escolher as coisas que a gente fica inteiro ou despedaçado. Então, pede para a parte boa dar conta da parte ruim."
Carla Madeira, Tudo é Rio
"Era frio. Não sei dizer se fazia mais frio do lado de fora da minha blusa ou dentro do meu coração. Provavelmente competiam."
Caio Fernando Abreu
domingo, 8 de junho de 2025
Maria Bethânia
Brasília, 9 de novembro de 2024
Bethânia me emocionou desde a primeira vez em que ouvi sua voz. Nunca soube explicar a forma como seu canto tocava cada pedacinho do meu corpo e da minha alma. Quando sua voz atravessa meus ouvidos, parece alcançar diretamente o meu espírito. Eu choro, contemplo, me arrepio, canto… e quando ela declama — é indescritível.
Já tive sonhos. Não muitos, mas alguns. E ouvir Bethânia de cima de um palco, onde ela pisa descalça no sagrado do dom que Deus e a espiritualidade lhe concederam, era um deles. Houve duas oportunidades antes dessa, mas, em ambas, não tive condições financeiras de realizar. Na primeira, eu ainda cursava a faculdade; na segunda, estava em São Paulo, fazendo pós-graduação.
Quando soube que ela faria uma turnê ao lado do irmão, pensei: será que, desta vez, eu vou conseguir? Minha amiga ficou na fila online para comprar ingressos para nós duas. E eu, supersticiosa como sou, pensei: se der certo, é porque é pra ser. Os ingressos se esgotaram a uma velocidade assustadora nas áreas próximas ao palco, mas ela conseguiu para nós duas!
Como foi comprado com muita antecedência, cogitei desistir diversas vezes. Cheguei a pensar em entregar meu ingresso para a namorada dela — na época, elas ainda não estavam juntas quando compramos — e, como os ingressos já haviam se esgotado, ela só conseguiu um lugar na arquibancada, bem distante de nós. Essa indecisão me acompanhou até quase o dia da viagem para Brasília.
O medo de ter uma crise de pânico em meio a tanta gente tomou conta de mim. Fui apreensiva no ônibus. No quarto do hotel, conversamos sobre espiritualidade até quase a hora de sair para o show, e de alguma forma fui me acalmando.
Chegamos ao estádio, e naquele instante acontecia um pôr do sol tão lindo que fechei os olhos, senti os raios atravessando meu corpo e chorei. O público foi chegando rápido. Tive algumas crises, mas vi uma bombeira perto de mim e escolhi um lugar estratégico para, se algo saísse do controle, conseguir sair sem atrapalhar a experiência de ninguém.
Começou a chover. Coloquei minha capa lilás, que havia comprado prevendo isso — mas mal sabia eu que aquelas gotas fariam toda a diferença. Como a angústia era grande, arranquei a capa pouco depois. E então, eles entram no palco. Podem achar que é exagero, mas quando vi Maria Bethânia, juro que enxerguei uma luz ao redor dela. Olhei para o alto e vi a chuva cair, enquanto sua voz me invadia — e eu desabei.
Gostaria que todas as pessoas que me amam estivessem ali, me vendo, porque eu me senti viva. Por quase duas horas, meu corpo, minha alma e meu espírito ocupavam o mesmo espaço, e eu nem sabia mais dizer quando havia sentido isso pela última vez.
Deixei a chuva me molhar. Era como se Deus estivesse se derramando em mim. Cada canção era uma invasão sobrenatural. E, sem dúvidas, quando cantaram para a mãe, música essa entoada duas vezes — como uma mãe merecia ser reverenciada — lembrei da minha mãe, da minha avó e de tantas mulheres e matriarcas que nem conheci. Aquela canção, que mais parecia uma oração, guiou a minha para dentro de mim.
As músicas de amor também me arrebataram, e eu pensava: como alguém escreveu isso? Meu Deus! Mas foi quando Bethânia cantou para as entidades, com os pés descalços, olhos fechados, rosto e postura transfigurados, que eu me conectei. Jurema parecia querer atravessar aquele estádio inteiro, com suas ervas e seu arco e flecha, curando e dançando. Era tanta energia que eu já não distinguia mais nada.
A chuva se intensificou. Enquanto a maioria se protegia, eu olhava para o céu, chorava, agradecia e mal acreditava que tudo aquilo estava acontecendo. O corpo se arrepiava, o coração queimava, e eu disse à minha amiga: morreria aqui agora com uma paz que não lembrava mais como era. Como é possível viver e não se sentir viva?
Foram mais de duas horas pulsantes, em que cada poro, cada célula minha foi invadida por um amor que só posso descrever como o colo de Deus. Passei boa parte do show olhando para o céu, sentindo cada gota se misturar às minhas lágrimas, transbordando sentimentos, gratidão e existência.
