terça-feira, 10 de junho de 2025
Um dia frio , um bom lugar ….
O céu amanheceu cinza, o tempo frio e, ainda assim, as araras me dão bom dia. Acho que elas estão me mostrando que algumas coisas na vida podem ser ressignificadas, pois todas as vezes que eu as ouvia ultimamente sentia uma angústia absurda. E, ao invés de elas sumirem, começaram a aparecer com muito mais frequência. Não há um dia sequer em que eu durma ou acorde sem elas.
Hoje elas estavam meio agitadinhas e eu disse: “Bom dia, lindezas”, e sorri sozinha, pensando o quanto a natureza é perfeita. A cachorrinha da vizinha, que é louca por mim, me recebeu no portão enquanto eu esperava o Uber. Chiquinha não pode me ver: larga as tutoras dela, que são mãe e filha, na hora; se requebra, pula, abana o rabinho e fica feliz como se eu fosse tão importante aqui. E, por aqueles instantes, eu me sinto. O Uber chega, eu entro e ela fica me olhando de longe, até eu desaparecer.
O frio me deixa um pouco mais triste que o normal. Enquanto olho para o céu, dois pássaros — que eu não sei a espécie — cantam no telhado. Um canto tão triste que, só pra variar um pouco, escorrem algumas lágrimas.
Estava lendo sobre como essas datas, como o dia 12 de junho, afetam nós, mulheres. E faz total sentido, pois falava da mulher solteira, da mulher em um relacionamento tóxico e de tantos outros vieses. Eu sou questionada quase que diariamente se sou casada, se namoro, se fico, se converso com alguém — como se isso fosse algo obrigatório. E, quando eu gabarito todas as perguntas com um grande NÃO, começam as perguntas e afirmações, querendo justificativas. Eu não as devo a ninguém.
Eu detesto casualidades. Nunca gostei. Já até tentei e não gostei nem um pouco. E, nesses meses, eu só estou tentando sobreviver, de fato. Eu até disse, em outro texto, de uma carta que está escrita em alguma caixa que não foi desfeita. Eu escrevi para alguém que eu não sei quem é e muito menos se eu vou chegar a entregar para alguém. Mas, se eu entregar, será porque eu acho que, enfim, é pra sempre.
Me perguntaram: “Você gosta de ser solteira?”
Não, cara. Eu tenho 35 anos. Eu gostaria de estar grudada no frio com o amor da minha vida, sendo feliz — talvez com uma criança correndo pela casa, junto com nossos pets! Mas eu não vou sair com qualquer pessoa. Não vou ficar com alguém só porque não gosto de ficar sozinha. Eu não estou querendo nem conversar com ninguém romanticamente. Não tem espaço para nada passageiro em mim. Ou talvez não haja espaço para nada. Eu nunca fiz isso e não seria agora.
Voltei para uma rede social depois de seis meses, praticamente, e nunca a achei tão patética quanto tenho achado. As pessoas parecem objetos, e isso me assusta bastante. Todo mundo lá é feliz, bem-sucedido e sem problemas na vida. Parecem robôs!
Além de me deixar mais triste, o frio me deixa mais introspectiva e pensativa — se é que isso pode ser possível. Mas, em um desses momentos, eu percebi que alguns ciclos se fecharam dentro de mim, de vez. E isso é muito bom. Independente do que aconteça comigo, eu conseguindo ou não, fechar ciclos era essencial. E isso aconteceu.
Angelina.
"A gente passa a vida pelejando com o dilema de existir ou desistir, com o que é bom e o que é ruim, o certo e o errado, a morte e a vida. Essas coisas não se separam. O lugar que dói é o mesmo que sente arrepios. É no corpo, no amor e na liberdade de escolher as coisas que a gente fica inteiro ou despedaçado. Então, pede para a parte boa dar conta da parte ruim."
Carla Madeira, Tudo é Rio
"Era frio. Não sei dizer se fazia mais frio do lado de fora da minha blusa ou dentro do meu coração. Provavelmente competiam."
Caio Fernando Abreu
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