domingo, 8 de junho de 2025

Maria Bethânia

Brasília, 9 de novembro de 2024 Bethânia me emocionou desde a primeira vez em que ouvi sua voz. Nunca soube explicar a forma como seu canto tocava cada pedacinho do meu corpo e da minha alma. Quando sua voz atravessa meus ouvidos, parece alcançar diretamente o meu espírito. Eu choro, contemplo, me arrepio, canto… e quando ela declama — é indescritível. Já tive sonhos. Não muitos, mas alguns. E ouvir Bethânia de cima de um palco, onde ela pisa descalça no sagrado do dom que Deus e a espiritualidade lhe concederam, era um deles. Houve duas oportunidades antes dessa, mas, em ambas, não tive condições financeiras de realizar. Na primeira, eu ainda cursava a faculdade; na segunda, estava em São Paulo, fazendo pós-graduação. Quando soube que ela faria uma turnê ao lado do irmão, pensei: será que, desta vez, eu vou conseguir? Minha amiga ficou na fila online para comprar ingressos para nós duas. E eu, supersticiosa como sou, pensei: se der certo, é porque é pra ser. Os ingressos se esgotaram a uma velocidade assustadora nas áreas próximas ao palco, mas ela conseguiu para nós duas! Como foi comprado com muita antecedência, cogitei desistir diversas vezes. Cheguei a pensar em entregar meu ingresso para a namorada dela — na época, elas ainda não estavam juntas quando compramos — e, como os ingressos já haviam se esgotado, ela só conseguiu um lugar na arquibancada, bem distante de nós. Essa indecisão me acompanhou até quase o dia da viagem para Brasília. O medo de ter uma crise de pânico em meio a tanta gente tomou conta de mim. Fui apreensiva no ônibus. No quarto do hotel, conversamos sobre espiritualidade até quase a hora de sair para o show, e de alguma forma fui me acalmando. Chegamos ao estádio, e naquele instante acontecia um pôr do sol tão lindo que fechei os olhos, senti os raios atravessando meu corpo e chorei. O público foi chegando rápido. Tive algumas crises, mas vi uma bombeira perto de mim e escolhi um lugar estratégico para, se algo saísse do controle, conseguir sair sem atrapalhar a experiência de ninguém. Começou a chover. Coloquei minha capa lilás, que havia comprado prevendo isso — mas mal sabia eu que aquelas gotas fariam toda a diferença. Como a angústia era grande, arranquei a capa pouco depois. E então, eles entram no palco. Podem achar que é exagero, mas quando vi Maria Bethânia, juro que enxerguei uma luz ao redor dela. Olhei para o alto e vi a chuva cair, enquanto sua voz me invadia — e eu desabei. Gostaria que todas as pessoas que me amam estivessem ali, me vendo, porque eu me senti viva. Por quase duas horas, meu corpo, minha alma e meu espírito ocupavam o mesmo espaço, e eu nem sabia mais dizer quando havia sentido isso pela última vez. Deixei a chuva me molhar. Era como se Deus estivesse se derramando em mim. Cada canção era uma invasão sobrenatural. E, sem dúvidas, quando cantaram para a mãe, música essa entoada duas vezes — como uma mãe merecia ser reverenciada — lembrei da minha mãe, da minha avó e de tantas mulheres e matriarcas que nem conheci. Aquela canção, que mais parecia uma oração, guiou a minha para dentro de mim. As músicas de amor também me arrebataram, e eu pensava: como alguém escreveu isso? Meu Deus! Mas foi quando Bethânia cantou para as entidades, com os pés descalços, olhos fechados, rosto e postura transfigurados, que eu me conectei. Jurema parecia querer atravessar aquele estádio inteiro, com suas ervas e seu arco e flecha, curando e dançando. Era tanta energia que eu já não distinguia mais nada. A chuva se intensificou. Enquanto a maioria se protegia, eu olhava para o céu, chorava, agradecia e mal acreditava que tudo aquilo estava acontecendo. O corpo se arrepiava, o coração queimava, e eu disse à minha amiga: morreria aqui agora com uma paz que não lembrava mais como era. Como é possível viver e não se sentir viva? Foram mais de duas horas pulsantes, em que cada poro, cada célula minha foi invadida por um amor que só posso descrever como o colo de Deus. Passei boa parte do show olhando para o céu, sentindo cada gota se misturar às minhas lágrimas, transbordando sentimentos, gratidão e existência. Eu estava completamente viva. Pode parecer pouco, mas para quem se sente morta, duas horas de vida são uma eternidade onde se deseja morar. Eu flutuava, olhando para o céu — o lugar onde eu queria viver. Angelina “Dor é o lugar mais fundo É o umbigo do mundo É o fundo do mar”

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