Eu estava completamente viva. Pode parecer pouco, mas para quem se sente morta, duas horas de vida são uma eternidade onde se deseja morar. Eu flutuava, olhando para o céu — o lugar onde eu queria viver.
Angelina
“Dor é o lugar mais fundo
É o umbigo do mundo
É o fundo do mar”
sábado, 7 de junho de 2025
Onde nascem os beijos
“Eu acho que os beijos são dados na boca porque é onde brotam as palavras.
Se eu te beijasses a ponta dos dedos, estaria buscando uma carícia; se te beijasse a sola do sapato, estaria buscando um caminho.
Se te beijasse as pálpebras enquanto dormes, estaria pedindo permissão para entrar nos teus sonhos, mas estou te beijando os lábios, porque quero ouvir minhas palavras saírem de ti, outra vez.
Se te beijasse a planta dos pés, buscaria um passo em falso. Se te beijasse a parte interna do cotovelo, buscaria teus esconderijos. Se te beijasse a sombra, não saberia o que busco, mas estaria tão perto.
Se te buscasse essa noite, beijaria cada estranho até te encontrar. Outra vez.
Se eu te beijasse, seria como algo escorregadio sobre uma tela de carne que transborda e se espalha pelas vigas da minha casa. Subiria escorregadia por um muro, separando a pele da carne que se injeta em uma estrutura impessoal chamada nome.
Estaria consumida antes mesmo de abrir os lábios. Se te beijasse e não pudéssemos fazer nada por esta noite, por esta morte.
Por isso, me mantenho em silêncio. Em silêncio, atenta, consciente, alerta, se, por acaso, houver indícios de encontrar o ponto médio entre os muros onde não nos machucamos, onde só nos damos conta de até onde o beijo nos leva... antes que chegue a raiva”. Elsa Moreno
quinta-feira, 5 de junho de 2025
Frio nos ossos
A mente arrebentou o corpo. Sinto mal-estar por um, dois dias — febre, dor insuportável em cada milímetro do corpo. Luto para não ir ao médico, querendo me entregar, de fato, ao que quer que fosse, como uma desculpa de que uma doença me acometeu e eu não aguentei. Vou ao hospital meio arrastada: influenza. Tomo remédio na veia, mandam-me embora para casa sem qualquer receita. Minha avó me entope de chá e remédio caseiro enquanto eu ainda trabalho, de máscara e cansaço.
Tenho uma leve melhora e penso que tudo estava bem. Não comer direito já virou algo comum, fui seguindo. O exame mostrou leucopenia, imunidade baixa pela primeira vez depois de tantos anos. Quando achei que estava melhor, bum, a febre veio com tudo e a dor que me impedia de me mexer. Não conseguia nem ir ao médico. No outro dia, acordo cedo (já sem voz há alguns dias) para ir trabalhar, mas sou impedida e obrigada a ir ao hospital novamente. A influenza deixou rastros: bronquite, que eu nunca tive na vida, e uma sinusite aguda.
Entre injeções intramusculares, endovenosas, depois de ser furada inúmeras vezes — como de costume — e uma lista de medicamentos para tomar em casa, eu não me preocupei comigo nem por um segundo. Mas sim com meus pais. Tudo começou com minha mãe. Ela já estava melhorando e, até hoje, não colocou mais um cigarro na boca. Sou muito grata por isso. Oro desde a infância para ela parar, e ela sempre volta. Enfim… entro com meu pai e o obrigo, literalmente, a fazer exame também: pneumonia.
Eu não ligo nem um pouco para o que estava acontecendo comigo, mas ligo o alerta de desespero quando eles estão envolvidos. Esse final de semana entrou para a lista dos mais difíceis da minha vida. Uma angústia me tomou de um jeito que eu não conseguia nem dormir para aliviar um pouco. O choro de costume, mas a angústia estava ultrapassando. Que semana difícil essa. Tento compreender o que está acontecendo, mas não consigo chegar a lugar algum.
Eu sei que tem sido insuportável a vida, viver… e dói dizer isso porque eu paralisei. Mas os últimos dias têm sido mais intensos e eu não sei a motivação. Minha intuição — que continua fortíssima, apesar das desesperanças e da vontade de não estar aqui — me dá alguns sinais, mas eu só posso ignorá-los. Sei que isso também é uma escolha. Nada me impede de me movimentar, mas há coisas que precisam apenas ser seguidas em frente. Se é o certo ou o errado, eu não sei. Talvez seja só o necessário.
“Tudo passa, você vai ver, tudo passa.” Ela tinha razão. A vida dá um jeito de manter a gente vivo mesmo quando a gente morre de dor. Será? O que tem me mantido é a covardia do impacto que causaria na vida dos que eu amo demais. Do frio nos ossos à possibilidade de destruir a vida deles… isso me mantém, ainda que eu já tenha desistido.
Leio sempre no meu braço: “cont,nue”, olho os animais espalhados e dou uma espiada na Jurema pelo espelho. Tenho evitado me olhar. Os ossos expostos, o olhar sem o pulsar da vida e da esperança. Sei que as preces de muitas pessoas me prendem aqui com uma força sobrenatural e eu não consigo agradecer, porque a dor cega.
A vida tem me feito tantos convites a viver, a romper a dor como quem quebra as paredes e arrebenta os telhados. Mas eu estou paralisada há tanto tempo que pareço aquelas estátuas de museu: onde as pessoas olham, uns percebem, outros não se interessam… e eu continuo parada, estática. Ressoa agora na minha mente: “todos os dias quando acordo, não tenho mais o tempo que passou…”
A minha casa vai começar a ser construída, e eu fico pensando: será que eu não deveria dizer para não construir? Eu não sei se vou conseguir usufruir. Queria poder ir embora e que eles aceitassem, e eu pudesse vê-los… mas eu sei que esse cenário é impossível. Me sinto egoísta, sabendo que existem tantas pessoas lutando por sua vida, e eu torço tanto para que elas vençam, torço com todo meu coração.
A dor do outro sempre me doeu mais do que a minha própria dor, e isso faz com que viver seja ainda mais difícil. Entendi que existem coisas em nossas vidas para as quais não adianta ficar buscando respostas ou significados — mesmo isso sendo difícil para mim, que sempre fui curiosa e quis saber o profundo de tudo.
Ir embora sempre me pareceu a coisa certa a fazer. E em certas ocasiões, foi mesmo — ainda que tenha sido difícil, ainda que tenha doído por anos. Mas foi o certo. Eu só penso se, em todas, foi mesmo o certo. Querer saber a resposta de tudo, a profundidade de tudo, pode fazer com que a gente não enxergue as coisas com a clareza necessária. Às vezes, a pessoa está sendo o mais profundo que consegue naquele momento — e você também. E o que ficou por dizer ou por fazer foi pelo simples fato de que o outro também não estava bem.
O diálogo parece ser feito em línguas diferentes, tudo fica turvo, ninguém enxerga mais nada com clareza , como um carro dirigindo em uma tempestade. E depois que viramos a esquina, pode ser tarde demais para fazer o retorno. Quando pensamos na possibilidade do fim, tudo se passa na nossa mente. Você tenta resolver o que ficou por resolver, continua um diálogo ou uma briga mental, lembra de coisas importantes que não disse ou deixou passar, quer deixar tudo claro, se defender ou esclarecer o que foi injustamente dito. Mas isso é ilusório. Não dá para mudar nada. O que aconteceu já foi, construiu quem você é hoje — seja bom ou ruim. Tudo faz parte de você.
Você aprende que não pode mudar o que ninguém pensa sobre você, muito menos tentar prender quem quer que seja na sua vida. É fácil? Nunca será. Eu não acho fácil deixar ir ou ir embora. E se eu for embora desse mundão, vou com a certeza de que eu tentei, como eu pude.
Enquanto eu escrevia, uma pessoa passou por mim e disse:
— Você não está bem.
Eu respondi:
— Há muito tempo…
E dei um sorriso sem graça, com os olhos lacrimejando. Ela olhou nos meus olhos e disse:
— Você é uma pessoa tão linda, você é tão boa… me dói ver você vivendo dessa forma.
Eu disse:
— Dói em mim também.
Ela tem uma filha alcoolista, passou por tantas coisas difíceis, perdeu o amor da vida dela na pandemia… e não se endureceu. Me senti tão envergonhada e, ao mesmo tempo, acolhida por seu olhar.Outra pessoa estava no meu pé para fazer o Enem e tentar medicina, disse a ela que estava tentando voltar à faculdade mas que nesse momento eu só estava tentando chegar até ao final do dia e ela me disse algo que está rodopiando na minha cabeça: " Você precisa querer um pouco mais pra você Taynã, não é possível que você não se enxergue pelo
amor de Deus! e nós não temos intimidade alguma " Eu fiquei parada olhando pra ela só querendo chorar e pensando o quanto eu era pequena na minha cabeça,o quanto eu me diminui por longos anos até desaparecer.
Deus, espiritualidade… eu os amo. Sou tão grata porque, mesmo eu tendo desistido de mim mesma, vocês não desistem. E vocês sabem de quem e do que eu estou falando. Não quero expor.
Sinto falta até do meu tipo de escrita, que não era essa. E, por vezes, penso em nunca mais escrever uma palavra… mas tem dias em que só elas podem me salvar.
Angelina
“A tristeza escraviza, nos faz dependentes de que alguma coisa aconteça, nos obriga a esperar por um olhar, um movimento, uma coragem, um amanhecer qualquer que limpe nossas águas e nos devolva a liberdade — o lugar onde a alegria encontra espaço para existir.”
terça-feira, 3 de junho de 2025
Eu te vi
"Eu te vi
eu te vi.
não de longe, não por cima, não como quem olha pra algo curioso.
eu te vi de verdade.
de um jeito que atravessa, que marca, que fica.
e às vezes eu me pergunto se você sabe disso.
se você percebeu, se você sentiu,
se você entendeu que, mesmo no meio de tudo,
eu te enxerguei.
te vi existir.
te vi carregando um peso que não deveria ser teu,
mas que o mundo colocou nas tuas costas como se fosse obrigação tua carregar.
te vi segurando a tua própria história com as mãos calejadas,
tentando não deixar ela desmoronar,
tentando não deixar ela se perder no meio de tantos olhares tortos,
de tantas palavras que cortavam,
de tantos silêncios que doíam mais do que qualquer grito.
eu te vi quando teu olhar fugia do meu.
quando teu corpo tentava se esconder dentro de si,
quando teu peito encolhia, apertado, sufocado,
e tudo que eu queria era ser abraço.
ser abrigo.
ser descanso pra você.
eu te vi se vestir de coragem todo santo dia.
e que coragem.
coragem que sangrava, que doía, que tremia…
mas que nunca te deixou ceder.
te vi segurando tua voz, às vezes com medo,
às vezes com raiva,
às vezes com tanto cansaço que parecia que até respirar era pedir demais.
e se eu te disser que eu sinto falta,
você entende?
porque não é só saudade de você aqui, perto,
é saudade de te ver sendo.
sendo você.
sendo inteiro.
sendo gigante no meio de um mundo tão pequeno pra quem você é.
às vezes eu penso…
será que eu te olhei o bastante?
será que eu te acolhi como eu queria ter te acolhido?
será que eu consegui te mostrar que, pra mim, nunca teve problema?
nunca.
nem por um segundo.
o problema nunca esteve em você.
nunca.
o problema tava lá fora.
nas vozes que te chamavam por um nome que não era o teu. nos pronomes que te feriam mais do que faca. nas tentativas constantes do mundo de te
encolher,
de te fazer voltar pra uma caixa que você já tinha queimado,
rasgado, destruído.
mas te vi.
te vi existir mesmo assim.
te vi ser.
te vi se fazer.
te vi reconstruir tua própria pele,
teu próprio nome, teu próprio espaço.
e deus, como isso foi bonito.
bonito, intenso, dolorido, enorme.
foi como ver alguém nascer de novo todos os dias, com sangue, com lágrima, com força, com amor.
e sim... te amei.
amei tua coragem, tua existência, tua bagunça, tua tentativa.
amei até teus silêncios.
até teus medos.
até tua vontade de sumir, que às vezes aparecia no meio de um abraço,
de um olhar perdido, de uma respiração pesada.
te amei no teu cansaço.
te amei na tua luta.
te amei no teu jeito torto de existir num mundo que nunca te quis inteiro.
e você foi. foi coragem, foi resistência, foi amor, foi dor, foi luz e foi sombra.
foi vida, mesmo quando parecia não caber vida aí dentro.
e eu te vi.
eu te vi quando ninguém mais quis ver.
eu te vi quando até você, às vezes, não conseguia se olhar.
e se algum dia você se perguntar · será que alguém percebeu?
será que alguém entendeu?
será que alguém viu além da casca, além da dor, além da luta?
sim.
eu vi.
vi teu corpo tentando se encaixar num espaço que sempre foi teu,
mas que o mundo tentou te roubar.
vi teus olhos baixarem quando a voz tremia. vi teus ombros pesarem quando o dia amanhecia e a coragem precisava ser vestida mais uma vez.
e vi tua beleza,
a beleza de quem se constrói sem manual,
sem aplauso, sem garantias.
a beleza de quem escolhe existir,
mesmo sabendo que existir aqui é, muitas vezes,
um ato de guerra. e se você soubesse o quanto te admirei,
o quanto te admiro...
o quanto carrego você em mim,
você entenderia por que ainda sinto tanto tua falta.
não só falta do que a gente viveu.
mas falta de te ver ser.
de te ver se fazer.
de te ver ocupando o espaço que é teu,
gritando teu nome pro mundo,
mesmo quando o mundo fingia não ouvir.
você foi, e sempre vai ser,
um dos maiores atos de coragem que eu já tive o privilégio de presenciar.
e nada, absolutamente nada,
apaga isso de mim.
porque te ver ser,
foi, e sempre vai ser,
uma das coisas mais bonitas que eu já vivi nessa vida." Ecos da Alma
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